Mostra Sessões Especiais do Vertentes: A Repescagem Janeiro 2026

Valor Sentimental

Entre experiências universais

Por Fabricio Duque

Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025

Valor Sentimental

Talvez a resposta para encontrar filmes obras-prima esteja na expansão perceptiva de nossos olhares. Quando nós nos permitimos essa liberdade do sentir (sem a cobrança por confortáveis padrões já pré-definidos), alcançamos assim um novo ar etéreo da existência, que reconfigura nosso próprio tempo enquanto cotidiano. Isso talvez se explique pela geografia e pelos costumes de cada país, com seus típicos e característicos comportamentos sociais. Um exemplo é o cinema da Noruega, que, por análise cognitiva e até mesmo de de patológica, consegue residir mais no silêncio e numa coloquial melancolia de espera. Sim, aqui o tempo é outro e aberto. E nós espectadores percebemos toda essa falta de pressa para acelerar (e finalizar) as coisas. E dessa forma, o realizador norueguês Joachim Trier (de “A Pior Pessoa do Mundo”), natal e convicto de suas referências-influências, busca a cada filme nos “ofertar” uma experiência de interpretação e compreensão aprofundada de seus temas universais, desvinculando totalmente os óbvios maniqueístas e abraçando a autonomia da criação autoral (pelo pessoal e o minimalismo).

Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2025, seu novo longa-metragem, “Valor Sentimental”, como disse e sinalizei o caminho deste texto, já nasce obra-prima, não de forma imediata, mas construída ao longo dessa experiência durante o filme. Este representa e categoriza aqueles filmes que se embasam completamente no final, no seu desfecho, que como um magistral passe de mágica atinge a perfeição. Aqui, toda a narrativa acontece pelo tempo. De se personificar o invisível, que se “mostra” por detalhes e por uma observação mais atenta. Esta obra nos conduz pela vida de Nora (Renate Reinsve), uma atriz de teatro bem-sucedida, que reencontra o pai distante, Gustav Borg, um diretor de cinema outrora renomado, que, por sua vez, planeja um retorno com um roteiro inspirado na família. Após Nora recusar o papel principal, Gustav volta suas atenções para uma jovem estrela de Hollywood em ascensão.

“Valor Sentimental” é acima de tudo uma análise coloquial, cotidiana e cognitiva de como as emoções humanas interferem e redirecionam consequências. Sim, tudo aqui é sobre nós mesmos enquanto seres sociais, vivendo em um coletivo que estimula, contraditoriamente, a individualidade exacerbada. Desde sua ambiência, que se desenvolve pela percepção fragmentada e sutil dos detalhes, flash temporais, da arquitetura e de uma narração à moda de um conto-de-fadas (semelhante a que o realizador dinamarquês Lars von Trier usa em seus filmes, este que por sinal é primo “distante” do diretor em questão aqui – ainda que aqui possa captar uma “carga” a la Dogma – talvez até pela presença no elenco de Stellan Skarsgård, ator favorito do cineasta de “Ninfomaníaca” e/ou com um “flerte” em “Festa de Família”), que se explica pela simulação de uma reconstituição. Uma rachadura na parede, uma atriz (metalinguagem) em crise. Pronto, começou nossa “experiência”.

Assim como as construções narrativas de seus filmes, Joachim Trier continua a explorar em “Valor Sentimental” o tempo de cenas, ambíguo e antecedente a da ação propriamente dita, entre as linhas de diálogo (usando a linguagem “como uma ponte e uma barreira”), com foco na conexão definidora do elemento humano, enquanto necessidade coletiva, mais idiossincrático, subjetivo e de querer contraditório e impulsivo, que se equilibra entre uma delicada melancolia internalizada e senso de humor naturalizado, sem forçar a ironia. A matéria-prima dessa arte é a própria vida contemporânea, que se bagunça em dúvidas, vontades imediatistas e fisiologismos. Nós não “ganhamos” nada antes. Precisamos assistir para saber. Sim, tudo aqui é um jogo psicológico de realidade ficcional e metalinguagem, desencadeando limites, dramas, invejas, competições e traumas expostos.

Ainda que em certo momento, o público se dê conta que está sendo conduzido a explicações demais, “Valor Sentimental” como já disse embasa tudo no final. Ainda que a personagem adentre num estético universo mais surreal, entre metafísicas, reflexões, projeções mentais personificadas, e até “alfinetas” na Netflix, o que o filme nos quer dizer é sobre a poesia coloquial nossa de cada dia, sem filtro e com “cara” de terapia psicanalítica. Esses costumes geográficos mencionados no primeiro parágrafo deste texto podem dar “dicas” de toda essa compreensão atmosférica (com ar de Ingmar Bergman – talvez pelos “rostos fundidos”), visto que lá na Noruega há uma moralidade mais fluida, de efeitos irreversíveis, mais permitida, mais racionalmente retro-alimentada e menos “consertada” (não é cruel, mas sim realista sem “valor sentimental”), muito diferente se olharmos para este filme com olhos norteamericanos. E então chega o final e o único pensamento que nos invade é o “genial”, talvez por autodeboche não pretensioso de “filme errado”. Sim, toda a maestria de “Valor Sentimental” está em seu próprio filme.

5 Nota do Crítico 5 1

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