Tubarão

Epistemologia Popular

Por João Lanari Bo

Netflix

Blockbuster: palavra que indica filme popular e elevado retorno financeiro:  “block” significa quarteirão e o verbo “bust” significa quebrar. Era também o nome da maior locadora de vídeo do mundo, quebrada pela concorrência da Netflix. “Tubarão”, realizado em 1975 por Steven Spielberg, é considerado junto com “Guerra nas Estrelas” como o precursor de todos os precursores do blockbuster moderno. A combinação esperta de vários ingredientes o torna superior aos thrillers convencionais: uma fita feita para ser consumida no verão, durante as férias dos estudantes norte-americanos, termina por se revelar um Raio X da epistemologia popular desse país que nos inunda com um fluxo logorreico de imagens, os Estados Unidos. Como isto foi acontecer? O que é epistemologia popular? As ideias desse jovem judeu de 26 anos, Steven Spielberg, deram certo e ele se tornou, depois dessa produção acidentada, mas bem-sucedida, o Midas do audiovisual: tudo o que toca, vira ouro.

Para começar, um ponto exaustivamente repetido pelos críticos: “Tubarão” alçou a manipulação do público a um nível inédito; é uma aula de cinema de suspense, nunca repetitivo em seus efeitos e, portanto, nunca previsível. Os sucessivos ataques do tubarão são conduzidos para gerar reações distintas. Logo no início, uma brutalidade invisível abocanha a jovem despreocupada no banho de mar noturno, induzindo a um voyeurismo psicótico na audiência: em seguida, pistas falsas na praia, que atormentam o xerife Brody (Roy Scheider), sutilmente sugerindo que nem tudo é o que parece; e chegando à espetacular devoração de Quint (Robert Shaw), cena de proporções bíblicas e freudianas, que anuncia o terço final do filme, perseguição e aniquilamento da besta marinha. A manipulação dos estados cognitivos e emocionais da audiência não torna a fruição da narrativa uma experiência devastadora e miserável: Spielberg emociona o público em vez de vencê-lo pelo cansaço dos sustos. A precisão dos cortes gera um ritmo musical na montagem: o tema musical, em si mesmo, funciona como senha do perigo que se aproxima. Utilizando um padrão alternado simples de duas notas, John Williams, o compositor, descreveu o tema como algo “que te oprime, assim como um tubarão faria, instintivo, implacável, imparável”.

Mal resumindo, podemos supor que experimentar uma emoção como medo ou raiva requerem: (1) que você tenha um certo tipo de crença, por exemplo que você está em perigo ou que foi injustiçado; e (2) que você tem certos valores ou desejos correspondentes, por exemplo, que você deseja ficar fora do perigo para que possa sobreviver. Claro, para captar nossa atenção emocional-cognitiva um filme deve ter atores convincentes, enredo envolvente, trilha sonora empolgante e até alguns efeitos especiais condizentes. Uma vez fisgados, passamos a especular sobre os destinos dos personagens, guiados por uma percepção a priori dos agentes envolvidos na trama, cujo objetivo último é destruir a ameaça do tubarão: Quint, o cético pescador, representa nessa jornada o sujeito do saber empírico, aquele que acumulou seu conhecimento pelo embate contínuo na imensidão obscura do oceano; Matt, o oceanógrafo otimista, representa o sujeito do saber instituído, universitário, que obteve seu conhecimento pela análise e elaboração dos dados provenientes da mesma imensidão; e finalmente Brody, o xerife da pacata cidade de praia, representa o senso comum, o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues – qualquer espectador pode se identificar com Brody porque ele se esforça para fazer a coisa certa.

Tubarão” narra o confronto epistemológico entre essas três subjetividades: quem, afinal, detém o conhecimento do objeto, o temível tubarão? E quem vai vencê-lo? O conhecimento se dá como relação entre o sujeito e o objeto, entre um ser cognoscente e um objeto cognoscível, logo estamos diante de uma epistemologia popular: quem ganha nessa parada é o senso comum, aquele que diz respeito, afinal de contas, a todos nós…que temos a crença do perigo, e o desejo de ficar fora dele. Tabulando um hábil esquema de construção narrativa, o filme de Spielberg consegue mapear uma ansiedade latente na percepção social de fenômenos incomensuráveis e distantes, como o tubarão e sua potência devoradora: não é difícil perceber a mesma estratégia na sua próxima produção, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, de 1977. Neste, a alteridade é o mundo fantástico dos seres alienígenas, outro mito recorrente do cinema que o diretor recalibrou para o blockbuster moderno.

“Começamos o filme sem roteiro, sem elenco e sem tubarão”, disse Richard Dreyfuss, o oceanógrafo Matt, sobre a produção problemática do filme. A mitologia que se criou para contar a gestação do filme combina improvisação e grande capital em uma escala surpreendente. No fim, para alívio geral, Brody explode em pedaços o tubarão.

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