Macabro

Corra!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

A filosofia da vida nos ensina que a melhor forma de melhorar nossas habilidades e qualidades é treinar (a “prática leva a perfeição”). Talvez o espectador precise lembrar desse ditado a fim de embarcar no novo longa-metragem de ficção do diretor Marcos Prado, “Macabro”, que integra a mostra competitiva do Festival do Rio 2019. É um filme de gênero que mescla o ocultismo com o cotidiano de policiais do Bope. Um que de “Tropa de Elite”, de José Padilha, pela narração didática (relatos-lembranças no presente em tempo real de acontecimentos-casos criminais), com “A Mata Negra”, de Rodrigo Aragão, pela organicidade amadora da construção do medo da violência.

“Macabro”, ainda que seja “baseado em fatos reais”, apresenta-se estruturalmente como uma novela (seus núcleos e edição ágil) que parece seriado policial (fetiches de visceralidade fisiológica), à moda de “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, com algum episódio de “CSI”. Para manter o mote palatável da trama ao público (destinado à massa), o filme imprime padronizações, cujas características imprimem diálogos forçados e potencialmente facilitadores (com ações minuciosamente explicadas) para criticar a polícia de forma limitadora e aceitável dentro da sociedade militar (exatamente como “Tropa de Elite” se comportou – timbre de efeito “morde e assopra”). E/ou quando alguém fala que é “para resolver matando logo os assassinos”.

Dias depois de um policial ser transferido por “erro” em serviço (alegando pressão e estresse por continuidade do trabalho). Como já foi dito, o roteiro tenta equalizar a história, com seus gatilhos comuns e decisões no último segundo do tempo já excedido do limite suportado. Mesmo que se alfinete as questões sociais, o filme não deseja estudar maneiras de mitigação dessa opressão, e sim ser um mero mecanismo de entretenimento, com suas cenas de ação e seus sustos causados. O que incomoda é a sensação de fora de tom. Há uma atmosfera hesitante (anti-naturalista) por parte de seus atores de se conservar no estágio do pré-ensaio. Tudo é urgente, amador, caseiro, artificial, afoito e estereotipado. Dessa forma, a imersão ao medo é prejudicada, soando quase cômico pela fragilidade do roteiro de suas frases de efeito, alegorias caricatas e o artifício da câmera que espreita.

Sim, é um filme de gênero e sim, ainda estamos engatinhando nesta seara cinematográfica. “Macabro” adentra no bucolismo de uma “cidade pacata de gente simples”. Aparentemente. De um “filho” que à casa retorna e mergulha na espiritualidade reinante do lugar. Com seus homens negros, missas, padres, macumbeiros e “diabos”. A investigação continua e a cada pista novos segredos da comunidade são revelados postos à prova, inferindo que estamos no universo temático de “Corra!”, de Jordan Peele, entre rituais, vinganças “crucificadas” e “mortes que sempre têm uma explicação”.

É também sobre a necessidade de cumprir a missão policial até o fim. E sobre brigas nas cadeias. E sobre o racismo entranhado. Sobre crianças aprendendo a viver com armas. Pois é, um filme que não vislumbra nunca o menos. O mais aqui é a cor mais forte. Com investigação por jornais, com um que de filmes de terror, “Macabro” levanta a bola da “selvageria que tomou conta”. E mesmo sem querer ser racista, o roteiro prova do mesmo veneno quando compactua com arquétipos condicionados: o vilão assassino negro, o macumbeiro suspeito  e os batuques africanos que remetem a ancestralidade, trazendo à tona toda uma história de traumas, humilhações e violências (físicas e morais).

“Macabro” é sobre o lado macabro de cada um de nós, que mascara preconceitos pelo medo da lei. Em uma terra sem lei, interiorana, quase miliciana, o filme remete ao passado e importa a figura da justiça subjetiva pelas próprias mãos, algo como o seriado “Westworld” e/ou “Noite de Crime”, em que um dia por ano todos “ganham” o direito de “purgar” quem quer que seja, com ou sem motivo aparente, às vezes apenas para alimentar nosso monstro animal que reside nas entranhas de nossas proteções maniqueístas.

Quando a lei “despreza” proteger, então seres humanos deixam de ser amigáveis e medrosos e se transformam em cruéis assassinos. Tudo retroalimentado pela perpetuação de ranços odiosos e percepções atrasadas e retrogradas de próximos com gosto de morte nos olhos. Aqui, o longa-metragem conversa com dois filmes que estão na mostra competitiva: o documentário “Sem Descanso”, de Bernard Attal, e “M8 – Quando a morte socorre a vida”, de Jeferson De. “Macabro” consegue representar a sociedade atual, que pensa menos para se divertir mais.

Trailer

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *