Um Balanço Particular do Festival Cavideo 24 Anos

Festival Cavideo 24 anos

Um Balanço Particular do Festival Cavideo 24 Anos

Fugiu da escola e foi ao cinema (Ou um conto-parábola cavidiana)

Por Fabricio Duque

Há semanas vivo uma pulsante nostalgia, que aflora emoções saudosistas do passado, este uma época que para mim evoca a simplicidade da infância e seu tempo mais parado, pelo menos é esta a sensação, a de uma viagem a memórias afetivas, lembrando mais, agora, das experiências, por exemplo, a de passar horas e dias assistindo filmes em VHS e/ou as esperas para se comprar um disco musical e/ou uma fita-cassete e/ou brinquedos que estimulavam a criatividade e/ou a ansiedade das idas às locadoras e/ou os dias de chuva, perfeitos para ler um livro e/ou assistir na televisão junto com a família a um filme com Charlie Bronson (muito provavelmente algum da saga “Desejo de Matar”), dublado, com interferências técnicas na imagem e comerciais, que permitiam ir ao banheiro e/ou fazer mais pipoca e/ou com o bolo de fubá e/ou brigadeiro quente. Sim, era tudo muito e/ou. Uma época de experiências inclusivas. De tentar entender o que acontecia no mundo. Tecnologias e/ou a entrada da MTV no Brasil (gratuito, como teste). Lembro que meu primeiro videoclipe assistido foi do cantor Bryan Adams com a música “I Do (I Do It for You)”, tema do filme “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões”, de Kevin Reynolds e estrelado por Kevin Costner, em 1991. A neurociência e a psicanálise ensaiam a ideia de que quanto mais presente é a nostalgia, mais estamos de frente a iminentes transformações. Pois é. Parece que o mundo muda na velocidade da luz. Dormimos com uma novidade. Acordamos com o atraso. Mas talvez tudo isso tenha sido mesmo intensificado por causa do Festival Cavideo 24 Anos, que encerra hoje sua repescagem, após vinte e quatro dias (sinal numerológico do Universo?).

O Festival Cavideo celebra os 24 anos da Cavideo no Vimeo (acesse AQUI), locadora, produtora e distribuidora. Uma ode ao cinema brasileiro, ao cinema mais independente e ao cinema mais fabular e experimental. Não se sabe explicar qual o poder que Cavi Borges, seu fundador e a pessoa responsável pela Cavideo acontecer em inúmeras frentes e vertentes, tem em despertar mais intensamente nossas memórias mais primárias, mais primitivas e mais imunes a uma certa robotização do sentir. Com quase quatrocentas obras audiovisuais, o festival contou ainda com cursos sobre a produção cinematográfica de baixo orçamento. E lives. Muitos encontros-conversas no online. O Vertentes do Cinema no Youtube e Raphael Camacho no Instagram, abordando mestres, cineclubes e resgate de memórias. Além de ter organizado as três live oficiais, ainda participei do número 7 (outro sinal, porque é o número da sétima arte) do Papo de Locadora (assista AQUI).  Ali eu pude entender melhor essa nostalgia cinéfila, idiossincrática e meio doida mesmo. Ao ter lembranças perguntadas, vi que estava em um processo terapêutico, de pessoal cognição psico-comportamental. E ali também compreendi, quase que em epifania-insight, que o cinema para existir só depende da paixão incondicional. Um amor rasgado, vulnerável, incompreendido, entregue, de verdade inocente  e devoto como uma seita. Há algo irracional nesse ato. É quando se perde o controle. Quando se transcende a barreira do possível. É sentar na primeira fileira do cinema para “receber o filme antes de todos” (abordado por Bernardo Bertolucci em “Os Sonhadores”). É ser um “jovem turco” na França e/ou no Brasil. François Truffaut e/ou Glauber Rocha.

É fazer exatamente o que estou fazendo agora: ser passional às emoções. Ser desafiado pela perda total da razão. É venerar uma imagem. Um movimento. Uma presença. Uma performance de dança. É saltar no vazio. Com Patricia Niedermeier, Regina Miranda, Bebeto Abrantes e Luciano Vidigal, entre tantos e tantos outros. É ser atravessado por uma força tão potente que o coração bate mais rápido, o corpo treme e os olhos lacrimejam. Só é preciso mesmo o querer para acontecer. Sim, Xuxa estava certa. Pois é. É exatamente isso tudo que talvez tenha se passado comigo nas constantes noites assistindo filmes. Às vezes, dez alugados na locadora para passar um final de semana. Talvez isso explique a ansiedade de fugir da escola com o objetivo de ver uma estreia mais que aguardada no cinema; entrar em transe ao sentir o cheiro de uma fita aberta de VHS e/ou de uma película em 35mm. Talvez toda essa experiência precisasse acontecer, como um Maktub Cósmico, para formar, moldar e definir o que sou hoje. Talvez tenha vivido tudo o que precisava pelo cinema. Sim, eram outras épocas. Outros mundos. Raphael Camacho disse em uma live que “éramos felizes e não sabíamos”. Talvez esteja certo. Assim, só temos que agradecer ao Festival Cavideo 24 Anos pela possibilidade de acessar nossas memórias afetivas, recuperando de uma vez por todas o que nós realmente somos na verdade. Até o próximo ano! E/ou até a próxima “invenção de moda” de Cavi Borges.

Um Balanço Particular do Festival Cavideo 24 Anos

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