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Tudo Vai Dar Certo

É a sociedade, não é mesmo?

Por Ciro Araujo

Durante o É Tudo Verdade 2022

Tudo Vai Dar Certo

O filme surpresa do É Tudo Verdade de 2022 também começa surpreendendo: “Tudo Vai Dar Certo”, novo filme de Rithy Panh, é um documentário representado por stop-motions paralisados de animais (e seres humanos) que começam a recontar e absorver a história cruel que a humanidade vem produzindo no último século através de totalitarismo e negacionismo. Não é como se “Planeta dos Macacos” ou até mesmo o anterior e amplamente citado “A Revolução dos Bichos” de Orwell nunca tivessem obtido êxito em parodiar a história humana através de outros seres. O cineasta cambojano fugiu do partido de Pol Pot quando criança, o que já explica sua aversão e por consequência proximidade ao tema.

Em uma modalidade de filme ensaio que mistura o poético com o expositivo, Rithy Panh decide que a melhor forma de tratar o não-ficcional seria adaptar a ficção. Trata-se então de um semi-documentário em sua síntese, uma vez que sua paródia, ou melhor, ironia, é central no longa-metragem. As esculturas pequenas de macacos, javalis, leões, elefantes, lobos e outros mais, dão a ideia de uma consequência para nossas escolhas através dos anos que passamos. Tal do desenfreado avanço capitalista é igualmente culpado, mas sem uma especificidade. O discurso, que já é explicitamente rancoroso e nervoso, diretamente para o espectador de forma expositiva, age como existisse um egoísmo coletivo através de ideologias. É uma linha de pensamento complicada, que ignora experiências globais através de um diretor que acabou aninhado através da França.

Aquela história de colocar comunismo e fascismo no mesmo balaio é um ponto repetido no filme cambojano (ou seria um longa francês?). Então nasce uma guerra de narrativas – palavra esta extremamente amaldiçoada por ideologias – que o cineasta tem o apego de explicitar de diferentes formas como horríveis. Uma definição simplória de achatar a questão totalitária. O ceticismo contra a humanidade de Rithy Panh poderia se aproximar ao cinema de Terry Gilliam, se não fosse o próprio teor anti-sistema que o britânico possui em sua arte. Ela já é mais ampla, não apela para artifícios narrativos pobres e querendo ou não é experiente na estrutura. Assim, Gilliam é um comediante com já direcionamento, enquanto o diretor do Camboja aposta na ironia já natural dos atos horrorosos da sociedade.

Então entra essa pergunta tão empunhada hoje como uma arma: “é a sociedade, não é mesmo?”. A indagação é talvez pobre diante do que previamente já foi retratada em outros filmes. De fato, existe uma complicação através de negar o passado e reescrevê-lo. A crítica foi realizada antes, mas existe algo mais a se aprofundar? Claro que sim. Porém, “Tudo Vai Dar Certo” apenas pincela através de uma poética cansada durante longas uma hora e trinta e oito minutos. E como são longas! É complicado dentro de uma crítica existir um pedido para encurtar o filme analisado. Todavia, o documentário parece implorar por um encurtamento. São arestas tão arrastadas e não polidas que parece que continuam e continuam através de uma longa reta sem fim. As revisões das complicações humanitárias não possuem uma profundidade para falar sobre.

Resta então apenas o sarcasmo intrínseco na película, dentro de bonecos estáticos que repetem e mimicam atitudes como uma espécie de espelho. A crítica que o filme produz aqui é claríssima, mas fica apenas em sua claridade. O almejado frescor que o cinema independente e autoral sempre está atrás se perde logo após sua única surpresa. Um stop-motion que depende apenas de seu visual, quando suas pautas são nada mais que esquecidas, ou melhor, alongadas.

Apesar de muitos pesares, “Tudo Vai Dar Certo” merece elogios por sua estética. É como um prato que possui grande visual, mas sem sabor. Ou melhor, o sabor até existe, mas é objetivamente chato. O filme é perigoso e não possibilita uma análise além do buraco em que ele cai. Revisionismo histórico sempre vai ser um caminho traiçoeiro, mas também necessário, fato que se revela inclusive em “Marighella”, de Wagner Moura. Se a profundidade desse cinema de Rithy Panh parece um pires, suas referências ainda possuem honra. Chaplin, George Méliès e inclusive 2001 são introduzidos na maçaroca animada que o cambojano planeja. A natureza desses interesses é muito nobre, mas sempre voltam à sua falta de sutileza, elegância ou mesmo a articulação em seu texto. De fato, é a sociedade…

2 Nota do Crítico 5 1

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