Crítica + Vídeo: Sócrates

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Palmeira lavada de sangue

Por Gabriel Silveira

Durante o Festival do Rio 2018


Como uma parte majoritária dos brasileiros, Sócrates é, unicamente, filho de uma mulher, aquela que paga pela vilania da vontade do Homem; aquela que toma a rédea do seu caso de descaso e se esforça para comandar e salvar por conta própria, sob pena de danação eterna, a educação na essência dessa gente nossa. No texto, mãe é a única guarda que há nessa terra onde o bicho come solto e desvairado. E, no princípio, conhecemos Sócrates no momento em que ele desconhece todas as suas bases. O grito desesperado que Christian Malheiros viabiliza à protagonista ensurdece para além do vácuo. O corpo daquela mãe que não acorda, sem vida, reação, o que se via naqueles olhos brancos e vazios entre abertos era apenas o portal da jornada sem rumo ou volta qual o rapaz de quinze anos de idade embarcaria.

No instinto não há tempo para luto. É sair de casa para não cair no purgatório de um quarto cinza acorrentado. É chegar no serviço da mãe falecida e trabalhar clandestinamente na expectativa de que ninguém te descubra. É ser pego e perceber que lidando com esses caras é tu ou eles, porque, todo mundo tem empatia, mas ninguém levanta a bunda pra te salvar. Todo muito está entendendo a situação, sim, todos estão vendo um garoto de quinze anos de idade abandonado implorando por um emprego, mas ninguém olha na cara dele — cada um deles vai fazendo o seu como se nada tivesse acontecendo.

Se nada está acontecendo é porque para eles você não está acontecendo. Daí há de se cair na rua porque nem um mês de aluguel se consegue pagar direito com a gota mal pingada de remuneração que um ferro velho vai te dar na marra. Nessa rua que você cai há ainda algumas ilusões, uns tetos momentâneos, algumas mãos conhecidas que se esticam. De tão frouxas que são você tem medo de que elas possam te soltar, talvez pior, largar um tapa na sua cara — de repente descem um murro nos teus dentes. No desespero se correr sem saber para onde e se vaga. Com apenas dois tostões no bolso o que se consegue para enganar o estômago é um pacote de chicletes. Não há nem tempo de se entender a figura daquele gosto, só engolir aquela goma seca e esperar que toda a saliva que ainda há no seu organismo tome algum gosto junto daquela goma pastosa que vai servir como argila molhada para tampar por míseros segundos o buraco em seu estômago.

Por sorte, ou azar, uma das únicas luzes que aparecem no caminho é aquela que de te dar um verdadeiro acolhimento, de corpo e de alma. Aquilo se torna um momento de descoberta mútua dos dois corpos, uma hesitação que insiste em se mascarar num repúdio macho. E essa faceta, que se faz pelo medo, apenas revela-se insolucionável com a exposição de cada paradigma imposto involuntariamente sobre seu corpo. A única maneira que se encontra de resistir a maré feroz é de se entregar a todas as vontades que a pele e o peito exigem, sempre levando sua condição no limite do pavor — é a única maneira. O amor há de fato naquele lugar, só é uma pena que é o mesmo amor que deu início a toda esta história quando seu pai te arrebentou para fora de casa enquanto bradava “Vá se foder, seu chupa rola do caralho”.

“Sócrates”, de Alex Moratto, é uma narrativa de pele, não pele apenas pelo o que há de intrínseco no discurso, mas pele porque é catarse subcutânea, é de se levar a transcendência de todo o espelho de empatia que a fisiologia humana pode chegar. Um texto que leva o corpo para a rua, a rua para o corpo e a dor para o espírito. Sócrates é chegar de cara à face dos portões do inferno brasileiro, aquele que faria Dante colapsar de medo, evaporar de pavor. O pavor, ter 15 anos sem rumo, fim do caminho, o universo de purgação de mais de 100 mil brasileiros. Lidar com esta irrevogável e inexorável maldição que corre no âmago do espírito desta terra do desgaste voluntário da gente. A única reforma da alma possível é a do amor.


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