Trying | S01

Sobre a vida como ela é

Por Fabricio Duque

Apple TV+

Alguém poderia explicar a força-potência dos seriados britânicos? Porque eu não consigo. Após testemunhar a excelência da série Fleabag”, criada, escrita, atuada por Phoebe Waller-Bridge e vencedora, merecidamente, de muitos prêmios, incluindo o Globo de Ouro, nós, que pensávamos ser quase impossível uma nova maestria sair durante pouco tempo, fomos surpreendidos com a contagiante e envolvente “Trying”, nova série da Apple TV+ que estreou no primeiro dia do mês de maio deste ano, “cancelado” pela pandemia do Coronavírus.

“Trying”, que, em um primeiro momento, pode ter a aparência de uma fofa comédia romântica, não é uma experiência fácil de engolir. Tudo porque nós somos convidados a participar da vida real, com emoção dosada e um típico e espirituoso humor inglês, constrangedor, ultra-verdadeiro (“sempre digo o que eu penso”) e ingênuo (ao mesmo tempo). Embarcamos na história  de Nikki e Jason, que, impossibilitados de ter um filho, resolvem iniciar o processo de adoção. Em Londres e “pagando aluguel”. 

Eles, disfuncionais (aos olhos dos outros), representam exatamente o que as pessoas são em essência (na rua fingem comer quinoa, mas em casa “devoram” um pacote de Doritos em frente a TV). Quando digo sobre a dificuldade de engolir a série, refiro-me ao exacerbado realismo (de viva e orgânica espontaneidade), mascarado de ficção, que confronta nossas emoções e nos faz, literalmente, chorar, e criar uma tensão permanente, esperando que alguma ação tenha uma reação inesperada, ainda sabendo que o acaso uma hora os ajudará. Para que possam ser aceitos no programa do Governo, o casal é obrigado a ser “forte e resiliente”, a “crescer e amadurecer”, deixando de ser “crianças” e pensar como adultos.

Essa confusão é a condução da narrativa. Com amigos complicados (e reais), famílias problemáticas (e reais) e vidas caóticas (e reais). Tudo é real, só que em ficção. E isso causa um estranhamento. Um jogo de cuidado protetor e adoração invejosa. Talvez o fato de que o roteiro use o que os ingleses já fazem no dia-a-dia, que é reclamar da própria vida com o humor de “velhos ranzinzas”, auto-sabotado e de cumplicidade vitimada (como defesa de expor o que são, sendo o que já sabem o que são, só que com dúvida projetada da resposta pronta – Ufa! Eu sei! Não é fácil traduzir, mas estou tentando), ajude na construção da naturalidade impressa. É como se cada um fosse fiel às idiossincrasias, mas com o esperado julgamento da verdade do outro. 

“Trying” é sobre a vida. Nua, crua e desventurada. Sobre as imperfeições humanas. Sobre as consequências de se adaptar em um moralmente ambiente politicamente correto. Só que aqui, isso é quebrado com o oposto do pensamento americano, confrontando o medo e aceitando as crises de ansiedade. Como ogros bonitinhos e/ou Trolls em ambientes evolucionistas.

Esta é, acima de tudo, uma série sobre o amor e sobre como lidar com as adversidades do relacionamento. De que cada dia é uma aventura para manter a chama do querer flamejante. O que nos aproxima intimamente dos dois protagonistas é a química precisa, passional e pululante dos atores que os interpreta.  Rafe Spall e Esther Smith. Ele pode ser lembrado por seu trabalho como o escritor em “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee, Potter em “Black Mirror”, e Tommy Chapman em “Luta Por Justiça”, de Destin Daniel Cretton. Ela, do seriado “Skins” e também em “Black Mirror” (no mesmo episódio “White Christmas”).

“Trying”, criada por Andy Wolton (da minissérie “The Great Travel Hack”), é assim. Desperta o sensação metafísica da vida.  Sobre escolhas e criar filhos. Sobre liberdades e abrir mão. Sobre recomeços. Sobre o Tinder na terceira idade.  Sobre exemplos de vivências subjetivas para ilustrar o entendimento (por uma inocência nada sutil, quase infantilizada). A primeira temporada, com oito episódios de trinta minutos, dirigida, com controle absoluto, por Jim O’Hanlon (dos seriados “Shameless”, “Emma”, “A Touch of Cloth”) pulsa animação, expressão e movimento, em constância análise por uma terapia de choque para o agora. Uma obra de instantes, como a cena final da avaliação de aptidão e quando os dois jogam celulares no lago.

É uma sucessão de esquetes interpostas na linearidade descompassada e desestruturada da própria existência. Que insere filosofias coloquiais quando se menos espera. Observa com medição dos prós e dos contras, até porque sabem que ninguém é perfeito. Que mandam mensagens às duas da manhã e também são “irritantes” (assumem sem sentimentalismo sensibilizado algum). Nem um “Brad Pitt” (“Ou é um racista bonito ou é um cara incrível em coma”) e se dá conta que “precisa ceder”. “As coisas ainda podem ser boas. Mesmo sem planejar”, finaliza, e eu entre um misto de emoções, choro, suspiro e rio ao mesmo tempo e tenho a certeza absoluta que esta é sim a melhor estreia dos últimos dias. Não Perca! Corra, assine a Apple TV+ e salte!

Trailer

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