Uruguai na Vanguarda

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Uruguai na Vanguarda

Uruguai na VanguardaUruguai na Vanguarda

Uma aula sobre os avanços político-sociais das últimas décadas no Uruguai

Por Marcelo Velloso

Semana Cavídeo 2019

 

O documentário “Uruguai na Vanguarda” dirigido por Marco Antônio Pereira aborda importantes avanços sociais e políticos alcançados durante o governo do presidente José Mujica. O filme reúne depoimentos de historiadores, escritores, cientistas políticos, artistas, ativistas e políticos que nos apresentam o desenrolar histórico que levou a conquistas como: garantia de direitos trabalhistas, lei da interrupção voluntária da gravidez, regulamentação do cannabis, equidade de gêneros e matrimônio igualitário.

A cientista política Mariana González Guyer introduz os assuntos a serem abordados no documentário de maneira objetiva e eficiente, e logo em seguida o historiador Aldo Marchesi aprofunda e nos traz o contexto histórico do Uruguai da primeira metade do século XX, do Estado Batllista, caracterizado por uma Igreja Católica enfraquecida, pela laicidade. Eis as bases de uma sociedade reformista e progressista. Tal introdução se faz necessária e essencial para o entendimento do contexto geral do documentário.

Até que causas tão polêmicas fossem inclusas nas agendas do poder político, grupos tiveram que se mobilizar, se organizar e se fortalecer, o que demandou de certo tempo. Apesar de “Uruguai na Vanguarda” (2019) abordar sobre as conquistas uruguaias do início do século XXI, o documentário traz também um breve histórico que apresenta como os movimentos sociais foram ganhando forças após a ditadura que se instalou no Uruguai em 1973 depois de um golpe e que perdurou até 1985. Após esse período, voltam as organizações sociais.

Imagens da movimentação em feiras na rua, do trânsito em pontos da cidade e da circulação de passantes em praças são utilizadas juntamente com músicas para transportar o público ao “universo uruguaio”, ambientando assim mesmo quem ainda não pisou no país. Bem como, observa-se também o uso de fotos de um “Uruguai antigo”, de imagens de manifestações dos grupos nas ruas e de jornais impressos antigos, com comentários feitos em voz “off” de forma a reforçar os relatos históricos. Todos esses elementos facilitam a compreensão de um contexto aparentemente complexo.

A trilha sonora é outro acerto do documentário, uma vez que traz dois dos ritmos mais tradicionais uruguaios: o candombe e a milonga. As músicas que são utilizadas em diversos momentos do documentário, além de reforçar a cultura uruguaia, acompanham a movimentação trazida pelas imagens, fazendo com que o filme não fique cansativo ou até mesmo monótono.

A utilização de trechos de matérias de telejornais com entrevistas nas ruas sobre a regulamentação do uso do cannabis trazem o tom jornalístico para o documentário, ilustrando de forma diferenciada até então. Outro grande momento do documentário é a celebração do primeiro casamento gay após a aprovação do casamento gay no país, afinal acaba trazendo leveza ao filme.

Discursos do presidente José Mujica além de frisar a importância dos seus feitos, reforçam o título do documentário “Uruguai na Vanguarda”, uma vez que em 2012, durante o seu governo, o país quebrou paradigmas impulsionando reformas legais de assuntos vistos como polêmicos.

Candombe, ritmo proveniente da África, tornou-se uma dança típica no Uruguai e foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas como Patrimônio Imaterial da Humanidade. Essa apresentação nos é feita ainda na primeira metade do documentário por meio de imagens de atabaques e da dança, quando o historiador Aldo Marchesi fala sobre as questões raciais no país. Na segunda metade do filme, conhecemos o antigo cortiço “Médio Mundo”, uma espécie de berço do candombe, de onde seus moradores foram desalojados durante a ditadura.

Por se tratar de um documentário que engloba diversos assuntos (questões sociais distintas) a “abordagem repartida” e não sequencial pode dificultar um pouco a compreensão do público, até mesmo por abordar muitos acontecimentos históricos. Mesmo com as transições bem executadas, os assuntos ficam dispersos, pois são apresentados no início do filme e retomados noutros momentos mais à frente.

As dificuldades de pôr em prática as leis também são destacadas no documentário nos minutos finais, trazendo à tona também a imagem que o uruguaio gosta de sustentar internacionalmente de um país avançado em relação a todas essas questões discutidas no filme. Essas questões poderiam ser mais abordadas, com mais depoimentos apontando tais dificuldades no cotidiano do uruguaio e até mesmo com especialistas dissertando sobre os atuais desafios.

O documentário encerra-se como uma boa aula sobre questões político-sociais recentes do Uruguai, dando uma visão geral ao público de forma ilustrativa e fornecendo elementos que garantem uma compreensão razoável, justamente pelos problemas supracitados. No entanto, “Uruguai na Vanguarda” traz à tona a experiência do nosso país vizinho e é um bom material para aguçar o debate sobre esses assuntos polêmicos, mas atuais e de extrema importância.

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