Vitalina Varela

Sem tempo irmão

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2019

Se o cinema brasileiro e latino-americano, em sua maioria, segue sua escalada de Sísifo, o europeu segue se divertindo na cruzada que travou contra si mesmo, onde fixa sua mise-en-scène contra o próprio processo cultural, ainda que o assuma como forma. Assume uma questão cíclica e não debate sobre a mesma, mas sim parece um calouro arrogante que coloca um cabo de vassoura na testa e gira olhando pro chão.

A colocação não é grosseira e não trata o Pedro Costa com olhar diferente das demais produções trancafiadas na Europa. São projetos que em uma primeira instância travou uma luta pouco honesta contra a própria linguagem, acreditando estar rompendo com determinados dogmas cinematográficos, que no fim, serviram para inflar seus egos e promover debates acadêmicos, mas que provaram a proposição frágil de se romper amarras que foram se assumindo através dos anos, com influência do capital estrangeiro, mas jamais uma agressão cultural ou econômica nos moldes do subdesenvolvimento.

Quando Glauber argumentou que não poderia destruir o que não havia sido construído ainda, referindo-se ao cinema brasileiro. Os europeus surtavam e colocavam em prática toda uma estratégia que visava seccionar a arte produzida em cada país dessa questão continental. Tendo assim, uma repercussão cultural isolada, que foi alcançada em especial pelos franceses. Mas mudou-se a aspiração e masturbação econômica e propagandista, norte-americana, pela masturbação e aspiração “intelectualóide” européia. Ainda que essa proposta fizesse algum sentido, ainda que com desenhos canhestros, naquele momento, vide Straub, era uma manifestação contida que buscava um rompimento próprio. Era quase uma terapia entre os europeus. Um verdadeiro harém de óculos, cigarros e jornais se digladiando para a maior provocação.

Todo o falatório inicial serve para concretizar que, Pedro Costa é um cineasta que está preocupado com “espaços, tempo, encenação” e todo o blá blá blá academicista que é utilizado nestes espaços de discussão. Minha visão é simples, para além da chatice extrema, o auto aplauso ideológico e formalista é uma concessão que não estou disposto a fazer. A velharia que se posta diante do espectador em “Vitalina Varela” é de uma burocracia tão absoluta que cansa a alma de quem a assiste, ainda que o texto e a montagem busque algum teor político para tudo aquilo, patavinas se resolvem. O velho homem branco europeu segue traçando e formalizando seus objetos nos corpos. Uma coisa para lá de batida, que se modifica algo na estrutura de encenação, pouco interessa, já que essa discussão não se modifica por preguiça européia e não por uma necessidade de refrega com alguma questão que lá acontece.

Mas a produção de “Vitalina Varela”  irá seguir determinados caminhos já que parte do público segue aplaudindo (re)”flexões” de cabeça, que mais parecem criar trombose que hipertrofia. O último de Straub provou isso, um discurso já perpetuado entre os países latino-americanos há mais de 70 anos, que agora um europeu decidiu criar algo “cíclico”, curiosamente de maneira a se aproximar de uma antropofagia socioeconômica (ainda que ele jamais seja capaz de concretizar a ideia), acreditando na manutenção do poder da burguesia e na crise do capitalismo. Nossa. Que ideia original. É assombroso o quão revigorante é. O europeu agora entendeu o capitalismo tá em crise, pois ele acreditava firmemente que após a queda da União Soviética a ascensão do modelo econômico era irredutível.

É claro que há um abismo entre Straub e Costa, mas o modelo de produção arcaico, segue o mesmo. Claro, a ascensão política de determinadas oposições na Europa, retornaram ao ponto 0. O que eles julgam o fim do mundo.

Costa é um cineasta da alma por excelência, e como tal não evoco paciência para dissecá-lo e entender a poesia formalista ali envolvida. Não que seja difícil de compreender o joguinho ali imposto, mas que o faça de maneira menos burocrática ou arcaica. O experimental não é inimigo da política, muito pelo contrário, assim como não define luta contra o cinema, repito o comentário anterior, mas em pleno 2020, tem mais coisa para se debater aqui no Terceiro Mundo. Ainda que teremos que ver uma grande quantidade de produções, Leon, Costa, Straub, no pós quarentena, já que será reduzido à este espaço, que pelo menos não seja com essa duração infame aqui apresentada.

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