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Uma Criatura Gentil

Diários de um Cineasta

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2017

Uma Criatura Gentil

Inspirei-me no conto de Dostoiévski, “Uma Criatura Gentil”. Trata-se de um relacionamento entre um torturador e sua vítima, que, na história de Dostoiévski, são marido e mulher… Minha intenção era estudar a mitologia da sociedade russa (ex-soviética), o contexto cultural, a mentalidade das pessoas que habitam esse território surreal. (entrevista de Loznitsa, 2017)

Uma Criatura Gentil”, o filme que Sergey Loznitsa realizou em 2017, recupera um dos projetos mais interessantes e inovadores de Fiodor Dostoiévski: a série “Diários de um Escritor”, mais de mil páginas de ensaios, crônicas e contos produzidos entre 1873 e 1881, ano da morte do escritor. Originalmente, os textos foram produzidos para sua coluna jornalística publicada pela revista “O cidadão”: a partir de 1874, de modo independente, em outros periódicos. Foi com essa produção que Dostoiévski conquistou notoriedade como polemista, tornando-se referência no debate público russo. Uma Criatura Gentil”, o conto, foi escrito em novembro de 1876 com o subtítulo “Uma História Fantástica”, e narra a relação entre o dono de uma loja de penhores e uma garota que frequenta a loja. A história foi inspirada por reportagem que Dostoiévski leu em abril de 1876 sobre o suicídio de uma costureira, um “suicídio manso”, que “continua assombrando você por um longo tempo”. O interesse pelos “Diários”, porém, não está apenas no aspecto polêmico e conjuntural: o que sobressai é processo criativo do autor, seus embates e dúvidas, soluções e impasses, em suma a construção estética que é elaborada ao mesmo tempo que é aplicada. Com liberdade para comentar fatos correntes e expressar, em diversas formas literárias, suas reações aos problemas morais, sociais, religiosos e filosóficos que esses fatos suscitavam, Dostoiévski aperfeiçoou um estilo que o crítico literário Mikhail Bakhtin identificou como dialógico – uma maneira de desenvolver o pensamento na forma de diálogo, não um diálogo lógico e seco, mas um diálogo persuasivo, que organiza e contrapõe vozes individuais. E que faz uso constante de material autobiográfico, mesmo que afetados pelos lapsos de memória do escritor, cada vez mais frequentes, no contexto da Rússia na década de 1870.

O filme de Loznitsa, por sua vez, é um épico em miniatura que se propõe a mergulhar nas entranhas da burocracia da Rússia autoritária de Putin, contando a saga de uma mulher que quer enviar um pacote para seu marido encarcerado. O entorno surreal e distópico da prisão – localizada na Sibéria, esse imenso cenário que abrigava boa parte dos GULAGS stalinistas – é o ambiente sórdido em que circula a gentil criatura, vivida na tela por Vasilina Makovtseva, praticamente o único elemento que mantém o filme coeso: sua presença resoluta e silenciosa, inexpressiva e reativa, jamais sorrindo, é o centro de gravidade da narrativa. Passiva ou mansa, ela suporta tudo bravamente, enquanto o mundo à sua volta lança insultos e humilhações. Extrair alguma pista do sistema penitenciário sobre o marido é algo impossível, kafkiano. Ele está morto? foi transferido? Se a burocracia é um muro intransponível, os personagens que orbitam fora da prisão – seres desalmados, cafetões inescrupulosos, falsas criaturas solidárias – são odientos ou simplesmente perdidos. A única tábua de salvação de racionalidade que se insinua em “Uma Criatura Gentil” é a ONG de direitos humanos e sua representante, encalacrada num escritório caótico e à beira de um ataque de nervos. O resto da insanidade que paira na atmosfera, veiculada nos diálogos esparsos dos personagens periféricos, vai desde o arsenal nuclear da Rússia e como ele pode explodir os Estados Unidos, até os vizinhos do escritório da ONG chamando os ativistas de direitos humanos de fascistas – uma população, enfim, influenciada pela propaganda apocalíptico-conspiratória disseminada pelo poder dominante em Moscou e encapsulada num universo delirante e excludente.

Começando como um drama doméstico sombrio, “Uma Criatura Gentil” lentamente se torna algo muito mais estranho. À época do lançamento, a crítica reagiu com mixed feelings, sobretudo no que toca à sequência final, que forja uma espécie de estupro alegórico da criatura gentil, considerada longa e hermética. Hoje, 2022, com a invasão e a guerra da Ucrânia, a leitura talvez fosse diferente – o filme ganhou uma inesperada e sangrenta atualidade. Para Loznitsa, que fez “Maidan” em 2014 e “Donbass” em 2018, a guerra começou em 2014 com a ocupação russa da Crimeia – ação unilateral que foi reconhecida internacionalmente por poucos países, dezesseis, entre eles a Síria. O gesto sírio, como supõe uma certa lógica intuitiva de relações internacionais, foi “retribuído” por Putin, que ordenou bombardeios em regiões sob ataque de grupos ligados ao Exército Islâmico, mas habitadas por setores oposicionistas a Assad. Dois coelhos com uma só cajadada, diria a sabedoria popular. E la nave va.

4 Nota do Crítico 5 1

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