Sagrada Família

A dialética das linguagens

Por Julhia Quadros

Nota: Esta crítica vem com determinadas informações acerca da realização desta obra retificadas, aprofundadas e revisadas, através de uma rica e extensa entrevista concedida pelo cineasta Sylvio Lanna para o site Vertentes do Cinema. Agradecemos a atenção do artista e sua disposição para conversar sobre os diversos aspectos e detalhes de sua obra e esperamos que ela seja perpetuada com toda a atenção e valor que merece. 

O filme “Sagrada Família” (1970), dirigido por Sylvio Lanna retrata uma família burguesa de quatro integrantes, que está de viagem em um carro para o interior, com um guia. Como define o autor, “não é uma estória de detetive, mas uma estória para detetives”, através da qual é possível ter um olhar metafísico para as imagens e chegar a uma estrutura complexa por meio dos diversos elementos do filme.  Com Paulo César Pereio (Zambio), Walda Maria Franqueira (Dama), Milton Gontijo (Guia), Maria Olívia (Geração Espontânea), Teresinha Soares (Mandrágora), Nelson Vaz (Velho) e José (Mendigo), o filme se dá em duas construções diferentes: a primeira por meio das imagens e a segunda por meio do som, sendo ambas feitas de formas distintas. Enquanto o que é visto retrata a decadência moral da burguesia, o que é ouvido é a rotina diária de um artista underground. Este embate entre som e imagem ao longo do filme é bastante interessante, pois eles se completam e um sugere interpretações diferentes para o outro. O filme expõe realidades diferentes, e pontos de vista por vezes contraditórios sobre situações cotidianas, o que torna a narrativa extremamente interessante e carregada de ironia, em uma obra em que a pluralidade das vozes se faz evidente.

Logo ao início de “Sagrada Família”, há diversas imagens do cotidiano burguês, como festas, reuniões, ambientes amplos e ostensivos na casa da família, carros, empregados e é curioso como as falas da parte sonora do filme muitas vezes contradizem. Por exemplo, em um plano com Zambio se arrumando em frente ao enorme espelho do banheiro, há uma voz que diz: “Foi assim que aconteceu com o personagem principal. Uma cena da velhice, de repente, a infância e depois a juventude. Alô, alô!”. É uma construção muito interessante, a princípio, semelhante a uma apresentação padrão de narrativas, que identifica o protagonista e anuncia que irá contar sua história, tendo, porém o rumo alterado, primeiro, pela ordem dos momentos de vida apresentados (velhice, infância e juventude), depois, que o narrador verifica a reciprocidade do ouvinte ao gritar “alô, alô”. Com isto, deixa clara a necessidade de se ter alguém para ouvir, evidenciando tudo o que fora calado naquele contexto e a falta de espaço que ele tem até mesmo para si em um ambiente farto, mas opressivo. Começa a se estabelecer o jogo entre algo a ser sustentado, mostrado (imagens) e o que não encontra espaço no ambiente, o não dito, a verdade, a interação mais direta entre as pessoas (os sons).

Influenciado pela filosofia de Heráclito, Lanna cria em “Sagrada Família”, uma realidade cíclica para seu filme, começando e terminando com o último plano em que Geração Espontânea passa roupas, sugerindo o eterno recomeço, eterno acontecimento dos fatos, sendo, porém, cada vez única e especial. O filme tem diversos signos e imagens, como o símbolo de adição na tela, que remete a uma encruzilhada, o de igual, que supostamente, cria pontes, mas que, porém, alonga-se em retas paralelas, sugerindo proximidade, afinidade e eterno desencontro. Há, ao longo da narrativa, uma constante sugestão de que os fatos apresentados poderiam não ter realmente acontecido. Ao final do filme, o suposto assassinato também é relativo, como é sugerido pela opção do cineasta de não utilizar o som do tiro de forma realista. Ao repetir o plano inicial no final, o autor não coloca o letreiro com a palavra “fim”, reforçando o conceito de que sua obra seria um eterno loop e que a morte poderia ter ocorrido, assim como poderia não ter. Todo o filme é composto pelo embate entre o som e a imagem, um respondendo o outro, criando uma grande sincronicidade, o que, para Sylvio Lanna, é o conceito que define o Cinema.

Com uma inter-relação entre suas obras, o filme tem uma relação com a realização anterior do cineasta: O Roteiro do Gravador. Filmado em 35mm, “Sagrada Família” teve sua fotografia feita por Tiago Veloso, independentemente da banda sonora, após Sylvio Lanna e Andrea Tonacci terem se associado à Total Filmes, para que produzissem seus primeiros longas metragens, o filme de Lanna é o primeiro, com a câmera de Tonacci. Conseguem as latas por meio do prêmio de um concurso promovido pela empresa italiana Ferrania, que confeccionava películas e premiaria um jovem cineasta com cinquenta latas para a direção de um longa; ambos conseguem e dividem as latas. Já a banda sonora é resultado de uma temporada na casa do montador Geraldo Veloso, em que Lanna capta, com a ajuda de José Sette de Barros o material que será a trilha sonora de Sagrada Família. O diretor conta que saía neste período para “caçar sons”, com o seu gravador Nagra, e, por quinze dias, ele segue gravando o que considerava interessante para ser registrado. Há um trabalho muito grande em relação à organização deste som plural resultante da pesquisa, há por exemplo, determinados eventos que se repetem ao longo da banda sonora, tal qual um interrogatório ou falas do locutor esportivo José Cunha, que surgem em diversos momentos; o processo de mixagem da obra leva, ao todo, quatro meses, o que evidencia o imenso trabalho para se montar o quebra-cabeça sonoro, que corroboraria a interpretação metafísica do filme. Enquanto, a montagem da imagem demora quatro semanas para ser realizada, o que foi feito na Cinemateca do MAM, durante as madrugadas.

É curioso o processo de desmonte de um padrão de classe à medida que a família vai se distanciando de suas origens e como, ao assistir ao filme, o espectador associe o áudio à imagem, não apenas de uma forma dialética, mas também, com um tom de revelação das verdadeiras personalidades das pessoas, sem precisarem manter as aparências, sendo as vozes a verdadeira subjetividade da obra. Por exemplo, a apresentação da figura do Mendigo, interpretada por José, que se dedica às filmagens com muita prontidão e afinco (e, infelizmente, falece pouco depois de terminar o trabalho) associada à música Jesus Cristo, de Roberto Carlos, cantada como uma paródia. Os elementos são constantemente ditos e relativizados, reforçando o diálogo entre todas as vozes presentes e interposição entre elas. Até mesmo o título, Sagrada Família, aparentemente religioso, remete ao livro homônimo escrito por Karl Mar e Friedrich Engels. Esta ideia de sugestões e reinterpretações tão presente no filme ocorre até mesmo no fato de que este anuncia o término diversas vezes, talvez sugerindo outros finais ou outros pontos do loop de sua exibição.

A montagem de “Sagrada Família”, que se inicia com Gilberto Santeiro e termina com Geraldo Veloso corrobora o embate entre o som e a imagem, apresentando a alternância entre planos longos e curtos, apresentação de símbolos, muitas vezes, tudo isto se relacionando com o ritmo das vozes e sons. Como as duas linguagens da obra, a princípio, não tinham relação, a montagem possibilitou a pluralidade de jogos e organizações, que, inclusive, potencializaram a obra de Lanna, tornando-a ousada para os padrões estéticos e capaz de explorar diversos pormenores da Linguagem Cinematográfica. Tendemos a associar as falas a assuntos discutidos, gestos feitos e momentos específicos ao longo da viagem, sendo, elas uma boa caracterização das personagens e, principalmente, do universo que ignoravam ou sufocavam. É possível afirmar que o filme gera uma pluralidade de interpretações e sentidos através da combinação entre os dois planos e, além da crítica social e do posicionamento filosófico, o filme é um excelente exemplo das produções undreground, dialogando com os demais filmes de sua época, como “Bang bang”, por exemplo. É um filme que por sua forma e conteúdo pode ser considerado uma obra marcante para o Cinema Brasileiro.

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