Um Lugar Silencioso – Parte II

Barulhos demais, silêncios de menos

Por Fabricio Duque

Em 2018, o ator John Krasinski aventurou-se na direção de seu projeto pessoal Um Lugar Silencioso. Quando estreou, os primeiros comentários do público eram de desconforto, devido ao silêncio atmosférico, conduzido na maior parte do tempo. Krasinski conseguiu “reinventar a roda” do cinema de terror americano. Nascia ali, uma pequena obra-prima, e ainda que produzida por Michael Bay, a palavra final foi mesmo do diretor. Quase um “Cidadão Kane” do cinema de gênero. O longa-metragem atingiu a proeza de agradar crítica e público. Quase dois anos, em 2020, é lançado nos Estados Unidos sua continuação. “Um Lugar Silencioso – Parte II” bateu recorde de bilheteria. O sucesso da franquia é tamanho que a Paramount+  mudou a estratégia de lançamento do filme, que chegará ao seu serviço de streaming pouco tempo após a estreia nos cinemas. Mas o que de tão genial tem no primeiro do “reencarnado Orson Welles”? Essa “reinvenção” aconteceu simplesmente porque Krasinski descobriu que “menos é mais”. Que a verdadeira sensação de medo não está em seus jump-scare, mas sim no orgânico desconforto gerado pelo silêncio e pela iminência do perigo. Assim, mitigou os gatilhos comuns e indicações óbvias. Sim, “Um Lugar Silencioso” surpreendeu pela novidade, mas na segunda parte, seu diretor precisou se adaptar à música dos produtores.

A cena inicial de “Um Lugar Silencioso – Parte II” corrobora a qualidade que John Krasinski em conduzir com controle-domínio total sua direção. É o preâmbulo sem a necessidade de artifícios da digressão. Ou lembranças. São os momentos antes da destruição da humanidade por monstros alienígenas (o que tudo parece). A câmera capta a tensão, inicialmente cotidiana (sem pressa – esperando as jogadas e conversas de um jogo de Beisebol), e depois de sobrevivência aos ataques (ainda que questionemos os motivos de todos esses ataques serem tão urgentes e sempre no limite da vida e da morte). É aí também que o roteiro desconstrói seus clichês, como a cena da boa tampada durante uma prece mais catártica. E/ou a imersão subjetiva, como se estivessem em uma experiência de 4D). É aí também, logo na primeira cena que o filme nos confunde entre presente, passado e futuro. Quando o longa realmente começa, percebemos que é a exata continuação do primeiro no dia 474. A família Abbott, sem o pai (John Krasinski) conta agora com a mãe (Emily Blunt, casada na vida real com o diretor), os dois filhos adolescentes (Millicent Simmonds e Noah Jupe) e um recém nascido.

A narrativa continua se desenvolvendo pelas necessidades de sobrevivência. Todo e qualquer barulho, por menor que seja o ruído, não pode gerar nenhum som. Mas eis que tudo muda. “Um Lugar Silencioso – Parte II” neste momento tem novos “donos”: os produtores, provavelmente ideia de Michael Bay em “musicar” o silêncio da andança com trilha-sonora de efeito sentimental. Sim, o susto dessa percepção causa mais pavor do que a aparição do monstro. Nós espectadores nos perguntamos o porque. Será que a sensação de desconforto do silêncio no público foi assim tão perturbadora que os responsáveis tiveram que se adequar aos “quereres exigentes” da massa? John Krasinski, também roteirista, sucumbe e aceita os termos: não só de diminuir os silêncios, como inserir jump-scare (os sustos manipulados); reações de efeito das personagens, que verbalizam pensamentos óbvios; roteiro tão facilitador (que causa embaraço, como por exemplo, na cena dos barcos) e/ou da porta com tranca e depois sem tranca (o universo sempre conspira em ajudar positivamente as saídas neste tipo de filme) e/ou a ilha (antes protegida) e/ou a analogia a “Beyond the Sea” no rádio. Enfim, a lista é grande. E mesmo que os silêncios continuem (a maestria e um respiro no meio de tantos gatilhos comuns) e as metáforas de importância do ser humano (“As pessoas se tornaram outra coisa que não vale a pena salvar”), quase explícita hoje em dia, período em que vivemos uma pandemia devastadora, e do som metal que sai do aparelho para surdez, “Um Lugar Silencioso – Parte II” apela também ao quesito emocional. De choros com a mão na boca (“Determinação?”, “Não, necessidade”). Sim, não estamos mais em um filme de Krasinski e sim num modelo adaptado a uma audiência que na verdade não sabe o que quer consumir. Algo mais para o seriado “Walking Dead”, por exemplo.

Nos nos perguntamos por que o silêncio incomoda tanto. No mundo atual, pelos estudos psicanalíticos e neurocientistas, a falta de som assemelha-se a uma solidão. Um abandono insuportável. É uma espécie de jejum, que evoca as análises de nossos próprias emoções. É como se estivéssemos sozinhos, sem nenhum guia para pensar por nós. Talvez isso explique o sucesso dos filmes barulhentos: é o descanso de si mesmo. De se desligar de quem somos. É uma droga da dissociação. No silêncio, nós somos obrigados a nos ouvir. É exatamente isso que a primeira parte de “Um Lugar Silencioso” trouxe: um desconforto ininteligível. Um vácuo subjetivo de emoções, fazendo com que a experiência fosse absorvida de forma muito mais intensa. E quando em “Um Lugar Silencioso – Parte II” esse espaço foi “completado”, nós ficamos à mercê de nosso guia condutor, que sem muita paciência quer nossa cumplicidade imediata, achando que é só pulular uma trilha sonora de ação e de efeito no limite do susto. Mas depois de tudo isso analisado, ainda vale à pena? Lógico. Seu diretor guardou intacta a essência  do primeiro. Essas saídas facilitadoras do roteiro incomodam? Muito. E pelo andar da carroça, vem aí a parte três. Será dirigido por Michael Bay? John Krasinski conseguirá retomar às rédeas do projeto? Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.

Trailer

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