Ficha Técnica

Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Jane Goldman, Jamie Moss
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbander, Alice Eve, Kevin Bacon, Nicholas Hoult, Jennifer Lawrence, January Jones, Rose Byrne, Jason Flemyng, Oliver Platt
Fotografia: John Mathieson
Música: Henry Jackman
Direção de arte: Paul Booth e James Hambidge
Figurino: Sammy Sheldon
Edição: Eddie Hamilton e Jon Harris
Efeitos especiais:4DMax / Cinesite / Digital Domain / Luma Pictures / Method Studios / Moving Picture Company / The Senate Visual Effects / The Third Floor / Spectral Motion / Trixter Film / The Visual Effects Company
Produção: Gregory Goodman, Simon Kinberg, Lauren Shuler Donner, Bryan Singer
Distribuidora: Fox Film
Estúdio: Donners’ Company, Marv Films, Twentieth Century Fox Film Corporation
Duração: 132 minutos
País: Estados Unidos
Ano: 2011
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

O individuo necessita conviver em sociedade, isto é fato. A interação com os outros é princípio fundamental para que o caráter de cada um seja formado, pelo próprio meio o qual se encontra. Inúmeros sentimentos permeiam essas relações inter-pessoais. A tolerância, por exemplo, é uma forma de manter esta convivência num estágio satisfatório e aceitável por todos. Porém, é inerente ao ser humano as singularidades, incluindo-se manias, idiossincrasias, desejos, quereres e limitações. É fornecido a este membro social possibilidades maniqueístas, que pela liberdade instituída, tem a chance de escolher sobre tudo e todos. A opção da afinidade ao próximo, da profissão e ou de qual caminho seguir é válido somente a si mesmo e a mais ninguém. Contudo, há exceções, quando um único ser decide vivenciar a existência alheia, assim como Adolf Hitler (ele queria um raça ariana), que impondo uma vontade unilateral, mitigava as referidas liberdades dos demais. A sociedade possui um contexto muito cruel quanto à normalidade, acreditando que há padrões que necessitam ser seguidos. Nessas regras não se inclui a diferença, sob nenhum aspecto. Vejamos hoje, o individuo precisa ter beleza e magreza, não sendo requisito a inteligência.

A existência atual tende a superficialidade e busca a forma física exterior. A saga “X-Men” aparece a fim que quebrar pré-conceitos e dizer que cada um é especial a sua maneira. Por isso, esta história em quadrinhos tenha sido um sucesso. Porque por mais que se queira, a dita normalidade não existe. Todos possuem algum tipo de defeito físico ou emocional. Não há perfeição em ser perfeito. A transposição ao cinema aconteceu no ano de 2000, pelo diretor Bryan Singer, que com coragem e competência realizou um incrível trabalho. “X-Men: o filme”, por ser a primeira incursão, fornece a apresentação dos personagens, chamados de mutantes, por possuírem habilidades (poderes) especiais. O gênero comporta-se como ficção científica. O simbolismo é retratado pela fantasia e pela epifania. Cada elemento soa metafórico e existencialista. Um prato feito à psicanalise. O segundo longa-metragem – sóbrio e aprofundado, também tendo Bryan na direção, sem a pressão inicial, segue o ritmo, inserindo novos integrantes e criticando, descaradamente, a sociedade, ao colocar o Presidente dos Estados Unidos em risco e sem proteção.

A continuação mudaria o seu diretor. Brett Ratner (de “A Hora do Rush”) imprimiu um cinema de ação, isso porque opta este gênero em seus filmes. Os fãs e a crítica não gostaram, mas é inegável a sua importância histórica. É necessário, mesmo com muitas falhas. A derrocada se dá com “Wolverine”, chamado de Spin offs, com uma narrativa não equilibrada, busca especificar a história de seus personagens, abordando a origem, mas como resultado se perde na própria trama apresentada, quando tenta agradar a gregos e troianos. O filme em questão, “X-Men: Primeira Classe”, dirigido por Matthew Vaughn (do excelente “Kick-Ass – Quebrando Tudo”), é o quinto da franquia. Já está sendo considerado o melhor de todos. Mas vamos por partes. O filme retrata o inicio de tudo. Antes de Charles Xavier (James McAvoy – de “A Última Estação”) e Erick Lensherr (Michael Fassbender – de “Bastardos Inglórios”) se tornarem o Professor X e Magneto, respectivamente, eles eram dois jovens que estavam descobrindo seus poderes como mutantes. Amigos íntimos, trabalham juntos e com outros mutantes na tentativa de deterem uma ameaça global. Neste processo, porém, os jovens mutantes derem início à rivalidade que os acompanhou pelo resto de suas vidas.

Uma das características dominantes no cinema de Matthew é o humor perspicaz, sem apelações, que faz de seus personagens, figuras quase palpáveis, capazes de provocar dó, empatia, repulsa, fúria, excitação, unindo sinestesia e distanciamento da realidade. A outra utiliza o recurso dos detalhes, como a moeda nazista, que funcionam como fios condutores, quase tão importantes quanto seus protagonistas. Pululam-se simbolismos. É quase impossível descrever todos. Há inúmeras críticas, ora sutis, ora exageradas. Mas primordiais ao contexto. O roteiro respeita plenamente os anteriores, é claro que com auto-ironia em alguns momentos, como a aparição do personagem “Wolverine”. O interessante é que este filme agrada a variados públicos. Vamos a eles. Os fãs relembram detalhes e juntam as peças do quebra-cabeça. Os críticos ficam felizes pelo acabamento técnico e cinematográfico, mesmo com alguns efeitos especiais explicitamente primários. E os espectadores que nunca ouviram falar do tema apresentado, não necessitam de informações prévios ao entendimento e compreensão. O diretor ainda opta pela intercalação de histórias paralelas, o que poderia facilmente gerar uma montagem ruim. Matthew Vaughn acerta completamente, usando a base estrutural como caminho totalitário. Inicia-se repetindo uma cena de um dos filmes anteriores.

Em 1944, na Polônia, com fotografia sépia saturada ao brilho metálico, mostra Erick, um judeu que luta para controlar os seus poderes. A evolução pretendida pelos nazistas encontra ajuda nos genes mutantes, utilizando-se de artifícios emocionais e familiares, gerando a raiva e o poder adormecido. Em Nova Iorque, Charles é retratado. Depois muda-se a Genebra, Suíça, em 1962. Eles são diferentes e tentam enquadrar-se no padrão esperado por todos. Charles encontra Mística e cuida dela. “Uma grande escorregada, nem pensar”, ele ensina a se esconder. Outro momento, Las Vegas, Nevada. A camera direciona do detalhe à amplitude da imagem. É ágil, sem correr. Conta a história de forma equilibrada. O espectador percebe o lado humanizado dos personagens. Eles são passionais, intensos, curiosos, ingênuos. A metáfora nos mostra que aceitar ser o que é e vivenciar plenamente isso pela auto-confiança é o segredo à aceitação social desejada. O lugar muda. Miami, Flórida. Os “X-Men” passam pelo processo da mudança. A transformação sugerida é a própria evolução em si: a interna de cada um. Inserem Darwin e sua natureza de se adaptar ao meio.

“A raiva não é suficiente”, diz-se. Quando são treinados, o diretor divide a imagem em fragmentos, assemelhando-se aos quadrinhos. É estranho o recurso por causa da quebra de narrativa, mas não incomoda. “Como você quer que a sociedade te aceite, se você não aceita a si mesma?”, pergunta-se. A atenção total vem de um cena extremamente arrepiante. Quando um deles aprende a voar, o espectador sente um frio na barriga. “A concentração está entre a raiva e a serenidade”, diz tirando uma lágrima do cético Magneto. “Chega de diplomacia”, colocam em voga o próprio radicalismo ao extremo. Há diversão, humor, sarcasmo, efeitos especiais, aprofundamento, história nazista, aprofundamento, camera lenta, músicas de efeito, Presidente Kennedy, bondade, solidariedade, a iminência da guerra com Cuba. Há tudo. É político, comercial e pop. “O anonimato é a principal forma de sobrevivência”, finaliza-se esperando um protegido futuro e fornecendo respostas metafísicos às perguntas questionadas por quem acompanha a saga. Concluindo, vale muito a pena assistir. Recomendo. O roteiro foi escrito a cinco mãos. Os roteiristas Ashley Miller e Zack Stentz são os mesmos de Thor (2011). A atriz Amber Heard teve seu nome associado ao personagem Mística, mas quem assumiu o papel definitivamente foi Jennifer Lawrence (de “Inverno da Alma”).

O Diretor

MATTHEW VAUGHN nasceu em Londres, 7 de março de 1971. É um produtor e diretor de cinema inglês. É casado com a modelo e atriz alemã Claudia Schiffer.‭ ‬É um importante cineasta britânico que já produziu,‭ ‬escreveu e dirigiu uma variedade de filmes impressionante.‭ ‬Iniciou sua carreira como produtor dos filmes‭ ‬Jogos,‭ ‬Trapaças e Dois Canos Fumegantes,‭ ‬de Guy Ritchie,‭ ‬e‭ ‬Snatch‭ – ‬Porcos e Diamantes‭ (‬estrelado por Brad Pitt‭)‬,‭ ‬ambos muito elogiados pela crítica.‭ ‬Por meio da sua empresa de produção,‭ ‬a MARV Filmes,‭ ‬estreou como diretor com‭ ‬Nem Tudo É O Que Parece,‭ ‬estrelado por Daniel Craig.‭ ‬Em‭ ‬O Mistério das Estrelas,‭ ‬estrelado por Robert De Niro e Michelle Pfeiffer,‭ ‬foi diretor e dividiu o trabalho do roteiro com sua parceira Jane Goldman.‭ ‬Em‭ ‬2009,‭ ‬produziu‭ ‬Harry Brown,‭ ‬estrelado por Michael Caine,‭ ‬e‭ ‬A Dívida,‭ ‬estrelado por Helen Mirren e Sam Worthington,‭ ‬em que Matthew Vaughn também participou do roteiro. Mais recentemente,‭ ‬dirigiu,‭ ‬produziu e ajudou a escrever o roteiro de‭ ‬Quebrando Tudo,‭ ‬estrelado por Aaron Johnson,‭ ‬Nicolas Cage e Chloe Moretz,‭ ‬lançado em‭ ‬2010.‭ ‬X-MEN:‭ ‬PRIMEIRA CLASSE,‭ ‬que Vaughn dirigiu e ajudou a escrever,‭ ‬é seu primeiro filme com a Twentieth Century Fox.‭

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    Excelente crítica! Completíssima. Pena que o leitor médio não se empenhe um pouco mais a exigir por mais informações da mídia, em contraposição às resenhas tipicamente resumidas de jornais impressos. Eu mesmo tive de me policiar com o tamanho da minha. Mas o que houve com seu ótimo argumento do simbolismo com Cristo? Acabou achando ousado demais e descartou na crítica final? Ou o fez porque seria um spoiler? Bem, acho q vc estava certo: um "personagem é trazido de braços abertos, como um sacrifício à causa, ao "pecado original", e o outro vem logo atrás, manipulando a marionete sem vida, o novo líder, quase como se dissesse que ele é a ressurreição/superação dos atos falhos do anterior. Então se Shaw é o pai, e Magneto sua criatura/filho, isso faria de Xavier o terceiro vértice da Trindade? (a pomba branca da paz)? hahahahaha interessante ruminar sobre isso… dá p/ ficar doidão.

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