Tom Medina

Cavalo dado não se olha os dentes

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2021

Exibido na mostra Cinéma de la Plage do Festival de Cannes 2021, “Tom Medina” é uma barroca crônica gipsy, conduzido por um fábula Bálcãs em um encenado teatro, propositalmente amador e de improvisos editados. Dirigido pelo francês Tony Gatlif (de “O Estrangeiro Louco”, “TranSylvania”), seu mais recente longa-metragem apresenta Tom (o ator David Murgia, de “O Novíssimo Testamento”), uma alma boêmia e artística, que ainda que em liberdade condicional, mantém a prisão estrutural dentro de si. “Tom Medina” é sobre o confronto existencial da liberdade com a utopia. Seu encontro com o grande Ulisses pode ser uma metáfora literária de James Joyce, especialmente pela organicidade rural, descrevendo com naturalidade aspectos da fisiologia humana.

“Tom Medina” oferece a simplicidade de apenas viver e que a sujeira faz parte do processo de transformação. Ulisses também adapta a odisseia de Homero, condenado, a uma viagem aventurosa pelo mundo. Neste caso, Tom substitui o personagem romanceado e se permite sonhar em se tornar uma boa pessoa. Assim como no livro, este filme busca mostrar o microcosmo de toda a experiência humana. Nosso protagonista sente isso na alma e chega à conclusão de que o ser, realisticamente, não muda. Pelo contrário, causa frustração pela hostilidade lançada em sua direção geral, que não mostra sinais de diminuir. Tom é fraco e forte, cauteloso e precipitado, herói e covarde. Múltiplos aspectos de cada ser humano e de toda a humanidade.

O longa-metragem conduz-se por uma atmosfera amadora, de contornos caseiros. De atores não profissionais. De encenar tipos, arquétipos e improvisos, como ensinar o francês. Para assim construir uma imersão participativa, entre o universo da tourada versus seu “estrangeiro revolucionário”. “Tom Medina” é estranho, desconexo, desestruturado, caótico e de humor surreal. Inicialmente. Nós sentimos um desconforto pelo tom quase Charlie “Carlitos” Chaplin. Quase de circo mambembe, que estimula o riso fácil pela piada pronto e óbvia. Um performático “comediante” em “caminho atrasado”, que reformula a música cigana com rock e que o que quer mesmo é estar integralmente em um teatro vivo. “Tom Medina” é um portal no tempo. Uma cápsula do passado vivenciada no presente, este, por sua vez, paradoxalmente atemporal. Um embate da aristocracia ruída versus o moderno já ultrapassado em uma vida rural (cavalos, ferraduras). O primitivo versus a coleta “ativista voluntária” de plásticos em um rio.  Tudo aqui está entre tempos, manias comportamentais e citações a Denis Diderot, filósofo francês precursor da filosofia anarquista durante o Iluminismo. Outra referência que se aplica ao nosso Tom, que observa o “bizarro”, interage sendo “doente da cabeça” e ri com os ventrículos.

“Tom Medina” acontece por livros, símbolos, fantasia, proteções divinas de Santa Sara e delírios de touros em neon. É o renascimento. Uma mutação. Uma readaptação ao novo ecossistema. Uma permissão (de “uma noite”) de se renomear como homem, antes “habitado por mistérios”. E não desaparecer pelo medo. A catarse de se permitir expor é sua última chance. Uma oportunidade para finalmente acalmar, amar e expurgar demônios e loucuras do passado não distante. Um perdão que não se pode deixar passar, porque “cavalo dado não se olha os dentes”. Ou uma árvore. Ou um animal (des)doutrinado.

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