Tudo Sobre a Exposição e Mostra Cahiers du Cinéma 70 anos

Cahiers du Cinema 70 anos

Tudo Sobre a Exposição e Mostra Cahiers du Cinéma 70 anos

Exposição sobre a revista francesa mais importante do mundo tem sua inauguração nesta sexta, 10 de dezembro, no Estação Net Rio

Por Redação

A Mostra e exposição Cahiers du Cinéma comemora os 70 anos da revista de cinema mais famosa do mundo, que não só vem influenciando gerações, como foi a responsável por valorar o termo cinefilia, e mudando o rumo da estética autoral cinematográfica. A exposição apresentará 350 exemplares da revista desde dos anos 1951, quando foi fundada. A exposição tem curadoria de Fabricio Duque (também na criação dos textos), de Cavi Borges (na produção) e de Ilda Santiago (na mostra de filmes).

A inauguração acontece no dia 10 de dezembro (durante o Festival do Rio), também aniversário de Fabricio Duque. A programação exibirá o filme “Pierrot Le Fou – O Demônio das Onze Horas” (ver preços dos ingressos no final desta matéria), de Jean-Luc Godard, e logo após a abertura oficial da exposição, totalmente gratuita. Com visita guiada e mimos aos participantes.

A exposição Cahiers du Cinéma contará com quinze icônicos e importantes cartazes-capas da revista francesa. Os textos norteiam o público, explicando informações e curiosidades, como a primeira edição, o panfleto manifesto de François Truffaut, André Bazin, Alfred Hitchcock, Carlos Diegues, além de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.


A EXPOSIÇÃO

Cahiers du Cinema 70 anos

HOMENAGEM E AGRADECIMENTO ESPECIAL

Esta exposição é dedicada a Ronald Monteiro. E só foi possível por causa de sua esposa Marialva Monteiro, que doou todas as revistas Cahiers du Cinéma. Ronald F. Monteiro formou-se em direito pela PUC-RJ, mas não exerceu a profissão. Durante 40 anos assinou críticas em jornais como “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “Tribuna da Imprensa”. Vários de seus trabalhos foram publicados no exterior. Criador e editor do “Guia de filmes”, Ronald dedicou-se também ao ensino, ministrando cursos livres na Cinemateca do MAM, de onde também foi, como apaixonado pela pesquisa, curador e responsável pelo acervo de papel. Foi fundador e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro.

Cahiers du Cinéma: a origem e seus porquês

O objetivo da Exposição Cahiers du Cinéma é comemorar os 70 anos da revista de cinema mais famosa do mundo, que não só vem influenciando gerações, como foi a responsável por valorar o termo cinefilia, mudando o rumo da estética autoral cinematográfica.

Editada na França e criada em março de 1951 por Jacques Doniol-Valcroze, André Bazin e Lo Duca, a Cahiers du Cinéma quebrou tabus da sétima arte ao discutir e incorporar no imaginário popular a sensação permanente de se viver em um filme. Um cotidiano possível. A revista é na verdade uma união entre a originária revista intitulada Revue du Cinéma e a participação dos membros dos cineclubes parisinos: Ciné-Club du Quartier Latin e Objectif 49 (no qual contribuiam nomes como Bresson, Cocteau e Alexandre Astruc, entre outros).

Nesta união, foram somados à equipe de edição (que era inicialmente composta por Éric Rohmer e Maurice Scherer) outros colaboradores: Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut. Estes jovens colaboradores estavam recém incursionando à direção de filmes nos fins dos anos 1950, depois de ter desempenhado a profissão de roteiristas durante os anos anteriores. A revista defendia a política dos autores.

A primeira publicação, de 1951 lançou um verdadeiro “journal de combat” ao denunciar “o maléfico neutralismo que toleraria um cinema medíocre, uma crítica cautelosa e um público estupefato”. Muito do poder da revista veio em 1954 com o polêmico panfleto de François Truffaut, “Uma certa tendência no cinema francês”, que agitou o número 31 da revista Cahiers du Cinéma. O jovem crítico debatia obras premiadas em festivais, desprezando a dita “tradição de qualidade”.


Revista Cahiers du Cinéma número 31: “Une certaine tendance du cinéma français“

Quando se pensa em François Truffaut, a primeira coisa que vem à mente é sua cinefilia. São 35 anos sem os 35 milímetros de suas películas. Material, por sinal, símbolo de uma estética própria: com um novo negativo, antes exclusivo à fotografia fixa, a câmera separada do tripé passa a acompanhar atrizes e atores pelas ruas francesas. Era o início da Nouvelle Vague, um movimento de jovens cineastas que alimentava o respeito máximo pelo cinema. O realizador francês era, acima de tudo, um apaixonado pela Sétima Arte. Para ele, o ato de assistir a um filme representava um prazer aos olhos. Em 1954, seu polêmico panfleto “Uma certa tendência no cinema francês” agitou o número 31 da revista Cahiers du Cinéma. O jovem crítico debatia obras premiadas em festivais, desprezando a dita “tradição de qualidade”.

A seguir trechos do manifesto: “Essas notas não têm outro objetivo senão tentar definir uma certa tendência do cinema francês – uma tendência chamada “realismo psicológico” – e esboçar seus limites. Se o cinema francês existe por meio de uma centena de filmes por ano, é bem entendido que apenas dez ou doze merecem a atenção de críticos e cinéfilos, e a atenção, portanto, da Cahiers du Cinéma.

Esses dez ou doze filmes constituem o que foi belamente chamado de “Tradição de Qualidade”; forçam, por sua ambição, a admiração da imprensa estrangeira, a defender a Bandeira francesa duas vezes por ano em Cannes e em Veneza, onde, desde 1946, distribuem regularmente medalhas, leões de ouro e grands prix.

Com o advento dos “filmes falados”, o cinema francês foi um plágio franco do cinema dos americanos. Sob a influência de “Scarface” (1932), fizemos o divertido “O Demônio da Argélia” (1937). Então o cenário francês é mais claramente obrigado a predizer para sua evolução: “Cais das Sombras” (1938) continua sendo a obra-prima do realismo poético.


André Bazin: o pai espiritual do cinema

André Bazin é considerado o “pai espiritual” do cinema. Um pai mais que prodígio. Nasceu na França, em Angers, no dia18 de abril de 1918 e morreu em Nogent-sur-Marne11 de novembro de 1958, de Leucemia aos 40 anos de idade. De formação católica, Bazin sem aprofundar muito tendências existencialistas e de esquerda, foi impedido de ser professor por causa de sua tartamudez. Mas sua gagueira não impediu que participasse com comentários informais em cineclubes parisienses.

Bazin defendia filmes que versavam sobre o que ele chamava de “realidade objetiva” (tais como documentários e as produções do neo-realismo italiano) assim como diretores que se “auto-invisibilizavam” (a exemplo de Howard Hawks). Ele propunha o uso da profundidade de campo (Orson Welles), planos gerais (Jean Renoir) e o plano-sequência, além de dar preferência ao que ele denominava “verdadeira continuidade” diante de experimentos de montagem e efeitos visuais. Isto o pôs em contraposição às teorias do cinema dos anos 20 e 30 que enfatizavam o modo como o cinema podia manipular a realidade. A ênfase na realidade objetiva, profundidade de campo e ausência de montagem estão vinculadas à convicção de Bazin de que a interpretação de um filme ou cena deve ser deixada ao espectador.

Bazin acreditava que um filme devia representar a visão pessoal de um cineasta, baseando-se para isso numa tendência espiritual chamada “personalismo”. Essas ideias tiveram uma importância capital para o desenvolvimento da “teoria do autor”, cujo manifesto foi o artigo de François Truffaut “Uma certa tendência do cinema francês” (“Une certaine tendence du cinéma français”), publicado nos Cahiers. Bazin é também conhecido como proponente de uma “crítica apreciativa”, em que só os críticos que gostaram de um filme poderiam escrever a respeito dele, encorajando assim uma perspectiva construtiva.

No livro “Cinefilia”, Antonie de Baecque conta que quando Bazin, o “mentor espiritual”, morreu, François Truffaut perdeu seu pai adotivo. No mesmo ano em 1958, a Cahiers du Cinéma repetia que Bazin “apaga-se precisamente quando nasce a Nouvelle Vague” e, como escreve Renoir, “ele foi o fio de Ariadne, sem ele a dispersão será completa”. Godard dedica “O  Desprezo” à memória do mestre. E Truffaut o faz com “Os Incompreendidos” e o homenageando em 1983 com o prefácio de “André Bazin”, de Dudley Andrew. “André morreu há vinte e cinco anos, e poderíamos achar que a passagem do tempo suaviza o sentimento de sua ausência, o que não é o caso. Bazin nos faz falta”.


Cahiers du Cinéma e Alfred Hitchcock

A Exposição Cahiers du Cinéma busca abordar também a “sede e fome” dos autores da revista em querer estudar novidades e tendências. Foi assim que o suspense do realizador britânico Alfred Hitchcock caiu nas graças e nos interesses de François Truffaut. O encontro gerou o livro “Hitchcock/Truffaut”.

Durante as décadas de 50 e 60, quando François Truffaut idealizou e realizou a série de entrevistas que resultariam nesse livro, Alfred Hitchcock (1899-1980) era visto – sobretudo nos Estados Unidos – como um cineasta mediano e comercial. No entanto, para Truffaut – e para os jovens diretores e críticos franceses da revista Cahiers du Cinéma -, Hitchcock estava entre os maiores cineastas de todos os tempos, ao lado de nomes como Jean Renoir, Federico Fellini, Ingmar Bergman e Luis Buñuel. Com o objetivo de modificar a opinião dos críticos americanos – e com o imperioso desejo de “consultar o Oráculo” -, Truffaut propôs ao diretor inglês que respondesse quinhentas perguntas sobre sua obra e carreira. Nesta extensa conversa, Hitchcock comenta detalhadamente sua produção, desde os primeiros filmes mudos feitos na Inglaterra até os coloridos e sonoros de Hollywood, falando sobre a concepção de cada obra, a elaboração do roteiro, as circunstâncias, as inovações e os problemas técnicos, a relação com os atores.

O diálogo entre os dois diretores permite ao leitor acompanhar não apenas a evolução da obra do cineasta inglês, mas a própria história do cinema. Lançada em 1967, a primeira edição de “Hitchcock/Truffaut” contemplava a produção de Hitchcock até Cortina rasgada, seu qüinquagésimo filme. Para a edição definitiva, de 1983, Truffaut acrescentou um capítulo com os últimos anos e filmes do cineasta – feito com base na correspondência trocada entre eles. Hitchcock/Truffaut foi publicado pela primeira vez no Brasil nos anos 80, e logo passou a ser disputado em sebos e bibliotecas. Com nova tradução e projeto gráfico, centenas de imagens e um prefácio inédito do crítico e professor Ismail Xavier, a presente edição é um documento único da história do cinema.

Em um dos trechos do livro, Hitchcock diz: ”A diferença entre suspense e surpresa é muito simples, e costumo falar muito sobre isso. Mesmo assim, é frequente que haja nos filmes uma confusão entre essas duas noções. Estamos conversando, talvez exista uma bomba debaixo desta mesa e nossa conversa é muito banal, não acontece nada de especial, e de repente: bum, explosão. O público fica surpreso mas, antes que tenha se surpreendido, mostram-lhe uma cena absolutamente banal, destituída de interesse. Agora, examinemos o suspense. A bomba está debaixo da mesa e a plateia sabe disso, provavelmente porque viu o anarquista colocá-la. A plateia sabe que a bomba explodirá à uma hora e sabe que faltam quinze para a uma – há um relógio no cenário. De súbito, a mesma conversa banal fica interessantíssima porque o público participa da cena. Tem vontade de dizer aos personagens que estão na tela: ‘Vocês não deveriam contar coisas tão banais, há uma bomba debaixo da mesa, e ela vai explodir’. No primeiro caso, oferecemos ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, oferecemos quinze minutos de suspense. Donde se conclui que é necessário informar ao público, sempre que possível, a não ser quando a surpresa for um twist, ou seja, quando o inesperado da conclusão constituir o sal da anedota.”


Carlos Diegues na Cahiers du Cinéma

A Exposição Cahiers du Cinéma não poderia deixar de mencionar a edição 225. A revista francesa, em novembro-dezembro de 1970, realizou um estudo sobre o Cinema Brasileiro: uma entrevista com o realizador Carlos Diegues, promovendo um debate sobre cinema moderno no mundo.  Mas não foi a primeira referência tupiniquim abordada pela Cahiers du Cinéma. Desde a edição 176, de março de 1966, iniciava-se uma série de matérias especiais sobre o Cinema Novo brasileiro. Com textos de Marco Bellocchio, Gustavo Dahl e Louis Marcorelles. Um encontro com Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues e Leon Hirszman.

Em 1962, no CPC, Diegues, nascido em Maceió nos anos 40, dirige seu primeiro filme profissional, em 35mm, “Escola de Samba Alegria de Viver”, episódio do longa-metragem “Cinco Vezes Favela” (os demais episódios são dirigidos por Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Marcos Farias e Miguel Borges). Seus três primeiros longas-metragens “Ganga Zumba” (1964), “A Grande Cidade” (1966) e “Os Herdeiros” (1969) – são filmes típicos daquele período voluntarista, inspirados em utopias para o cinema, para o Brasil e para a própria humanidade. Polemista inquieto, ele continua a trabalhar como jornalista e a escrever críticas, ensaios e manifestos cinematográficos, em diferentes publicações, no Brasil e no exterior.

Em 1969, após a promulgação do AI-5, Diegues deixa o Brasil, vivendo primeiro na Itália e depois na França, com sua esposa, a cantora Nara Leão. De volta ao Brasil, Diegues realiza mais dois filmes “Quando o Carnaval Chegar” (1972) e “Joanna Francesa” (1973). Em 1976, dirige Xica da Silva, seu maior sucesso popular. Em 1978, Diegues inventa, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, a expressão “patrulhas ideológicas” para denunciar alguns setores da crítica que desqualificavam os produtos culturais não alinhados a certos cânones da esquerda política mais ortodoxa. Nesse período de início da redemocratização do país e de renovação do cinema brasileiro, realiza “Chuvas de Verão” (1978) e “Bye Bye Brasil” (1979), dois de seus maiores sucessos.

Em 1981, integrou o júri no Festival de Cannes. Em 1984, realiza o épico “Quilombo”, uma produção internacional comandada pela Gaumont francesa, um velho sonho de seu realizador. Numa fase crítica da economia cinematográfica do país, realiza dois filmes de baixo custo, “Um Trem para as Estrelas” (1987) e “Dias Melhores Virão” (1989). Na mesma fase, realiza, em parceria com a TV Cultura, “Veja esta Canção” (1994). Quando a nova Lei do Audiovisual finalmente é promulgada, ele é um dos poucos cineastas veteranos ainda em atividade – trabalhando com comerciais, documentários, videoclipes.

Entre seus sucessos que seguiram incluem-se “Tieta do Agreste” (1996), “Orfeu” (1999) e “Deus É Brasileiro” (2003). A maioria dos 18 filmes de Diegues foi selecionada por grandes festivais internacionais, como Cannes, Veneza, Berlim, Nova York e Toronto, e exibida comercialmente na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina – o que o torna um dos realizadores brasileiros mais conhecidos no mundo. É oficial da Ordem das Artes e das Letras (l’Ordre des Arts et des Lettres) da República Francesa. Também é membro da Cinemateca Francesa. O governo brasileiro também lhe concedeu o título de Comendador da Ordem de Mérito Cultural e a Medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta do país.


O Brasil de Bolsonaro na Cahiers du Cinéma

A Exposição Cahiers du Cinéma traz também uma das edições mais importantes da revista francesa. O número 758 de setembro de 2019 estampa na capa uma cena do filme “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, com a chamada “De Volta ao Cinema: O Brasil de Bolsonaro”, um dossiê especial sobre a situação da cinematografia brasileira. No texto de abertura em seu editorial, Stéphane Delorme , chefe de redação da revista, escreveu que “A volta ao cinema é iluminada por “Bacurau” de Kleber Mendonça Filho, fábula e modelo explosivo contra forças de destruição massivas. No momento em que o cinema brasileiro é um dos mais férteis (Gabriel e a Montanha, Aquarius, As Boas Maneiras), ele se encontra ameaçado pela ofensiva reacionária e retrógrada de Bolsonaro… Nossa enquete com alguns cineastas revelou mais inquietude do que energia para reagir… A reportagem aqui revela tanto a preocupação, quanto a energia dos cineastas para resistir”.

O dossiê, com quase 20 páginas, insere também entrevistas com cineastas da atualidade: Fellipe Barbosa (“Casa Grande”, “Gabriel e a Montanha” e “Domingo”), Eryk Rocha (“Cinema Novo”), Marco Dutra (“Trabalhar Cansa” e “As boas maneiras”), Camila Freitas (“Chão”) e Guto Parente (“Inferninho”). A revista sinalizou também a estreia na França de “Bacurau”, no dia 25 de setembro de 2019, vencedor do prêmio do Júri no Festival de Cannes do mesmo ano. O texto é complementado com uma longa entrevista dos diretores.

O dossiê “o cinema brasileiro na era Bolsonaro” é assinado por Ariel Schweitzer. “Nossa impressão é que o cinema brasileiro está atualmente em um momento decisivo. De um lado recolhe os frutos de investimentos extraordinários dos governos precedentes; de outro lado, está ameaçado pelo novo governo que vê o cinema como um inimigo interno e que ameaça cortar todas as conquistas dos últimos 15 anos”, diz o crítico da Cahiers du Cinéma.

No site da RFI, “Os filmes analisados pelo crítico do Cahiers foram realizados e produzidos antes da chegada de Bolsonaro ao poder, mas na sua opinião muitos deles “são visionários e antecipam de alguma maneira a situação política atual, como “Bacurau” ou “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro”. “O cinema brasileiro está na linha de frente dessa campanha de Bolsonaro contra os intelectuais e artistas por causa de sua visibilidade internacional. Ele se tonou uma espécie de vitrine do Brasil devido a seu sucesso no exterior e em festivais internacionais. Temos a impressão que o governo desenvolveu uma espécie de obsessão com o cinema brasileiro. Como se este Brasil de minorias, que acredita nos direitos humanos, fosse uma ameaça para este regime”, complementa Ariel.

Mais de 200 exemplares da revista, em francês, foram vendidos no Brasil. “Temos a impressão que os cinéfilos brasileiros viram isso como um gesto da França e da Europa neste combate que começa para garantir a independência do cinema brasileiro em relação ao poder atual. Vamos continuar a defender o cinema brasileiro no Cahiers”, finaliza o crítico.


Glauber Rocha na Cahiers du Cinéma

Se a revolução de François Truffaut no número 31 da Cahiers du Cinéma aconteceu com panfleto-manifesto “Uma Certa Tendência do Cinema Francês”, na versão tupiniquim então, a voz ganhou força com o realizador Glauber Rocha. Questionava-se a hegemonia do cinema norte americano. A luta do diretor baiano recebeu notório reconhecimento da revista francesa, estampando em sua capa uma das cenas de seu filme “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, que venceu o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes. No número 214, de julho/agosto de 1969, Glauber Rocha integrava o time de enérgicos pensadores sociais, junto com o cinema soviético de Serguei Eisenstein (com sua poderosa e polêmica cena da escadaria de Odessa em “O Encouraçado Potemkin”) e do diretor Emile de Antonio, documentarista norteamericano da contracultura.

Glauber de Andrade Rocha nasceu em 14 de março de 1939 e morreu no Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1981. Era o mais velho dos 4 irmãos e único menino da família. Foi Foi criado na religião da mãe, protestante, membro da Igreja Presbiteriana, por ação de missionários norte-americanos da Missão Brasil Central. Partiu de Vitória da Conquista e foi para Salvador. Ali, escrevendo e atuando numa peça, seu talento e vocação foram revelados para as artes performativas. Participou em programas de rádio, grupos de teatro e cinema amadores, e até do movimento estudantil.

Começou a realizar filmagens (seu filme “Pátio”, de 1959, ao mesmo tempo em que ingressou na Faculdade de Direito da Bahia, hoje da Universidade Federal da Bahia, entre 1959 a 1961), que logo abandonou para iniciar uma breve carreira jornalística, em que o foco era sempre sua paixão pelo cinema. Da faculdade veio seu namoro e casamento com uma colega, Helena Ignez. Sempre controvertido, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Era visto pela ditadura militar que se instalou no país, em 1964, como um “elemento subversivo”.

Em 1970, realiza “Vento do Leste” com o Grupo Dziga Vertov, um coletivo de cineastas politicamente ativos, que, em sua essência, incluía Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin. Como na maioria dos filmes desse período da carreira de Godard, o crédito de direção foi concedido ao coletivo e não individualmente a cada cineasta. Ainda, o filme conta com a participação de Glauber Rocha como ator, interpretando ele mesmo. O filme trata de inúmeras questões a respeito das posições políticas anticapitalistas, mas principalmente de questões sobre a ideologia das composições do cinema que são antecipadamente consideradas naturais, como a junção da imagem e do som.

Em 1971, com a radicalização do regime, Glauber partiu para o exílio, de onde nunca retornou totalmente, casando-se com a cineasta Paula Gaitán. Glauber faleceu vítima de septicemia, ou como foi declarado no atestado de óbito, de choque bacteriano, provocado por broncopneumonia que o atacava havia mais de um mês, na Clínica Bambina, no Rio de Janeiro, depois de ter sido transferido de um hospital de Lisboa, capital de Portugal, onde permaneceu 18 dias internado. Residia havia meses em Sintra, cidade de veraneio portuguesa, e se preparava para rodar “Império de Napoleão”, a partir do argumento escrito em colaboração com Manuel Carvalheiro, quando começou a passar mal. Em 2006, por decreto federal do governo Lula, o arquivo privado de Glauber Rocha tornou-se de interesse público e social por possuir documentos relevantes para o estudo e pesquisa sobre as formas de pensamento e expressão artística, bem como sobre a elaboração de linguagem inovadora para o cinema brasileiro.


Créditos da Exposição

CAHIERS DU CINÉMA MON AMOUR 70 ANOS

Curadoria e produção: Cavi Borges

Curadoria e textos: Fabrício Duque

Curadoria e Mostra dos filmes Retrospectiva: Ilda Santiago

Realização: Cavideo, Vertentes do Cinema, Estação Net Rio e Festival do Rio

Esta exposição não seria possível sem a ajuda de Marialva Monteiro, que doou todo acervo das revistas de seu marido, Ronald Monteiro. Parte das Cahiers du Cinéma podem ser encontradas aqui. As outras encontram-se disponíveis na Biblioteca Marialva Monteiro nas Casas Casadas, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Ronald F. Monteiro formou-se em direito pela PUC-RJ, mas não exerceu a profissão. Durante 40 anos assinou críticas em jornais como “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “Tribuna da Imprensa”. Vários de seus trabalhos foram publicados no exterior. Criador e editor do “Guia de filmes”, Ronald dedicou-se também ao ensino, ministrando cursos livres na Cinemateca do MAM, de onde também foi, como apaixonado pela pesquisa, curador e responsável pelo acervo de papel. Foi fundador e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro.

Assim, os curadores dedicam a exposição Cahiers du Cinéma Mon Amour 70 anos a Marialva Monteiro e Ronald Monteiro.

A exposição também conta com o QR CODE. É só aproximar a câmera de seu celular e ler todos os textos.

Aproveite! E embarque nesta viagem cinéfila!


A MOSTRA DE FILMES RETROSPECTIVA CAHIERS DU CINÉMA 70 ANOS

Pierrot Le Fou

O Festival do Rio terá uma seção especialmente dedicada à história da crítica e da cinefilia em 2021. A lendária revista Cahiers du Cinéma está completando 70 anos e o marco será celebrado com uma mostra de clássicos franceses e uma exposição composta por edições históricas da renomada publicação.

Como parte da homenagem, clássicos de Louis Malle, Robert Bresson, Chris Marker, Eric Rohmer, René Laloux, Jacques Rivette, Jean-Luc Godard e do grego naturalizado francês Costa-Gavras serão exibidos nas salas de cinema do circuito do Festival do Rio.

A programação apresenta os filmes durante o Festival do Rio sempre às 16h10. 

Ingressos: R$ 32,00 (inteira) / R$ 16,00 (meia)

DIA 10/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10 – ABERTURA

O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (Pierrot le fou), dir: Jean-Luc Godard – LEIA MAIS SOBRE O FILME AQUI

Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Samuel Fuller.

Sinopse: Ferdinand Griffon está entediado com a sociedade parisiense. Certa noite, ele deixa a esposa em uma festa e volta sozinho para casa, onde encontra uma antiga amiga, Marianne Renoir, trabalhando como babá dos seus filhos. No dia seguinte, ele aceita fugir com a bela para o Mediterrâneo, mas o casal vai ser perseguido por mafiosos.

França / Itália, 1965. 14 anos. Leg Português


DIA 11/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

OS CRACÓIS (Les escargots), dir:René Laloux (CURTA-ANIMAÇÃO)

Sinopse: Um camponês lamenta suas alfaces raquíticas… e de repente elas começam a crescer desproporcionalmente.

O PLANETA SELVAGEM (La planète sauvage), dir: René Laloux (LONGA ANIMAÇÃO)

Sinopse: No planeta Ygam vive uma raça de seres alienígenas gigantes chamados Draags. Estesseres – que através da meditação atingiram os mais altos níveis do conhecimento – mantêm oshumanoides Oms como animais domésticos. Até o dia em que os oprimidos Oms, liderados pelo rebelde Terr, decidem iniciar uma revolução.

França / Tchecoslováquia, 1973. 14 anos. Leg Português


DIA 12/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

LOUCURAS DE UM PRIMAVERA (Milou en mai),dir: Louis Malle

Elenco: Miou-Miou, Michel Piccoli, Michel Duchaussoy

Sinopse: A mãe de Milou morre no momento em que os distúrbios e greves estão varrendo o país, no contexto de Maio de 1968. Os eventos interferem nos planos de um funeral e perturbam a família e um motorista de caminhão abandonado. O filme combina elementos de comentários sociais e interpessoais com farsa.

França / Itália, 1990. 10 anos. Leg Português


DIA 13/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

O DINHEIRO (L’argent), dir: Robert Bresson

Elenco: Christian Patey, Vincent Risterucci, Sylvie Van den Elsen

Sinopse: Uma nota falsa de 500 francos circula pelas caixas, bolsos e mãos de várias pessoas até encontrar Yvon, um jovem trabalhador. Por conta dela ele é demitido, acaba preso e tem a vida profundamente modificada.

França / Suíça, 1983. 14 anos. Leg Português


DIA 14/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

Z (Z), dir: Costa Gavras

Elenco: Yves Montand, Jean-Louis Trintignant, Irene Papas

Sinopse: O assassinato real de um político liberal, cometido como se fosse um acidente, é retratado no caso Lambrakis. Fato acontecido na Grécia no início da década de 1960, a investigação sobre a morte do político foi escandalosamente encoberta por uma rede de corrupção e ilegalidade na polícia e no exército.

França / Argelia, 1969. 16 anos. Leg Português


DIA 15/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

A MARQUESA D’O (Die Marquise von O…), dir: Eric Rohmer

Elenco: Edith Clever, Bruno Ganz, Otto Sander

Sinopse: A Marquesa d'O é uma viúva cujo pai comanda uma praça de guerra na Lombardia.Após a praça ser tomada pelos russos, os soldados se preparam para violentar a marquesa. Até que um tenente-coronel russo, o Conde F., a salva e a leva para uma ala do castelo que ainda não havia sido incendiada. É lá que o conde revela suas verdadeiras intenções com a marquesa. Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes.

Alemanha Ocidental / França, 1976. 10 anos. Leg Português


DIA 17/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

PARIS NOS PERTENCE (Paris nous appartient), dir: Jacques Rivette

Elenco: Betty Schneider, Giani Esposito, Françoise Prévost

Sinopse: Anne Goupil é estudante de literatura na Paris dos anos 1950 e se integra a um grupo de teatro que ensaia uma peça de Shakespeare. É levada por seu irmão mais velho, Pierre, para uma festa de amigos que tem como um dos convidados Philip Kaufman, um americano expatriado fugindo do Macartismo, e Gerard Lenz, acompanhado pela misteriosa Terry. A

principal discussão no evento envolve um possível suicídio de Juan, amigo dos jovens e ativista espanhol que havia recentemente terminado seu relacionamento com Terry.

França, 1961. 14 anos. Leg Português


DIA 18/12 – ESTAÇÃO NET RIO 4 – 16:10

ZAZIE NO METRÔ (Zazie dans le métro), dir: Louis Malle

Elenco: Catherine Demongeot, Philippe Noiret, Hubert Deschamps

Sinopse: Zazie é uma menina de 12 anos que vive no interior da França com a mãe, que a manda para Paris por dois dias, podendo assim ficar sozinha com o namorado. Zazie fica hospedada na casa de um tio, uma figura um tanto quanto excêntrica. Ela tem o grande sonho de andar de metrô, só que para sua infelicidade, ele está em greve. A travessa menina resolve então conhecer Paris por conta própria, e se mete no meio do caos da cidade, conhecendo os tipos mais parisienses possíveis.

França, 1960. L anos. Leg Português


SERVIÇO

Mostra e exposição Cahiers du Cinéma – Mon Amour 70 Anos

Inaugura dia 10/12/2021

Exposição: Estação Net Rio

Totalmente gratuita

Mostra (programação Festival do Rio)

A programação apresenta os filmes durante o Festival do Rio sempre às 16h10

Ingressos: R$ 32,00 (inteira) / R$ 16,00 (meia)

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *