Unidas pela esperança

Força resignada

Por Victor Faverin

Explicar a guerra, essa abominável ação humana movida pela contínua fagulha da conquista, talvez seja impossível e desnecessário. A tentativa de elucidar o irracional pode emprestar a ele, senhor da bestialidade, um sentido desmerecido. Afinal, com a simplicidade e clareza dos sábios, Mestre Yoda já dizia que não existem grandes guerreiros porque a guerra não faz grande ninguém. “Unidas pela esperança” (Military wives, no original, 2019), longa-metragem dirigido por Peter Cattaneo, cujo trabalho mais proeminente é a comédia musical “O roqueiro” (2008), busca reconhecer a magnanimidade das mulheres envolvidas no processo, ou seja, as esposas de militares que necessitam unir forças enquanto seus cônjuges correm o risco de explodir e de serem explodidos no Afeganistão ou em qualquer outro canto em que a demonstração de poder bélico se faça necessária.

Para tanto, a obra, que é baseada em uma história real, centraliza em Kate (interpretada pela sempre espetacular Kristin Scott Thomas) e em Lisa (Sharon Horgan) as angústias dessas mulheres que, lotadas em uma vila militar, precisam organizar atividades recreativas como modo de unir forças para transpassar o período de ausências, medos e saudades. Durante a jornada, o roteiro parece empenhado em investir no antagonismo de personalidades das protagonistas e o diretor expõe esse conceito filmando, muitas vezes, as atrizes em mesmo plano, com pouco close-up, postadas como lutadores na tradicional encarada de MMA. Enquanto uma é sistemática, provavelmente calejada pela disciplina militar de anos de casamento com um homem de patente, a outra age com franco despojamento, mesmo também tendo como marido um profissional de carreira. Não é novidade que, em toda subtrama do gênero, a essência de uma completará a outra. Mesmo se isso não estivesse tão evidente na narrativa, o título nacional “Unidas pela esperança” já entregaria o óbvio desfecho.

Nessa toada, o vínculo das duas e das demais mulheres acontece através da formação de um coral de música (não é spoiler porque está na sinopse do filme). A partir daí, é interessante notar como Cattaneo filma todas as personagens com um balanço suave de câmera, como se estivesse seguindo o compasso rítmico emulado pelos ensaios. A trilha sonora também evoca o caráter do frescor da descoberta, da aprendizagem. Essa harmonização, porém, é quebrada, em certas ocasiões, pela insistência do longa em forçar o riso no espectador. Há formas mais inteligentes de demonstrar a cumplicidade das pessoas em cena, mas quando se aposta na comicidade para aliviar momentos de tensão ou para simbolizar afeto, não se pode errar o alvo, ainda mais quando o atirador escolhido é quase sempre o mesmo.

Para transparecer tal conexão, a vulnerabilidade emocional da maioria e a força de algumas é um mecanismo mais eficiente, mas pouco utilizado durante o filme. “Unidas pela esperança” teria sido mais incisivo em sua mensagem se explorasse esse lado do prisma. “Não temos o privilégio de ser contra a guerra. Casamos com ela”, diz Lisa em certo momento da trama. Tal verdade, nua e crua, parece ser ignorada pela maioria das componentes do coral, inertes em um conflito do qual elas, aparentemente, desconhecem os motivos e a força do outro lado. Cabe a Kate a resignação, o peso nos ombros de levantar o moral das companheiras dos militares e, ao mesmo tempo, combater sua flamejante dor interna e que tem em um determinado objeto fixado no jardim sua representação. Nisso, a expressão facial estoica adotada por Kristin Scott Thomas lembra a da estrela de outro filme também protagonizado pela atriz, o francês “Há tanto tempo que te amo” (2008).

Aliás, o amor por um ente querido é o estopim do aguardado combate entre as protagonistas de “Unidas pela esperança”. A torrente de acontecimentos que levam ao conflito é satisfatoriamente pincelada pelo diretor durante o decorrer da trama, ainda que a execução final talvez tivesse sido melhor aproveitada com um plano sequência pulsante, ao contrário dos cortes usados que, ao invés de fazer prender o fôlego, dissipam a atenção. Outro fator que pode incomodar o público e que depõe contra a verossimilhança da narrativa é a falta de treino para a execução do número musical final, bem como a sua curta duração. Entretanto, a canção entoada por mulheres que não tiveram outra escolha a não ser esperar por um retorno incerto é delicada e mostra de forma convincente o potencial musical das atrizes.

Trailer

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