Ursa

Julgamentos e violências

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

A sociedade julga sem contextos e a classe média se revolta com a burocracia em “Ursa”, de William de Oliveira, um longa que não tem muito o que apresentar além de um retrato superficial dos julgamentos cotidianos aos indivíduos que compõem essa história. Ainda que haja um terreno interessante para se trabalhar essa questão da crença, opinião local, responsabilidade e acusação à revelia, o filme não parece muito interessado em levar à frente tais questões. O foco aqui é um drama à lá “O Lugar Onde Tudo Termina”, com a multiplicidade de perspectivas na mesma narrativa, sem criar grandiosos flashbacks para isso, apenas apresentar as versões em suas consequências diretas.

Uma coisa que pesa constantemente durante a projeção de “Ursa” são as interpretações programáticas, que apesar do projeto investir fortemente no ponto dramático, atém-se constantemente à resolução da situação através de alguma manifestação social. Em resumo, um dos diálogos mais importantes aqui, o de Jonas (Diego Perin) com o líder da comunidade, é uma situação explicitamente arquitetada para ter o impacto na divergência dos pontos de vista, dos fatos e das opiniões. Mas a artificialidade da cena é sua grande derrocada, pois a tentativa de denúncia social não está emaranha no próprio projeto, em sua forma. É uma tentativa desajeitada de introduzir um questionamento em meio a um drama que propunha os julgamentos como ponto de partida, ainda que não soubesse como faria isso. O resultado são as sequências desajeitadas de uma encenação que não é capaz de compreender as transições entre o frenesi das ações e os supostos espaços de respiro.

A trama em si até é interessante e consegue captar a atenção do espectador, já que o drama social vivido por Viviane (Adriana Sottomaior), que precisa encontrar tempo entre a maternidade e o trabalho, se sustenta de forma sólida durante boa parte da projeção. Na verdade, seu eixo é capaz de suscitar a maior parte dos debates também. Contudo, o dia supostamente normal é surpreendido pelo ataque de um cachorro, que dá nome ao título, aos seus filhos, deixando um gravemente ferido. A partir deste momento “Ursa” se divide entre as tensões vividas por Viviane, tendo que responder às acusações do Estado e o julgamento popular, e Jonas, que é obrigado a responder à polícia sobre as acusações que sofre das pessoas de seu bairro, descobrir onde sua cachorra foi parar e a “culpa” do que ocorreu com os meninos. Essa duplicidade na narrativa não funciona bem, a montagem até procura encontrar as correspondências emocionais entre os personagens a fim de transitar nessa história de violências e agressões constantes. Mas o filme é incapaz de criar uma atmosfera que faça sua suposta crítica social funcionar sem um maniqueísmo artificial, mantendo tudo na ordem moral, aliando-se à parte de seus personagens. Tudo parece tão programático que se encerra em si, sem levar adiante as próprias consequências daquilo que expõe na tela.

Nessa transa entre as diferentes violências sofridas por seus personagens, sobram algumas cenas onde Adriana Sottomaior consegue dar uma vida maior, tanto quanto se lamenta por sentir fome ou mesmo a culpa da tragédia que acometeu seus filhos. É nesse tempo de projeção que quase tudo que vemos é o ódio, o julgamento e a crença nos fragmentos do acontecimento. Até poderia funcionar como um estudo particular do caso, mas “Ursa” não sai do lugar comum e se torna um drama que muito ao fundo, possui alguma denúncia. Seja pelas interpretações que comprometem o resultado final, seja na forma como essas duas tramas se unem, a sensação é que o filme não sabe como caminhar sem amparos dramáticos que se tornam cada vez mais expositivos e programáticos.

A encenação acaba sendo o ponto mais imediato de como essas manifestações se tornam frágeis em si mesmas, dando lugar a um certo vazio fatalista e sentimentalista, culminando na projeção de um quadro que se encerra nesse “descaminho” do mundo. A própria violência sofrida por Viviane, de um machismo virulento, tal como quando Jonas retruca, não são desenvolvidas como eixo central aqui.

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