Verissimo

Essa eu vou pular

Por Vitor Velloso

Durante o Festival É Tudo Verdade 2024

Verissimo

Tão introspectivo quanto seu personagem, “Verissimo”, de Angelo Defanti, segue uma proposta de linguagem tão semelhante quanto oposta de “Borá” (2017), interessante curta dirigido por Defanti, enquadrando informações de uma forma direta, permitindo o espectador navegar pelos quadros e desfrutar de um tempo menos apressado com a montagem. Contudo, em seu novo trabalho, o diretor propõe menos uma reflexão, através da ironia e de um áudio que cria um claro conflito no filme, como era em “Borá”, para adentrar na introspecção de seu protagonista Luis Fernando Verissimo e nos aproximar de sua matéria prima para construir crônicas, o próprio cotidiano. 

Nesse sentido, “Verissimo” é coeso em sua abordagem, praticamente emulando os traços do escritor na linguagem de um filme que se mantém majoritariamente sem nada a dizer, mas não em silêncio. O trabalho sonoro do longa é importante para construir uma ambientação que encontra alguma dinâmica pelas outras pessoas no plano, ou fora dele, mas nunca pelo Veríssimo em si. Este, pelo contrário, permanece a maior parte do tempo em silêncio, seja no computador, seja diante da televisão enquanto torce para o Internacional de Porto Alegre ou mesmo em situações familiares, onde a opção por estar permanentemente recluso o torna um personagem bastante destacado do cotidiano social. É quase como uma mise-en-scène própria que está inserida no registro de Defanti.

Curiosamente, apesar de em algumas personalidades essa característica se apresentar como uma espécie de enigma pessoal, no caso de Veríssimo é quase como uma constante calma que parece o dominar, à espera de um momento necessário para falar ou soltar uma piada. Não por acaso, suas falas são espaçadas, mesmo que a frequência aumente drasticamente conforme os dias passam e ele se aproxima dos 80 anos, já que são diversas entrevistas e eventos que celebram ou registram o aniversário. E esse é o recorte definido em “Verissimo”, um período de aproximadamente duas semanas onde a objetiva acompanha seu dia-a-dia, sem que haja nenhum tipo de interferência no registro. Não se trata de uma obra que procura contar sua história, sua carreira ou suas inspirações, apenas observar como o escritor está passando seus últimos dias com 79 anos. Nesse sentido, pode ser que haja alguma frustração de alguns espectadores, por não haver informações além dos enquadramentos da produção, mas sem dúvida é uma biografia mais honesta que muitas ficções ou documentários que são produzidos com alguma frequência. 

Angelo procura somar imagens para compor uma contextualização maior desse cotidiano, não se fixa apenas no protagonista, mas também nas coisas ao seu redor, enquadrando objetos, familiares e traduzindo um pouco de uma certa poesia pela simplicidade. Em determinado momento, “Verissimo” pode soar disperso, por não possuir um foco objetivo ao longo dos dias, porém essa sensação tem menos a ver com o filme e mais com o próprio tempo que as imagens capturadas possuem. Isso porque a montagem, assinada por Eduardo Aquino, não procura dinamizar a construção, pelo contrário, permitir que possamos entrar em sintonia e frequência com essa calma contemplativa que há na forma como Angelo decide representar seu objeto. Naturalmente, a sensação de tédio pode tomar conta do espectador, o que não necessariamente é algo negativo do documentário, já que realmente não existe um debate a ser feito ou materiais de arquivo para contar alguma história, por mais que haja algum esforço do diretor de registrar algumas fotografias em determinados momentos, talvez para conseguir nos aproximar de um passado que não aparece. 

De toda forma, “Verissimo” consegue um desenvolvimento formal tão próximo de seu personagem que parece tratar-se de uma biografia, demonstrando que Angelo é um diretor de composição imagética bastante particular no cinema brasileiro contemporâneo. O trabalho de Eduardo Aquino casa perfeitamente com essa proposta, permitindo que haja uma harmonia entre imagem e ritmo quase que como uma crônica sintética do próprio autor. Sem dúvida, uma biografia de Veríssimo, ficcional ou não, terá dificuldade de emular tão bem essa introspecção. 

3 Nota do Crítico 5 1

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