Yes
Cacofonia x Caos
Por João Lanari Bo
Festival de Cannes 2025
A questão fundamental é: o que são os israelenses? Como defini-los? Podemos resumi-los às atrocidades que cometem – ou em seu nome – ou são algo mais? Este é um tema que o filme explora diversas vezes (Nadav Lapid)
Como refletir sobre um filme israelense, nesta altura do campeonato? “Yes”, realizado pelo israelense Nadav Lapid em 2025, fornece, senão uma resposta, pelo menos um índice de questões como ponto de partida. Rodado após o massacre de 7 de outubro, em que um ataque do Hamas tomou de assalto a região próxima à Faixa de Gaza – liquidando cerca de 1.200 vítimas, inclusive crianças e velhos, e levando cerca de 200 reféns, das quais 30 crianças – o filme de Nadav teve de lidar com uma realidade muito mais dramática: a reação desproporcional de Israel, que matou mais de 72 mil pessoas, entre elas milhares de crianças, de acordo com dados do Ministério da Saúde palestino.
Como resolver essa contradição? Navid é crítico contumaz da cultura militar prevalecente em seu país, da censura artística, do clima intimidatório provocado pela coalizão de extrema direita, mas ao mesmo tempo é capaz de afirmações bombásticas como não acredito que o problema de Israel seja o governo Netanyahu […] penso que este genocídio que está sendo cometido é de responsabilidade do povo israelense. O diretor, por precaução talvez, mudou-se para a França – uma declaração dessas é considerada alta traição em Israel. Depois do sucesso de “Synonymes”, que realizou em 2019 e ganhou o Urso de Ouro em Berlim, passou a ter acesso a uma diversificada fonte de recursos para produção, começando pelos aportes franceses.
Em “Yes”, entraram fundos até do “Israel Film Fund”. Para um projeto de natureza controversa e altamente política, é um feito. Um personagem amoral, meio palhaço meio pianista, vocifera diariamente sua raiva contra o Estado e a burguesia que o sustenta. Se nome é Y, somente a letra Y: para Navid, é uma forma de dizer que personagem não existe. Na introdução do filme, Y (Ariel Bronz) pratica uma coreografia frenética com Yasmine (Efrat Dor), sua mulher, que arrola sexo oral em uma baguete, mergulho da cabeça em uma poncheira e banho de piscina quase fatal para arrematar. Na sequência, Y e Yasmine seguem para um ménage a trois com uma senhora estribada local.
O que vem depois dessa aceleração inicial – editada com precisão vertiginosa e maximalista, desesperada e exuberante – é uma comédia satírica cheia de situações absurdas, mas perigosamente ancoradas no real. O alvo da mordacidade são as classes dominantes e os respectivos lacaios – o suprassumo atende pelo nome de “Bilionário” (Aleksey Serebryakov, destacado ator russo). O Bilionário, que consegue levantar arranha-céus do chão com um único botão, parece um oligarca que prosperou na invasão da Ucrânia e resolve por a mão, ou seja, ganhar dinheiro, na guerra de Gaza. E faz uma proposta a Y: compor a música para um novo hino sanguinário que galvanizará o povo israelense em torno da aniquilação do povo palestino.
Essa música seria um “hino para a geração da vitória”, com uma letra absurdamente assassina. A inspiração para o hino veio, por incrível que pareça, do grupo ativista “Frente Cívica”, que lançou, após o ataque de 7 de outubro, uma versão da clássica canção de Haim Gouri (“Hareut”, ou “Companheirismo”), de 1948. A nova versão incitava extermínio em massa em Gaza, tal como defendido por setores de extrema direita minoritários em Israel. A família do compositor repudiou, naturalmente, a deturpação da letra, até mesmo seu uso em “Yes”.
Nosso compositor Y, malgrado a promessa de alto retorno financeiro para escrever o hino, entra num sério dilema de consciência. Ele pinta o cabelo de louro, vai até o Mar Morto em busca de inspiração – e aproxima-se geograficamente da Faixa de Gaza, avistando bombardeios e destruição. Encontra uma ex-namorada, Leah (Naama Preis) e defronta-se com as atrocidades da crise humanitária.
Como, enfim, entender a estrutura de “Yes”, um filme israelense crítico do seu país de origem, mas imersono momento absurdamente patético do massacre de palestinos em Gaza? Nadav Lapid dá pistas: minha estrutura, meu cinema, se baseia em muitos elementos simultaneamente. Uma justaposição de elementos, como se a própria realidade, na medida da sua insuperável complexidade, fosse apenas um empilhamento de emoções e situações. E complementa:
O filme é uma batalha interminável entre elementos, criando essa cacofonia, que, para mim, é a forma mais próxima que o cinema consegue alcançar da verdade do momento, que é o caos.


