A Bordo

Sons atravessados

Por Fabricio Duque

Uma das magias do cinema é a possibilidade de personificar emoções advindas de histórias particulares de pessoas comuns, que representam conceito, base, foco, consequência e mensagem. O realizador curta-metragista Davi Mello tem noção disso. Seu segundo filme, “A Bordo” (2014), trabalho de conclusão de seu curso de cinema, o espectador é envolvido por uma sensação de vida acontecendo, em ações paralelas que complementam o ritmo ágil do olhar. A narrativa, intercalada e não linear, busca pausar o momento a fim de sentir suas invisibilidades.

Nós somos imersos na intimidade social da protagonista Lucia, interpretada pela atriz Sylvia Prado, que consegue transpassar uma melancolia protegida pelo silêncio, como se estivesse fora do tom do corpo e que só existisse entre performances em se esconder de algum tipo de observação, especialmente a nossa (longe do mascarar o seu eu durante o período no emprego como manicure e/ou alheia a um possível flerte-olhada de um passageiro no metrô e/ou a naturalização do nu), à moda de “Lavoura Arcaica”.  Tudo é precisamente captado pelo olhar, como na cena da clínica. Um misto de vulnerabilidade, ética, moralidade, nervosismo, ansiedade, torpor e uma infinitude de todos os sentimentos mundanos e universais.

Aos poucos conhecemos os detalhes de sua vida. Grávida e fará um exame de ultra som. Já se resignou em aceitar que está sozinha nesta nova fase e a perder o orgulho para ganhar doações, como a do carrinho de bebê. Uma das maestrias de “A Bordo” é seu desenho de som. Em uma cena por exemplo, a imagem de um caseiro dispositivo de cinema, o fenacistoscópio e o princípio da persistência retiniana, recebe o ruído vazado de uma moto. Dessa forma, com filosofia metafórica, pode-se perceber a crítica social de “cavalos” soando como “motos”.

Há querer, projeção e impedimento. Tudo junto e misturado. E/ou quando a porta do banheiro se fecha e uma fusão de prévios indicativos sonoros enganam e manipulam nosso achar ao melhor estilo estrutural de cinema descontínuo de Jean-Luc Godard. O barulho do relógio dá lugar de novo ao silencio e a um leve vento de uma cortina. A conclusão da história é de uma poesia coloquial, mórbida, orgânica e intrinsecamente humana. A terra como enterrar o sofrimento. A terra como cultivar a lembrança. A terra como libertar o luto.

E assim em “A Bordo” , a montanha russa, que nos traduz uma queda protegida, ainda que com a esperada sensação de medo máximo, gerando a vertigem extasiante de uma catarse-adrenalina, é mostrada pela câmera subjetiva para intensificar a sinestesia e comprovar outra metáfora: a de que a vida é uma sucessão de descidas e subidas em uma ilusória e otimista cadeira. Sim, a nossa protagonista só nos resta continuar e saltar no vazio de novas reviravoltas inevitáveis. Premiado em diversos festivais, como o 19º Festival Brasileiro de Cinema Universitário – FBCU – Destaque em Construção Narrativa. “Foi um projeto maior e com um maior orçamento, já que tínhamos mais membros na equipe e cada um cedeu uma grana. Também fizemos um financiamento coletivo a época pelo Catarse”, finaliza o diretor. O filme custou 11 mil reais.

 

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