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171

Algumas verdades, mas quantas mentiras?

Por Pedro Sales

Durante o Festival É Tudo Verdade 2023

171

O Código Penal Brasileiro define o estelionato como: “Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento: Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa, de quinhentos mil réis a dez contos de réis”, Juridiquês à parte, a maioria das pessoas podem não saber, palavra por palavra, o que diz o artigo 171, mas todos conhecem a essência do termo e o que ele significa. O dito “pilantra”, “trambiqueiro”, “golpista” já se tornou um esterótipo consolidado na cultura brasileira. Se você não é, pelo menos conhece um. Em “171“, o diretor Rodrigo Siqueira visita presídios de São Paulo e dá voz aos detentos e às detentas. Alguns presos por estelionato, outros por roubo ou tráfico de drogas. Independente da pena que cumprem e por qual delito, no ambiente prisional, todos são identificados como 171’s, ardilosos e mentirosos contumazes.

Para ser bem sincero, a desconfiança que senti assistindo ao documentário só é comparável a que eu sentia vendo os programas mais duvidosos do History Channel. É natural ficar com esse pé atrás, principalmente tendo em vista a natureza dos personagens, os quais são hábeis com as palavras e possuem um alto poder de sugestão nos seus ouvintes. Bem, desconfiar nunca é tão ruim assim, aprendi isso com Orson Welles no excelente “Verdades e Mentiras“, originalmente “F For Fake”. Ninguém gosta ou quer ser passado para trás, nem mesmo o passivo espectador. Apesar disso, é inútil tentar resistir, só não é enganado quem não acredita em nada. Por isso, a relação inicial que Siqueira estabelece entre o ator e o 171 é potente. Assim como o público é sugestionado a acreditar e se emocionar com o ator, a vítima do 171 também está suscetível aos mesmos efeitos, com o bônus de ser lesada financeiramente.

Em “171“, um argumento central é que atuar é mentir, por isso todo 171 é um pouco ator. Patrick, é por formação, ou pelo menos diz ser. Os outros assumem ocupações distintas, mas o espectador nunca consegue afirmar com certeza se eles de fato são o que demonstram. Para o vigarista, o mundo é o palco e qualquer um está sujeito a ser sua vítima-plateia. Dá para confundir esses mundos, o real e o interpretado? Como separar o verdadeiro eu do personagem criado? São questões que pairam, mas quase sem respostas contundentes. Mentir é um processo relativamente natural, só que nem todos tem a mesma frieza (enganar uma juíza, propor esquemas milionários de investimento no boi gordo). Um dos entrevistados até afirma que “todo mundo é um pouco 171”. Ele exemplifica com uma situação simples, porém corriqueira. O cara que para conquistar uma mulher inventa todo tipo de história simplesmente para impressionar.

Assumindo as imbricações entre o teatro e a arte de enganar, o diretor Rodrigo Siqueira propõe no filme uma amálgama entre realidade e ficção, conexões entre documentário e encenação. De maneira metalinguística, ele interpõe a dúvida principal entre verdadeiro e falso. Para tal, em momentos pontuais, flerta com a docuficção, há reconstituições de delitos e episódios narrados, como quando a dentista-pensionista-presa assume todos os papéis da “cena”. No entanto, não chega a ser um mockumentary (ainda bem). A teatralidade, portanto, se apresenta como ruptura do modelo convencional de documentário. Os personagens demonstram a facilidade que possuem em personificar por meio fingimento, mas aqui com propósito artístico. Essa quebra se torna bem perceptível, o espectador sente que algo está diferente (como o detento virou padre?). Além dessa questão, Siqueira constrói ecos com o texto de Luigi Pirandello, “Seis Personagens à Procura de um Autor”, que explora a relação entre diretor, atores e performance. O único problema na metalinguagem entre teatro-171 é a ausência de homogeneidade na participação dos personagens. Uns aparecem mais, outros menos. Patrick, por exemplo, exerce destaque no começo, mas só reaparece no final.

171” é um filme dado à ambiguidade. Se os relatos são falsos ou verdadeiros, isso na realidade pouco importa. A preocupação primordial do longa é trazer a condição criminal, de enganador, de 171 para as telas e construir esse jogo cênico do convencimento. É por isso que a tese que relaciona atuação e estelionato é profundamente explorada, pois é uma forma de criar a dúvida no próprio público. “Ah, mas eu nunca cairia nesse golpe”, normalmente pensamos ao vermos no noticiário todo tipo de esquema. O que Siqueira faz é questionar esse tipo de pensamento. Você diz que não cairia, mas acreditou em tudo que foi dito. Um detalhe que deixei passar é a fotografia em preto e branco. Seria uma decisão estética para reafirmar contrastes e extremos de certo e errado? Acho improvável, parece mais uma forma de apresentar as zonas cinzentas que permeiam a noção do que é verdade e mentira.

3 Nota do Crítico 5 1

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