Tudo Sobre a Homenagem ao Cineasta Sylvio Lanna
O evento acontece hoje (05/03) no Estação Net Rio com a exibição de todos os novos curtas-metragens do diretor
Por Fabricio Duque
O realizador Sylvio Lanna sempre esteve no ar em nosso site. Seus filmes representam a memória do Cinema Brasileiro, pelos costumes e transgressões de uma época, e especialmente pela inovação imagética. Suas obras vão além do normal e do permitido, atravessando ideologias, catarses e paradoxalmente distopias utópicas. Há um movimento natural da vida acontecendo, ora no silêncio, ora na agitação e muito no grito. Neste março, no nono mês da Mostra Um Curta Por Dia, no dia 31/03, será exibido “Travelling Adiante”, de Lucio Branco (que inclusive aqui – abaixo – escreve um breve resume “deste reinventor cinematográfico total”, que considero quase um filme definitivo para que possamos traduzir seus experimentos cinematográficos. E exibimos no primeiro mês “Superstição e Futebol” de 1968. E a sessão, que acontece hoje (05/03), de Homenagem ao “monumental” (adjetivo divulgado no próprio release da imprensa) Sylvio Lanna, por Cavi Borges, exibirá todos os novos curtas-metragens (“Travelling Adiante”, “Olho Olho”, “Forofina”, “Cinema Caligráfico”, “Nova Pasta, Antigo Baú” e “In Memoriam – O Roteiro do Gravador”) deste diretor que marcou sua arte no nosso Cinema de forma “caligráfica” (mas que ficou 20 anos sem filmar), e também é um reconhecimento por todo seu trabalho. Sylvio sempre foi “figurinha carimbada” em todos os eventos, pré-estreias, da mais badalada a mais intimista.
O mineiro Sylvio Lanna (1944) pertence à geração do dito Cinema de Invenção, sendo um dos capítulos vivos do referencial livro homônimo do teórico da mesma: o crítico e também cineasta Jairo Ferreira. Lanna, atualmente com 79 anos, retomou a carreira cinematográfica após décadas afastado da atividade, por conta dos inúmeros reveses históricos sofridas pelo setor. Fazendo jus a esse pertencimento geracional desde o seu primeiro filme, o média-metragem “O roteiro do gravador” (1967) (cuja única cópia está perdida há anos), o diretor tem a experimentação como o norte da sua verve criativa. Algo que continua se evidenciando nos filmes da retomada da sua carreira, a partir do ano de 2019.
Sylvio Lanna é um esteta audiovisual sui generis. Nos seus filmes há soluções formais de linguagem cuja razão de ser é superar expectativas. Trata-se de uma testemunha vital das condições de produção cinematográfica do grupo de realizadores a que pertencia, assim como de parte da história do seu país e daqueles outros em que viveu. Lanna foi, também, por quase toda a década de 1970, um exilado político e cultural. Em 1966, com alguns colegas, mudou-se de sua cidade natal, Ponte Nova-MG, para o Rio de Janeiro. Foram morar num apartamento, fundando uma espécie de república de estudantes, quase todos matriculados na Faculdade de Filosofia da UFRJ. Conciliou a atividade acadêmica com a artística debutando, em 1967, com o referido “O roteiro do gravador”, perdido já há alguns anos na Cinemateca do MAM – Rio de Janeiro. O filme aborda a angústia existencial em primeira pessoa de um narrador, interpretado pelo poeta Pedro Garcia, às voltas com o Brasil do período. O desaparecimento da cópia do filme é o mote do curta “In Memoriam – O roteiro do gravador” (2019), o que possibilitou a Lanna retomar, sob outra chave criativa, parte do material que ainda detém da obra original: o seu roteiro, algumas fotografias de still reveladas e slides de fotogramas.
Graças a esta estreia de inegável viés autoral, Sylvio foi procurado por um produtor alemão para realizar um curta baseado numa matéria da revista “Manchete” sobre o universo das crenças religiosas em torno do futebol no Brasil. O ano era 1968, quando o país ainda dava provas inequívocas da reinvenção da sua forma de expressão mais criativa: o futebol-arte. Com direito à entrevista exclusiva com Pelé, flagrantes de times cariocas – então no auge – nos vestiários e adentrando o campo de um Maracanã sempre lotado, mandingas de jogadores e torcedores, e uma cerimônia no terreiro de Pai Sussú, com o massagista Pai Santana procurando garantir a vitória do Fluminense, Lanna fez “Superstição e futebol” (1970), ganhador da primeira edição do histórico festival de Oberhausen, em 1970. Com o material captado, o diretor montou uma versão pessoal do filme (uma espécie de “Director’s Cut”). A produtora alemã contratante também concorreu com a sua no festival, e viu o filme homônimo, com assinatura brasileira, sair vitorioso. (O próprio envio da cópia do curta, sob o período mais repressivo da ditadura, já poderia render um outro filme, com a sua entrada clandestina na embaixada alemã como única garantia da sua participação no festival.)
Por conta do ambiente político do país (com amigos da “República de Ponte Nova” recorrendo à clandestinidade), e com o dinheiro do prêmio em mãos, Lanna optou por fazer uma viagem pela América do Sul. Sylvio Lanna lança seu único longa-metragem, e obra mais conhecida da sua filmografia, “Sagrada Família” (1970), rodado em Ponte Nova, que traz Paulo Cesar Pereio no elenco e o diretor Andrea Tonacci na produção. É um filme que vem ganhando mais e mais admiradores nos últimos anos, que reconhecem o seu ineditismo de linguagem. Não demoraria para Sylvio Lanna concluir que o seu melhor destino, naquele momento, seria o exílio. Um dos seus amigos da “República de Ponte Nova” tinha entrado para a clandestinidade e ele se viu seriamente ameaçado. Ao longo dos 1970, passou temporadas em Londres, Amsterdam, Paris, Copenhague (onde nasceu seu filho, Yamba), Barcelona e Nova York.
Especificamente em 1973, visitou Senegal, Mali, Niger, Alto Volta (antigo nome de Burkina Faso), Gana, Daomé (antigo nome de Benim) e Argélia. Em “Forofina, um filme a ser feito”, por exemplo, Sylvio filma a Daomé de Benim. E coincidentemente foi o tema do longa-metragem “Dahomey”, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Cinema de Berlim 2024. Em praticamente todos os lugares por que passou no seu périplo, filmou e tentou se profissionalizar como cineasta. Às inúmeras dificuldades de um realizador brasileiro que já vinha encontrando dificuldades em seu país de origem, vieram se somar consideravelmente outras, também, em terras estrangeiras. As imagens em 16 mm, em P&B, rodadas no Mali, que ficaram sem uso durante um longo período, assim como registros em Super-8, na Inglaterra (mais especificamente nos projetos de filmes de nomes “Way Out” e “120, Edith Road, Death and Life”), e na Dinamarca, poucos anos depois, foram suas últimas filmagens antes do média “Malandro, termo civilizado ou Malandrando” (1987), rodado no Rio de Janeiro.
Após hiato, retoma a sua trajetória no cinema com o referido curta “In memoriam – o roteiro do gravador”, assim como os outros, “Forofina, um filme a ser feito” (2020) (finalmente utilizando as imagens rodadas no Mali e codirigido com Cavi Borges), “Nova pasta, antigo baú” (2021), e “Ôlho, ólho” (2023).