Sinônimos

A transmutação dos Jovens Turcos

Por Fabricio Duque

No dicionário, “Sinônimos” é um filme-dicionário por definir a palavra, um adjetivo masculino, como “significado semelhante à outra e que pode, em alguns contextos, ser usada em seu lugar sem alterar o significado da sentença”. É diferente, mas igual. Assim, o titulo homônimo, aqui no plural, “Sinônimos”, que foi exibido no Festival de Berlim 2019, vencendo a estatueta do Urso de Ouro de Melhor Filme, é um filme estranho. Muito estranho.

Não por causa de sua ambiência distante e artificial, tampouco por sua narrativa desconstruída ao vazio, mas sim por buscar uma relação alheia com o público que quer direcionar. Busca-se o tempo fora da existência, como se a vivência fosse uma metafórica vírgula deslocada, ambulante e perdida dentro de si mesmo.

Dessa forma, o resultado final de “Sinônimos” soa como uma pretensiosa criação. Que pode ser embasada em concretos argumentos se nós espectadores analisarmos nosso próprio mundo atual em que vivemos, e, principalmente, se estivermos em uma jovem França de arquétipos idiossincráticos e de comportamento hipster-blasé que escondem com pedantismo no agir as fragilidades vulneráveis do não saber agir.

É uma defesa de atitude passiva agressiva que retroalimenta o futuro e destrói o que ainda há por vir. É integrante do moderninho gênero arthouse, quando quer humanizar elegância com desleixo editado, principalmente quando escalas atores da “Novíssima Onda”.

“Sinônimos”, que integra a Mostra de Cinema de São Paulo 2019, é um filme que questiona nosso próprio olhar. Como percebemos nosso redor e especialmente a nos mesmos. Nós que a cada dia interagimos experiências instantâneas estamos a nos comportar como estrangeiros da própria cultura, alienados em condicionamentos e mitigados de apuros críticos.

Se o mundo é um pêndulo, a luta da Nouvelle Vague em manter um cinema de arte perde força e muda a ressignificação a uma versão mais etérea da personificação. Isso desemboca em um dos pontos cruciais que precisam ser abordados: a influência direta e desalinhada dos jovens de hoje. Se antes eram turcos, agora ganham pluralidades geográficas, aqui é sobre um adolescente israelita. Cada vez importações configuram-se mais presentes.

Certa vez, no Facebook, alguém, com seus dezoito anos, escreveu: “nós jovens somos a geração da solidão”. Sim, é o ciclo invertido. De retornar ao casulo e à Caverna de Platão. De se contentar com o limite da descoberta. Quase como um “empoderamento” (a palavra do momento) ao individualismo exacerbado e ao egocentrismo fluido.

Quando nosso protagonista Yoav (o ator Tom Mercier, estreante em um longa-metragem) investe sua passionalidade-energia-impulso para viver uma nova identidade (e “explodir” sua nacionalidade anterior), então adentra também nas dificuldades do caminho. É a jornada de conhecimento e aceitação. O nascimento de um novo ser social. Determinado a extinguir suas origens, seu principal companheiro é um dicionário de francês-hebreu. Paris é sua nova morada. Sua cidade luz. E na “odisseia” encontra Carolina (a atriz Louise Chevillotte, de “Amante por Um dia” de Philippe Garrel) e Emile (o ator Quentin Dolmaire, de “Três Lembranças da Minha Juventude”, de Arnaud Desplechin).

Dirigido pelo israelense Nadav Lapid (de “A Professora do Jardim de Infância”), “Sinônimos” busca ser também político quando amalgama um intimista estudo de caso com a questão da imigração, desenvolvendo o discurso antissemita, hipócrita em tempos atuais por causa da necessidade de ter que aceitar a diferença do próximo.

Mas realmente o que mais incomoda no longa-metragem é a tentativa de tornar nosso olhar fútil. De pulular artifícios visuais gratuitos como nudez em close, a fim de despertar desejo e cumplicidade ao que se assiste. De enaltecer a volatilidade desabilitada, frívola, ventosa. É um vácuo oco e boboca. E excessivamente ingênuo e preguiçoso. Não por propósito, mas pela crença absoluta de que o que faz é mitigado de erros.

Nós somos transportados a um mundo de referências cinéfilas, quando tenta ser François Truffaut, quando tenta ser Jean-Luc Godard, quando tenta ser Bernardo Bertolucci (essencialmente em seu “Os Sonhadores”). O filme é apenas um ensaio. Uma tentativa de ser sem conseguir avançar, talvez pela direção que aprisionou o roteiro, o impedindo de se libertar e ir adiante. Sim, é um filme que divide opiniões. Enquanto uns idolatram, outros rejeitam com enérgicos adjetivos. E levanta um questionamento sobre os vencedores de Berlim, vide o russo “Não me toque”, de Adina Pintilie,  que venceu em 2018.

Pois é, “Sinônimos” fica no meio do que se pretender ser, buscando com outro talvez representar a alienação pensante que reina nos “novos” jovens turcos transmutados, perdendo-se na redenção e na moral binária. Tudo em um retrato descontínuo sobre a condição humana nem um pouco humana. Com seus surtos, gatilhos comuns, obviedades, conflitos e interesses bipolares.

 

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