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Três Dias que Mudaram Tudo

Nada será como antes

Por João Lanari Bo

Netflix

Três Dias que Mudaram Tudo

Três Dias que Mudaram Tudo”, realizada em 2023, é a minissérie da Netflix que revisita a segunda maior tragédia de centrais nucleares da história, depois de Chernobyl – o desastre de Fukushima Daiichi, ocorrido no dia 11 de março de 2011, causado pelo derretimento de três dos seis reatores nucleares da usina. Nesse dia um terremoto com epicentro perto da costa japonesa desencadeou um tsunami de proporções bíblicas, gerando ondas de 13 a 15 metros que chegaram aproximadamente 50 minutos depois do tremor e inundaram os porões dos prédios de turbinas da usina, desativando os geradores de emergência. A central começou a liberar quantidades significativas de material radioativo a partir do dia 12, contaminando rapidamente o entorno. Devido à falta de arrefecimento pela água, os reatores, mesmo desativados, aqueceram e levaram a uma fusão parcial do núcleo nos reatores 1, 2 e 3; explosões de hidrogênio destruíram o revestimento superior dos edifícios; e múltiplos incêndios eclodiram no reator 4. Receios de vazamentos de radiação forçaram uma evacuação de 20 km de raio ao redor da planta, incluindo a população das cidades próximas. Desastres nucleares são de longa duração: até hoje, cerca de 30 mil pessoas não puderam retornar para suas casas. Um programa contínuo de limpeza intensiva para descontaminar as áreas afetadas e desmantelar a usina levará de 30 a 40 anos.

A descrição dos eventos é fria e objetiva: como representar o que se passou, pensando numa audiência binge-watching, que assiste compulsivamente ou mesmo descontroladamente, as séries, um episódio atrás do outro sem parar? “Três Dias que Mudaram Tudo” propõe uma maratona árida e minuciosa, recheada de medições científicas e calculadamente minimalista, mas – para o bem e para o mal – carregada de emoções e dramas. Para espectadores dos formatos modernos consagrados pelo streaming, a expressão “baseado em eventos reais” fornece uma chancela de (aparente) realidade, mas não elimina manipulações e licenças dramáticas que visam conquistar nossa combalida razão espectatorial. Diante do que se passou em Fukushima, entretanto – o Japão, recorde-se, é o único país do mundo que experimentou ataques de bombas atômicas – os realizadores Masaki Nishiura e Hideo Nakata optaram por um tratamento que vai além do true event para narrar os fatos. Apresentando encenações dramatizadas de eventos reais, híbrido de documentário e drama – mesmo que permitindo algum grau de ficção em detalhes periféricos, como quando há lacunas no registro histórico – optaram por um docudrama. Uma opção rigorosa, em particular para um diretor como Hideo Nakata, um dos nomes mais conhecidos do ciclo J-horror que varreu o mundo há duas décadas (basta citar “Ring: O Chamado”, de 1998).

O ponto forte da minissérie em termos de personagem é Masao Yoshida, gerente-geral da usina, vivido na tela pelo experiente e competente Koji Yakusho. Ele é o âncora da narrativa, que dialoga com todos, do Primeiro-Ministro aos funcionários, internos e externos. Logo no começo ele senta-se à frente de um comitê e declama: 11 de março de 2011. O intervalo de dias que começou nessa data … para mim, não, para o Japão como nação, o que poderia ser? Sua empenhada gestão da crise faz dele a autoridade moral do episódio. Era um dia normal, mas um grande terremoto sacudiu as estruturas, algo que ocorre no Japão e para o qual uma eficaz engenharia de choque foi desenvolvida. Métodos e procedimentos são exaustivamente treinados para situações como essa. Embora a energia da usina tenha sido cortada devido ao terremoto, os geradores de reserva a diesel estavam ligados para manter os reatores resfriados. Não obstante, o tsunami – recriado de forma até modesta, em comparação com outras produções que exploraram o cataclisma – derrubou tudo isso e a possibilidade de um nuclear meltdown apareceu cada vez mais plausível. Em um certo momento, Yoshida admite:

Chegamos a uma situação em que o combustível (nuclear) estava realmente exposto, mas não podíamos baixar a pressão ou bombear a água, então, realmente, essa é a parte mais difícil de lembrar. Pensei então, embora não pela primeira vez, que íamos morrer. Achei que realmente íamos morrer.

Baseado nos relatórios sobre o acidente, em especial no Yoshida Testimony, quatrocentas páginas que descrevem com obsessiva precisão as decisões e hesitações que afetaram os acontecimentos, “Três Dias que Mudaram Tudo” fornece um retrato acurado da tragédia, se é que é possível utilizar um termo como “acurado” diante de uma tal complexidade. A questão das responsabilidades permanece em aberto: em 5 de julho de 2012, uma Comissão Independente constatou que as causas do acidente eram previsíveis e que o operador da usina, a Tokyo Electric Power Company (TEPCO), não cumpriu os requisitos básicos de segurança. Masao Yoshida tornou-se personagem de história em quadrinhos na França e seu testemunho foi lido e analisado em diversos países. Um dos heróis que permaneceu em seu posto após o alarme atômico soar, morreu dois anos depois da catástrofe, aos 58 anos, vítima de um câncer.

3 Nota do Crítico 5 1

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