Uaka

Convulsão na "civilização"

Por Vitor Velloso

Paula Gaitán possui uma cinematografia que busca compreender o nacional enquanto cultura, imagem, rito, movimento e som. “Uaka”, é um filme que não apenas representa o Brasil, mas registra. O que em primeiro momento soa axioma, em verdade, se consolida como a grande força estética da obra, pois se projeta enquanto força uníssona de seus personagens, agregando aos mais aguçados materialismos de nossas crenças na terra. E aqui, o vulgar pode acreditar que o exercício de Gaitán é “orgânico”, portanto estaria em transa com razões reacionárias. O erro está na própria articulação da problemática, não se pode falar em um movimento de organicidade da forma e Gaitán utiliza de artifícios dialéticos para assimilar sua proposta materialista. 

“Uaka” é uma forma de impulso, uma condução consciente da realidade, por uma montagem que não respeita os paradigmas do cinema clássico, mas não urge como monumento para romper, sim a partir da unidade que a cineasta estrutura. O longa propõe uma troca entre duas realidade materiais distintas, que passam a assimilar-se em linguagem e registro. O próprio registro se torna essa forma cinematográfica, sem a pureza dos criacionistas, completamente contaminada pela experiência de uma antropologia em síntese dialética.

Culto de Brasil, rompimento da falácia democrática neoliberal que dominou os planaltos, o longa de Paula Gaitán faz uma reverência aos nativos da cultura que a burguesia nacional acredita defender e representar. Por essa razão, vemos tantos comentários explicitando um descontentamento com a “falta de referencial geográfico” da autora, aliás, a burguesia passou a confundir a didática e dialética há tempos. Sintoma da pior síndrome referente ao imperialismo do cinema europeu, uma urgência em localizar-se entre as ideias, esquecemos que cinema é para ver e para ouvir (se tanto). E “Uaka” é apenas uma organização da experiência brasileira em seu processo histórico, político e cultural, sendo o materialismo única frente possível de compreensão da realidade da última.

Um breve retrato de como a dilatação de um processo histórico em tela cinematográfica, sem o tal do geo-referencial, articula uma imersão de forte impacto no espectador, rodeado pela imagem vulcânica e a visceral captação de um processo que de primitivo resta apenas a nomenclatura dos centrismos da burguesia engomada. Academicismos são burocracias de uma classe que não vê suas representações classicistas na tela no formato que conhecem, resultado: ataques reacionários à obra de Gaitán e suas incursões em universos de imagens e sons, sem contextualização prévia necessário. Curiosamente, parte dessa mesma turma se debruça a defender Brakhage, Tscherkassky etc. Filhos da mesma objetividade cinematográfica, moribundos às aprovações dos acadêmicos.

“Uaka” surge como um monumento desconhecido aos olhos do espectador e se encerra em misticismo de um solo que não compreendemos, mas o longa gera um esforço para que ao menos possamos conceber, através de uma linguagem primitiva, de registro, crua, um espasmo no inócuo da sociedade “civilizada”. Como a sensação é provocada a partir de uma obra com duração relevante, alguns espectadores podem sentir o cansaço ou o delírio se aproximar. Não há oferta, apenas um convite, a recusa é direito de quem se propõe a experiência.

Os rituais dos índios se concentram na objetiva de Gaitán como pilares oriundos de um Brasil que não foi consumido pelo neoliberalismo, mas convive com o dito cujo, em poder de assimilação. E neste ponto, a montagem de “Uaka” sintoniza cirurgicamente os pontos de rompimento desse mosaico da branquitude, enquanto local, linguagem e cultura. Um rompimento que não pode ser compreendido na ordem inversa, mas sim da explicitação do óbvio, como erguemos uma máscara que nos distancia da consciência dessa terra. E esta é nossa maior diferença, não há representações, há registros.

O filme de Gaitán é uma resposta viável para uma vestimenta que o Brasil utiliza e que os cineastas, cinéfilos e críticos furtaram diretamente dos europeus, mas não comeram. É um capim que cresce rápido, possui pouco valor no “mercado” e é decepado com a facilidade que os reacionários disparam dizeres virulentos. Se fizemos algo com um conhecimento mínimo, que seja a liberdade do registro.

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