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Zona árida

Quem são eles?

Por Victor Faverin

Um país que faz questão de mostrar ao mundo que se orgulha do que é, mas cujos cidadãos não sabem descrever exatamente o que são. “Zona árida” (2019), documentário produzido e dirigido pela paulista Fernanda Pessoa ilustra essa contradição que são os Estados Unidos, uma terra espremida entre outras duas nações, mas que se julga dona do adjetivo “americano” e, por consequência, de todo o continente. É difícil não sentir raiva dos ianques após assistir à obra, talvez porque o egocentrismo dos entrevistados pulse na tela a todo instante. Tal comportamento é intensificado pela região retratada: a cidade de Mesa, no Arizona, reconhecida como a mais conservadora do país.

Essa filosofia social, aliás, é o mote do documentário, que busca mostrar como o município do sudoeste estadunidense e o modo de vida de seus moradores podem explicar a ascensão de Donald Trump à Casa Branca. Em certo momento, Fernanda questiona o elenco a respeito do que significa, para eles, ser conservador. As respostas – principalmente uma em particular – não poderiam ser mais distantes da realidade. A partir de então, entendemos como a alienação pode ser um ingrediente intrínseco à personalidade de um povo que se acha detentor do farol da liberdade e da democracia no planeta. Fica claro, assim, que falta em “Zona árida” um contraponto mais enfático daquele que é apresentado. Afinal, nem todos podem ser tão idiotas.

O documentário é calcado na experiência de intercâmbio vivida por Fernanda nos Estados Unidos quando ela tinha 15 anos, em 2001, e é narrado por ela mesma, em terceira pessoa, a partir do retorno que fez à cidade de Mesa em 2016, mesmo jurando a si mesma que jamais voltaria ali. Assim, ela procura entender o que a atraiu no país e a dar voz às pessoas que conviveram com ela na época. A narração em off mostra-se, desta forma, como a de uma mulher tentando capturar os sentimentos e anseios de uma adolescente cheia de sonhos e que os viu ruir com o passar dos meses em solo estrangeiro. O problema é que tais impedimentos não se materializam, não ficam claros ao espectador, ainda que prenunciados pela diretora nos primeiros minutos do documentário.

Essa falta de precisão é sentida, ainda que nas entrelinhas seja possível perceber a magnitude de todo o estranhamento e choque de cultura sentido pela Fernanda de 2001 e refletido e analisado pela Fernanda de agora. “No Brasil, você usufruía do seu privilégio branco de classe sem se questionar, mas aqui é diferente”, ela diz, em certo ponto, como se estivesse querendo passar uma lição em sua versão mais jovem. Tal constatação diz muito sobre nós, brasileiros, assim como aos mexicanos, como destacado em “Dias de Inverno” (2020). Muitos sonham com o ideal de vida norte-americano, ainda mais agora em que Bolsonaro e seus filhos fazem constantes alusões sobre o servilismo que pretendem continuar mantendo em relação à terra do Tio Sam, algo tão contrário à ideia de patriotismo que anunciavam em campanha.

Aliás, o conceito de patriotismo também é evocado em “Zona árida” de forma escancarada, como nas bandeiras estadunidenses em cada portão, além do apego e amor às armas de fogo. É caricato ver coleções de espingardas, rifles e revólveres e ouvir de um dos entrevistados que ele carrega sua pistola onde quer que vá, colocando-a até mesmo debaixo do travesseiro todas as noites. Ainda assim, não há intenção da diretora de expor esse hábito perigoso como algo jocoso, mas sim de chamar a atenção para o que pode vir a acontecer no Brasil e em outros países em que a posse desses instrumentos mortíferos ainda é tabu. “Os Estados Unidos possuem 112 mil armas para cada 100 mil habitantes”, é ressaltado, com brio, em certo ponto.

O espectador talvez tenha a impressão de que, da mesma forma que esse poder bélico é motivo de orgulho nacional, também serve como um lembrete constante de que, a qualquer momento, uma chacina pode acontecer e que serão discutidos milhares de motivos que levaram à tragédia, mas que o direito à posse – ou ostentação – do poder de fogo sairá sempre vencedor em qualquer discussão. Da mesma maneira que a política externa norte-americana intervém em governos estrangeiros e se exime de reparar os danos que causou com tal atitude. A causa do mau não é combatida. “Por que temos de ajudar outros países? Já temos nossas próprias dívidas”.

O documentário “Zona árida” traz um retrato que não busca reforçar estereótipos, mas que os encontra naturalmente ao longo do caminho. A figura do norte-americano orgulhoso da liberdade que acha que usufrui e alheio aos problemas dos outros pode não ser a mais fiel, mas de certo é a transmitida por baixo de toda a maquiagem e dos efeitos visuais das produções hollywoodianas. “Qualquer minúscula cidade dos Estados Unidos será, para eles, mais importante do que as metrópoles da América do Sul”, diz Fernanda, em dado momento. Já sabíamos, mas não custa lembrar.


O filme recebeu Menção Honrosa do Juri da mostra competitiva Next Masters no Festival Dok Leipizig 2019, um dos festivais de documentário mais tradicionais do mundo. E está disponível nas plataformas NET, Vivo e Oi. 

Trailer

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