You Tubers

Personas em desconstrução

Por Fabricio Duque

“Eu quero apenas um vento forte
Levar meu barco no rumo norte
E no caminho o que eu pescar
Quero dividir quando lá chegar
Quero levar o meu canto amigo
A qualquer amigo que precisar.
Eu quero ter um milhão de amigos
E bem mais forte poder cantar.”

O trecho da música de Roberto Carlos, composta com seu “amigo de fé, irmão camarada” Erasmo Carlos, talvez seja a primeira indicação de nascimento dos Youtubers, influenciadores digitais que levam mensagem a milhões de pessoas e ressignificam o conceito de amizade por quantidade de inscrições no canal internauta, medindo sucessos por likes. Mas o que esses seres pensam? Como se comportam? O que comem? Todos estes questionamentos são levantados no documentário “You Tubers”, de Bebeto Abrantes e Sandra Werneck.

Só que quem buscar no filme respostas prontas e definitivas irá se decepcionar, porque o objetivo de “You Tubers” é gerar perguntas sendo observacional, principalmente quando passa ao espectador a responsabilidade da própria análise do antropológico comportamento cognitivo atual. É uma obra de bastidores a fim de mostrar o que realmente é essência previa e intrínseca dos personagens escolhidos e expostos. Nós ganhamos a possibilidade de contemplá-los pela inversão de perspectiva, como um confronto de quebrar o protocolo de serem o que esperam que eles sejam e se desnudar, por fragmentos vulneráveis de “descanso” conduzido. Ainda que estejam à frente da câmera, dessa vez, estes “formadores de opinião” serão “persona”, de auto-projeção protegida. De ser você em tubos conectivos. Aqui, o in (dentro) conversa e troca com o out (fora).

You Tubers”, pela condução narrativa mais intimista e reflexiva, busca humanizar esses quatro personagens: Jout Jout, Bispo Arnaldo, Rita Von Hunty e Spartakus. Mas é complexo por tentar construir o youtuber como um vivente da própria criação. Há uma falsa interpretação do próprio eu deles para que consigam transpassar um eu mais natural que é apresentado a todos. Um alimento do ego versus a necessidade fisiológica do próprio existir. Percebemos suas hiperatividades, perdendo-se em ideias e dramaticidades (qualquer detalhe é uma “tempestade num copo d’água”).

Nesse momento, ao desmistificar a figura de sucesso em vulnerabilidade e de precisar, todo tempo, de carinho e reconhecimento, nós espectadores sentimos pena dessas almas vazias que querem “mudar e consertar o mundo” com seus discursos cúmplices dos algoritmos. É uma vida artificial (de super-herói invencível) que se torna normal pela repetição massificada de naturalizar o que antes era apenas uma projeção-sonho de sucesso. Com hipérbole e desembaraço. Sim, é muito complexo racionalizar o que sentimos quando se tenta traduzir nossas percepções tão imbuídas neste novo mundo cibernético. Complexo até demais.

Nós percebemos também a necessidade que eles têm de sentir cada vez mais o cotidiano orgânico, como férias de um mundo retroalimentado, visto que precisam oferecer ao público uma fabulação de um conceito real, mas que seja polêmico até certo ponto para não “chocar”. Aqui, alguns protagonistas deste mundo internauta lutam para conservar os discursos temáticos e identitários (um professor, por exemplo, coloca uma frase do Paulo Freire sobre ensinar). Há o universo feminista, o universo negro, o universo trans, o universo de crítica aos evangélicos (ainda que seu interlocutor também participe ativamente do meio em que confronta). Todos querem a liberdade socialista do falar com a renda capitalista gerada pelas curtidas. Incompatível esse novo modelo comportamental-social? Talvez. O mais curioso e perigoso é que se esta mensagem “editada” (nivelada por um padrão de dizer o que se achará que é o bom de ouvir), que influencia as ideias dos outros (estes que precisam de alguém para pensar por eles), for difundida, então nós teremos sim uma alienação de massa. “Hoje eu não posso ligar minha câmera e falar a minha opinião. Eu preciso escrever um roteiro e revisar letra por letra de tudo que eu pensei antes pra poder não falar realmente algo que possa causar alguma coisa”, diz um youtuber.

You Tubers” repassam uma “linguagem na internet mais jovem, mais popular e mais acessível”. Alguns se utilizam até da infantilização como Felipe Neto, que de um tempo para cá “encontrou” o lado politizado da vida e foi até convidado ao programa Roda Vida. Não neste documentário. Seus realizadores foram atrás de histórias de pessoas que realmente influenciam, ainda que sigam todas as regras permitidas da cartilha dos formadores de opinião. Ontem um dos meus alunos do curso de crítica de cinema disse que não sabe mais o que fazer para conseguir seguidores. Eu perguntei: “Você está disposto a tudo para conseguir?”. Ele respondeu: “Sim. Tudo”. Mas o que faz alguém impactar milhões de pessoas?  Rita Von Hunty ajuda a solucionar esse impasse. “Se você não usa nada disso para mudar a realidade, então para que tudo isso serve?”, diz. Um eu que tenta ajudar a todos os outros vocês. “O prato final que eu quero servir é um prato amargo sobre debate político”.

Cada um deles vive intensamente seu mundo e acreditam (e sofrem) que são o centro das atenções, com os haters e “lixamento virtual”, mesmo que repitam: “Parece que tudo vai ser pra sempre, mas não é mais nada, nem os nadas”. O público percebe que todos eles estão perdidos em suas “missões”. E sentimos ainda mais pena. Nós apoiamos a vida road-tube de Jout Jout. E achamos que outros criam cenários oportunistas e políticos para impulsionar o discurso do racismo estrutural, questão mais que urgente a ser debatida por nossa sociedade. Mas será que um estúdio com a placa de Marielle Franco, uma bandeira gay, uma foto de Nova Iorque e um livro sobre Angela Davis consegue ser condizente? Não tenho essa resposta, porque a pergunta é aberta a interpretações, especialmente quando o filme encontra a escola de Jongo, cuja representante deveria sim ser uma youtuber.

You Tubers” mostra que eles são “empregados da plataforma” Youtube, porque os “obrigam que você trabalhe postando todo dia e que sempre tenha conteúdo. Isso causa ansiedade”. E vício-obsessão em ter que estar conectado o tempo inteiro. “Quando você não tem opressão, o seu vazio é o amor”, finaliza. O filme é um documento cognitivo de auto-ato análise antropológica com antropofagia simbólica em “se alimentar” do outro para existir mais um pouco. Sim, são zumbis modernos de um mundo que não mais é real. E muito obrigado por este não parecer em nada com a “convenção de youtubers” de “Internet – o Filme”, de Filippo Capuzzi Lapietra.


CANAL CURTA!

Sexta da Sociedade – 11/09, 21h30

Horários alternativos: 12 de setembro, sábado, às 01:30 e às 15h;13 de setembro, domingo, às 22h30.

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