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Victoria

Um conto americano

Por Fabricio Duque

Durante o Olhar de Cinema 2020

Nosso agora contemporâneo não só banaliza com gratuidade as imagens (pela facilidade irrestrita do filmar), como, que por consequência natural (e esperada) as histórias retratadas, ressignificando a máxima de que qualquer existência precisa ser documentada para perpetuar a memória. A câmera de celular permitiu que o olhar e o perceber ganhem possibilidades de compartilhamentos em tempo real. Cada um é atravessa com intimidades, subjetividades e particulares opiniões-atitudes. Tudo isso só vem reforçar a pretensão (inerente) do querer postar pela ingenuidade quase imatura da liberdade do pensar (e criar). Dito isso, “Victoria”, realizado pelas belgas Sofie Benoot, Liesbeth De Ceulaer e Isabelle Tollenaere, em colaboração com Lashay T. Warren, sobre um jovem negro, que se mudou com a namorada e os filhos de Los Angeles para California City, um “projeto iniciado na década de 1960 no deserto de Mojave e ainda inacabado, que abriga menos de 15.000 pessoas hoje”, aborda pela pessoalidade uma das características mais definidoras de um documentário: a de descobrir histórias, que, sim, merecem ser contadas, mas todas as formas narrativas são relevantes?

“Victoria” é um retrato de nossa era atual. De um sistema neoliberal tão potente que só mantém no “jogo” os mais fortes. Já dizia Darwin, “a lei natural da sobrevivência”. “Dorme igual um anjo, mas ronca que nem um diabo”, diz-se com uma brutalidade vernacular, direta e cúmplice no aceitar. Um típico comportamento de relações inter-pessoais, que encontram defesas do desconhecimento pela atitude da intimidação. E pela vitimização sentimental, potencializando “gotas” em “chuvas” e abraçando o caos como mola propulsora. A narração explicita esses e a atmosfera existencial da  ideia auto-ajuda (“estou fazendo meu próprio caminho”). Nós somos inseridos entre pretensão e ingenuidade. Entre imaturidade e querer passional. Entre utopia e realidade. Entre necessidade e sonho. Entre encenações, como a ajuda a uma senhora em uma cadeira de rodas elétrica; danças; alternativas ao tédio (passar o tempo fazendo alguma “gaiatice”); e brincadeiras de um pneu lançado (lembrando o filme “Rubber, O Pneu Assassino”, de Mr. Oizo).

“Victoria” parece ser um filme sobre o nada. E é. Sobre o ócio que sobra quando a esperança fica distante (apenas um ponto no horizonte), à moda de um “Fievel – Um Conto Americano“ (de Don Bluth, sobre um rato russo que acredita que a nova terra de oportunidades é livre de gatos) em um Oeste americano ressignificado. Há muito as barreiras entre documentário e ficção já foram quebradas. Neste filme, não há distinção, até porque toda e qualquer pessoa interpreta projeção do ser ao estar na frente das câmeras, principalmente a um povo que a imagem (aparência) é tão vital e essencial para a própria existência. Encena-se e se vive nos papéis escolhidos. Como fazê-los sair do método Stanislavski e sentir o que buscam teatralizar? Nós, tampouco o filme, temos respostas. Contudo, o que se escolhe ver, como lembranças de Los Angeles pelo Google Maps e ou a produção Stories das redes sociais para guardar memórias já no agora, é a própria definição do que se é ou está sendo no momento, mediante a influência do meio. Cartas de amor a LA são faladas e reclamações do lugar novo fornecem o descontentamento. “Quem quer mudar para cá? Quem quer viver no deserto?”, pergunta nosso protagonista. “Eu não ligo, porque sou um sobrevivente”, responde com efeito dramático.

O longa-metragem “prefere os sonhos à realidade” versus o contrário. Nós assistimos a um embate encenado, com jogos de golfe, preconceitos esperados que não acontecem, “buracos de minhoca”, teorias-dimensões de outra galáxia” e a gatilhos comuns, como uma concha encontrada (um das personagens de olho fechado “ouvindo o barulho do mar”). “Los Angeles é um buraco negro, porque ela te suga para dentro e você não consegue sair”, diz e somos informados da formatura escolar. “Depois de 524 dias, dei um nome novo à cidade: Victoria”. Pois é, o tom ingênuo aumenta o amadorismo da construção. Liberdade é bem diferente de gratuidade (e/ou filmar o vazio sem conteúdo). Há preocupação demais com os detalhes que o contexto é esquecido, empurrando o objetivo do argumento para focar nas distrações da jornada. Concluindo, nós, espectadores, ficamos curiosos em saber mais sobre a filmografia dessas realizadoras, para entender o porquê de suas escolhas. As três, cineastas independentes, focam no documentário, em especial Liesbeth De Ceulaer, cujos filmes exploram a relação tensa e complexa entre o homem e seu ambiente. Depois de tudo, toda e qualquer narrativa é relevante para se contar uma história?

Trailer

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