A Divisão

Estética da violência policial

Por Adriano Monteiro

Para entender A Divisão de Vicente Amorim é importante encontrar nas raízes do cinema brasileiro a tradição de explorar narrativas sociais, de miséria, fome e sofrimento. É caro à cinematografia brasileira assuntos que envolvam aspectos de nossa cultura colonizada como projeto político. Obras dos anos 1960 como, “Vidas Secas”, “Rio Zona Norte”, “Rio 40 Graus”, de Nelson Pereira dos Santos, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, “Os Fuzis”, de Ruy Guerra e “A Grande Cidade”, de Cacá Diegues, apresentam o sertão, os subúrbios e favelas dos grandes centros urbanos como cenários, moldando imaginários até hoje. A estética da fome, defendida por Glauber Rocha ganha novos contornos no decorrer dos anos 1990, quando o cinema brasileiro aproveita dos mesmos temas para criar narrativas mais diversas.

O retorno aos mesmos paradigmas ganha novos ares com “Central do Brasil”, de Walter Salles Jr, “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e até com os documentários “Santo Forte”, de Eduardo Coutinho e o que faz mais relação direta com o “A Divisão”: “Notícias de Uma Guerra Particular”, de João Moreira Salles. Aqui temos uma mudança primordial de sujeito, os olhos se voltam novamente para o favelado, mas com narrativas contundentes das relações entre tráfico e polícia, que desaguou posteriormente em filmes aclamados e de grande alcance popular como “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, “Ônibus 174”, “Tropa de Elite 1 e 2“, de José Padilha. No que Ivana Bentes chama de “cosmética da fome”, por justamente apresentar a realidade brasileira da favela e do sertão com inocência, pureza e utilização de técnicas do cinema-internacional, diferenciando-se, portanto, da estética violenta simbólica proposta pelo cinema-novo dos anos 1960. Aqui vale mais a glamourização, o espetáculo de belas imagens e técnica, criando um folclore midiático das histórias de crimes, massacres por meio de uma pobreza consumível.

O novo filme aqui em questão de Vicente Amorim, de “O Caminho das Nuvens” (2003) e “Corações Sujos” (2011), beberica dos mesmos goles temáticos já saturados do cinema brasileiro contemporâneo para criar um relato cru, de violência explícita da crueldade do sistema policial brasileiro. Enquanto Padilha e demais do gênero embarcam em uma romantização do ofício, “A Divisão” entrega com honestidade, quase exagerada, as ações policiais, carregadas de corrupção, jogos políticos e violência gratuita. O longa-metragem é de grande poder discursivo ao alugar técnicas cinematográficas hollywoodianas de filmes de ação, que conduz o espectador a uma imersão absoluta nas atrocidades ali mostradas. A direção de atores é surpreendente, com atuações fortes e convincentes. O texto quase sempre gritado contribui para a frenesi buscada pelo filme. O resultado é uma linguagem amadurecida de um cineasta que sabe muito bem o que está fazendo. Você gostando ou não.

O gênero do thriller proposto funciona à medida que usa a trilha sonora como muleta para criar a atmosfera de tensão. Baseado em fatos reais, o longa volta ao ano de 1997 no Rio de Janeiro, onde acontece uma “epidemia” de sequestros, que só revela diferentes camadas de corrupção política e policial pela ótica do DAAS (Divisão Antissequestro da Polícia do Rio de Janeiro). O sequestro da filha de um deputado-potencial governador é o que faz a narrativa andar até o fim dessa operação. O filme brinca com expectativas o tempo todo quanto as reais motivações de cada personagem. Se diferencia por fugir do maniqueísmo, da figura do bom moço e do vilão mal por natureza. Todos são corruptíveis, a depender do valor. Esse retrato de uma polícia assassina, torturadora, corrupta e hipócrita é explorada ao limite. Foge da glamourização da profissão. Os heróis só são estampados pelas capas de jornal e entrevistas de televisão. A realidade dos bastidores é outra.

“A Divisão” esbarra na tentativa de ser um filme-coral, por querer dar suporte a muitos personagens. Alguns arcos interessantes a narrativa se perde, principalmente a das duas únicas mulheres com relevância, que são pouco aproveitadas. É um filme viril, de masculinidade exacerbada. De corpos masculinos dando e recebendo ordens o tempo todo. Não que não essa não seja a realidade burocrática policial em 1997. Dois personagens centrais, Mendonça e Santiago lutam pelo controle da operação. Não há tempo de conhecê-los fora do ambiente de trabalho. Quando feito é para suporte do próprio trabalho. No contexto social, o filme aproveita de narrativas que proporcionam outros olhares a violência policial, em voga atualmente.

Ao contrário de “Macabro“, de Marcos Prado, exibido na Première Brasil do Festival do Rio 2019, que também trabalhou com uma história real para falar sobre as dinâmicas do Bope, mas terminou como uma típica jornada do herói de Campbell, “A Divisão” não abre espaço para finais felizes, mesmo com seu objetivo narrativo alcançado. O que é importante para histórias difíceis como a contada. Não apresentar soluções fáceis para temas complexos demais de serem reduzidos a um exercício de ego

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