Uma Relação Delicada

Valor da exposição histórica

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“Uma Relação Delicada” de Linda Dombrovszky é mais interessante que a divulgação faz parecer e menos sólido que alguns comentários irão tecer. O streaming brasileiro sofreu por um período com a exibição de filmes que faziam parte do plano de descarte da atual “janela”. O longa em questão acaba sendo uma relativa surpresa para um catálogo que necessitava de um respiro. 

O projeto é construído em torno daquilo que o título anuncia, uma complexa relação entre mãe e filha após um período de luto. Aquilo que dá o retorno dessa aproximação, é uma fatalidade que gera duas formas diferentes de se lidar com a situação, de um lado o luto com a mudança abrupta de ares, de outro a tentativa de reconciliação com base na autoridade e privação da liberdade. Fica claro o espectador que as atitudes da filha não procuram o mal, mas sua falta de sensibilidade joga tudo por água abaixo. Curiosamente, o filme possui uma postura parecida, mantém-se distante dessa relação e busca aproximar a objetiva de uma dor que está na memória e a falta de matéria para conectar-se piora drasticamente o quadro. 

Alguns recursos expositivos de “Uma Relação Delicada” se contrapõem ao olhar estéril que o projeto assume. Na esteira de produções europeias contemporâneas, a câmera enquadra objetifica seus personagens, na intenção de assimilar os sentimentos junto ao espaço-tempo. Contudo, a proposta não flui e parece estar excessivamente engessada e presa aos arquétipos prosaicos de um formalismo vazado. As duas atuações centrais funcionam como pontos antagônicos para o drama se desenvolver, à pouca ou nenhuma química entre as duas e essa distância é o que move a trama de forma cíclica, mas tudo parece se encontrar nas bases do problema, nesse retorno à casa e nas memórias que não são mais permitidas. Até esse desenho bastante claro na psique de suas personagens, o longa recorre à explicação mais clara, onde um psicólogo fala sobre o quadro da protagonista. Sem conseguir levar adiante a própria ideia de reconciliação na memória, os diálogos perdem o sentido e todo retorno “histórico” às situações do passado são frustrações advindas de mais investidas duras contra o próprio luto.

O longa até tenta desconstruir parte de sua ambientação inicial, para acompanhar os excessos da cidade, a vida rigorosa e a solidão, mas esbarra constantemente na falta de ritmo e de consciência para manter uma proposta que apesar de ter um pontapé inicial interessante, vai se perdendo em repetições formais pragmáticas. A silhueta que “Uma Relação Delicada” desenvolve perde força com o passar da projeção e as ideias em torno do envelhecimento, dos cuidados, do luto, da saudade e da memória, se tornam muletas dramáticas que apenas se acentuam com a aproximação do fim. O eixo final do filme é corrido e menos pavimentado que gostaria, já que tudo gira em torno desse espaço, esperava-se um desenvolvimento que acompanha-se de maneira mais sólida esse desfecho previamente trágico. Novamente, fica a impressão de estarmos diante de um punhado de ideias que vão sendo parcialmente abandonadas, onde a culpa vai tomando conta de setores distintos dessa relação e essa moral catártica esculpida da eloquência da lápide parece ser a grande perseguição de Dombrovszky. Um reencontro de desejos que se torna claro com a frase que encerra a projeção “os mortos não respondem”. 

Fica explícito que parte do conservadorismo que vemos hoje na Húngria está exposto na linguagem, menos como uma chaga e mais como uma marca institucionalizada. Uma pena ver que um cinema de história ímpar e com força materialista avassaladora, se encontra sufocado por instituições fundamentalistas que buscam a manutenção da forma cinematográfica europeia vigente, igualmente conservadora, como uma padronização necessária para circulação de suas obras. “Uma Relação Delicada” até procura seus laços com a prosa e um texto marcado pela capitulação, mas termina tão acovardado quanto o personagem enunciado no título original, uma espécie de juízo tradicionalista que mantém os grilhões à toda.

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