7 Prisioneiros

Que moral tem a liberdade?

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Toronto 2021

Muitos realizadores acreditam que para fazer um filme é preciso super expor a criação. Ao optar pelo excesso, esquece-se que a maestria está de verdade no inverso: a despretensão de permitir a organicidade coloquial do desenvolvimento. Poucos conseguem. Alexandre Moratto é um deles. Após “Sócrates”, lança seu segundo longa-metragem “7 Prisioneiros” no Festival de Veneza e de Toronto 2021. O filme, ainda que com produção da Netflix, incorpora uma “vírgula deslocada” de ser um “filme brasileiro”, por construir uma ficção internalizada, dotada de uma tensão natural de perigo social, provocada pela necessidade sonhada de uma vida melhor. É quase um conto de fadas realista, que se inicia com uma ingênua utópica e termina com a perda total da esperança. Alexandre não tem ajuda somente por escolher um tema universal, mas principalmente por libertar a história, embasando a “demanda” da sobrevivência como consequência primal da existência humana.

“7 Prisioneiros” muito poderia tender ao lado sentimental, moralista e caricato dos arquétipos sociais, mas não. Pelo contrário. Quer-se o mundo cão do dia-a-dia. Alexandre é um lapidador ao incorporar à narrativa (que mantém o ritmo do início ao fim) a naturalidade crua (primitiva – sem falsas etiquetas) e humana (ainda que disfuncional e ilegal) dos diálogos, conseguindo inclusive amalgamar o improviso das ações cotidianas, como por exemplo, na parte inicial, no interior, durante o almoço. O filme também poderia descambar em uma novela clichês de temas básicos e prontos, “ajudados” com facilidade pelos roteiristas, mas não. Talvez o título desta crítica deveria ser “mas não”, visto que há sempre uma camada extra para aprofundar. A história é bem simples: conhecidos “agenciadores” de São Paulo recrutam trabalhadores  “bichos do mato” na roça oferecendo uma vida melhor, um futuro na metrópole (“Sair dali, ganhar dinheiro e prosperar”). Um deles aceita para que a mãe “não pegue mais na enxada”.

Talvez a maestria venha mesmo do trabalho visceral de seus atores, que se livraram das vaidades, dos gatilhos interpretativos, das reações de efeito e das proteções com o mundo real a fim de se entregarem ao máximo em seus papéis para se tornar as próprias personagens. O cineasta soviético Sergei Eisenstein, em seu livro “O Sentido do Filme”, define isso por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve condicionar a naturalização de sua personagem a ponto dissociá-la da própria construção. Assim, “7 Prisioneiros” é uma experiência. Uma sinestesia que evoca o medo de perder as “essências conservadoras”. Quando o “demônio” interno é acordado (e/ou estimulado), então o verdadeiro ser (que mora no refúgio mais fundo da alma) é finalmente conhecido. Sem máscaras e inocência. Apenas a lei do “mais forte”. Na natureza, o esperto sempre vence a batalha. É cruel e injusto? Sim. É o “selvagem jogo da vida”, que fortalece com rudeza para esconder a vulnerabilidade do fracasso.

“7 Prisioneiros” busca também a metáfora da prisão “aberta”. No ferro velho, entre trabalho manual à moda Charlie Chaplin e “Tempos Modernos”, todos, sem exceção, não possuem liberdade. São prisioneiros de um sistema que ama mais o dinheiro que a vida humana. Aqui, essa exploração da liberdade é apenas um conceito. Um Eldorado distante e inalcançável. Ninguém é livre. Nunca será. O longa-metragem traz a problematização social dos novos “escravos” da cidade grande, no mesmo molde dos garimpeiros, por exemplo. Já começam a “trabalhar” com dívidas. Ali, naquela “prisão”, eles precisam desacreditar nas rezas, “espíritos da transformação”. “Quem age igual animal, a gente trata igual animal”, diz o algoz, interpretado de maneira irretocável por Rodrigo Santoro, que na coletiva de imprensa de Veneza falou que se sentiu mal com seu papel um “cara completamente desprezível”. “7 Prisioneiros” intensifica esse tratamento violento, intercalando rotinas de fiscalização ao “lugar degradante”, polícia envolvida e ameaças. Um deles, vivido impecavelmente pelo ator Christian Malheiros, “topa negociar” com olhares cúmplices, jogos-artimanhas e metamorfoses para sair dali. Vale tudo para sobreviver? Qual o limite moral? Para isso, “mergulha” na “máfia” submundo ilegal, que abusa mulheres, imigrantes e vulneráveis.

Uma escolha de Sofia. Egoísmo (salvação) ou altruísmo (prisão)? “Esses prisioneiros são suficientes, são muitos. São eles que mantêm a cidade em pé e toda essa estrutura da cidade funcionando Se você não fizer, o outro faz. Livre para que? Para passar fome? Para ver a família na merda? Essa liberdade que você quer? A porta está aí, vai ser livre”, discursa sem julgamento moral, questionando quantas prisões nós vivemos a cada dia, até mesmo um condomínio de luxo. “7 Prisioneiros” é um “Faroeste Caboclo”, de uma esperança que se torna inferno, subvertendo inclusive a ideia de Robin Hood. Eles não estão ajudando os pobres? Eles mesmos? Podemos referenciar também o filme “O Advogado do Diabo”. O “ex-preso”, agora capanga carcereiro, é puxado e sugado nessa teia toda. Tenta-se comprar sua alma. Será que ele venderá? “Nunca subestime uma cobra”, avisa-se. “7 Prisioneiros” é uma parábola psicanalista da universalidade da vida atual, que desmascara qualquer resquício ético para manter o querer é poder. Como mensurar quais fins e quais meios até o objetivo traçado? A retórica encontra a potência da obra, que desenvolve a realidade pelo processo autodestrutivo da utopia.

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