Xadalu e o Jaguaretê

Intercâmbio e conjunturas

Por Vitor Velloso

Durante a CineOP 2021

Fechando a cobertura dos longas contemporâneos na CineOP 2021, “Xadalu e o Jaguaretê” de Tiago Bortolini de Castro e co-dirigido por Ariel Kuaray Ortega, é um documentário que mostra a troca de experiências entre Xadalu (artista urbano mestiço) e Ariel (indígena da etnia Mbya Guarani), enquanto o primeiro passa a compreender o verdadeiro significado de sua arte. Aqui, essa troca é o grande motor do filme, que apresenta inicialmente o que Xadalu realiza durante as Olímpiadas no Rio de Janeiro, para em seguida mostrar o encontro. 

A construção é bastante didática, seguida de flashbacks e retomadas de momentos anteriores de ambos artistas. Essa troca de experiências tem seu ponto alto no momento que Ariel confronta a intencionalidade do homem branco em suas representações. Mostrando à Xadalu o que ele ganhava com a exposição dessas figuras. Essa exposição é feita para gerar uma autocrítica no artista urbano. Está claro que essa dicotomia na forma de enxergar o modo de vida nativo se torna uma base capilarizada das ideias cinematográficas de “Xadalu e o Jaguaretê”. A produção persegue os dois nessa exploração pelo mundo, espalhando a arte e representação indígena. 

O problema é que após o momento de “conflito de interesses” inicial, o longa entra em um platô, onde essa arte vai sendo divulgada pela Europa e possui pouca ressonância crítica, até quando o filme denuncia que uma cidadã europeia chamou a polícia. Por essa razão, o espectador se atém aos momentos de didatismo direto, onde Xadalu ensina à confecção das artes e como realizar as estampas da camisa. Esse processo criativo vai sendo construído durante a progressão, mas a verve inicial que criava uma ruptura nos caminhos cruzados, é abandonada para compreendermos o início de uma amizade. E aqui o documentário perde uma grande oportunidade de debater como essa troca atinge diretamente os meios sociais frequentados pelos dois. O olhar é restrito no intercâmbio. Como retrato dessa criação, funciona muito bem, como estrutura da sociedade e análise totalizante dessa própria arte e como isso é repercutido de maneira pública, não é explorado. 

“Xadalu e o Jaguaretê” sabe formalizar um documentário em sentido institucional, no próprio caminho das produções contemporâneas. Essa linguagem caminha na contramão de como busca representar essa possível “digressão” no ato artístico. A breve dicotomia entre as duas percepções, faz com que o ritmo sofra com a falta de unidade política diante desses atos. De toda forma, é notável que as recorrências didáticas propostas dos dois lados, “unificados” posteriormente, ganham fôlego no centro do projeto e essa conjuntura se torna o ponto basilar que essa troca pode oferecer para que a relação profissional não seja unilateral. E aqui, algumas coisas chamam atenção, a maneira como o longa articula a viagem como uma unificação de um elo comum, através da arte, a ideia de que a arte como “ato de rebeldia” é um reforço de uma questão histórica, uma ocupação daquele espaço e paisagem públicos. 

Porém, como dito anteriormente, as ideias são construídas através de uma questão pragmática dessa forma, como um alinhamento da linguagem, o que o faz perder força ao distanciar-se do que esses registros propõem em um primeiro momento. É um problema que está presente em parte das produções contemporâneas, que possuem um olhar anti-materialista, fatalista ou excessivamente colorido em torno da realidade. No caso de “Xadalu e o Jaguaretê” é mais uma pré disposição de assumir essa recorrência, que um movimento conservador. A alocação do projeto durante a CineOP, possui a importância de uma exibição que se encontra em um meio que debate preservação, história e educação, ou seja, o exercício político está na própria projeção de maneira ainda mais disseminada em um período onde a exibição irá acontecer de maneira remota. Mas sem dúvida, os possíveis debates que seriam gerados após a sessão, de maneira coletiva, iriam gerar contornos mais complexos que essa experiência quase corriqueira consegue transmitir, pois mesmo com problemas, é necessário pensar na falsa ideia da democracia étnica, aqui, artística também.

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