Tom & Jerry: O Filme

As consequências do novo mundo

Por Fabricio Duque

A indústria cinematográfica norte-americana para funcionar precisa de uma produção em massa. Essa urgência em lançar novas obras é obrigada a diminuir prazos “para ontem”. Ideias, argumentos e roteiros muitas das vezes acontecem durante o processo de realização de um longa-metragem, mitigando o tempo de maturação de seus criadores. O cinema tornou-se um passatempo casual, moldado pela demanda do mimo: querer agora e logo. Assim, os filmes não passam mais por apuros técnicos e se comportam como capítulos diários de uma novela. “Tom & Jerry: O Filme” é um desses exemplos. Seu roteiro frágil advém de uma nova superficialidade crescente: a de que a sétima arte serve para “divertir”, “desligar o cérebro” e “usar o celular”, este visto que o tom palatável e condutor condiciona o olhar já adestrado dos clichês-fórmulas.

“Tom & Jerry: O Filme” é uma comédia de situações por esquetes. As desventuras de Tom e Jerry (famosos nos desenhos animados) chegam em Nova Iorque, cidade “inclusiva” que aceita os personagens fantasiosos. A narrativa, modernizada com elementos atuais (como a música “Walk On The Wild Side”, de Lou Reed, que ganha versão Rap e/ou pela cerimônia de casamento indiano), ressignifica  a moralidade de antes com os rótulos politicamente corretos do hoje em dia (como o respeito à identidade sexual de Jerry – que aqui pode ser o que preferir: um rato ou uma rata), com o hibridismo ficção-animação, aos moldes de “Uma Cilada Para Roger Rabbit”, de Robert Zemeckis. O roteiro, de Kevin Costello, baseado nos personagens criados por William Hanna e Joseph Barbera, para simplificar a absorção, também pulula o humor pastelão, piadas e ações são niveladas a uma inocência “pestinha” de crianças com rebeldia limitada, como referências ao “over” de “Star Trek”, por exemplo.

O Longa-metragem, dirigido por Tim Story (“Quarteto Fantástico”, “Pense como Eles”, “Uma Turma do Barulho”) e produzido por Chris DeFaria (“Uma Aventura Lego 2”, “Jogador Nº 1″, “Gravidade”), assumidamente uma versão Filme B, ainda que produzido pelo Warner Bros., também, infelizmente, pode “acabar” com a infância de quem viveu na era-auge das exibições de Tom e Jerry na televisão. Ainda que protegido pelo artifício fantasia da animação, nós, com os olhos já não mais ingênuos, conseguimos traduzir as personalidades desses “adoráveis” pet animados. Em “Tom & Jerry: O Filme”, todos os animais não são reais, permitindo que ilicitudes, crimes e violências sejam alimentadas com normalidade naturalizada. Jerry, por exemplo, é um caso cognitivo de psicopatia (por suas vinganças) e de viver no luxo, manipulando e colocando a culpa sempre nos outros. Tom já precisa sobreviver e aprender a ser um valentão, mas não passa de um vulnerável em lobotomia pela sociedade. Aqui, o instinto animal de raiva, fome e ciclo da natureza são transformando em sensibilidades. Um adestramento para se viver entre “humanos”.

Por falar em humanos, Kayla (interpretada pela atriz Chloë Grace Moretz) está mais para Jerry que para Tom. Com seu jeito de levar vantagem em tudo, ela, não sei como, convence de que o emprego deva ser seu. É aí que vive o constrangimento. Quando a facilidade do roteiro é tão explícita que nos questionamos o motivo da aprovação desta obra, unicamente por nos sentirmos ofendidos quanto a nossa inteligência. Sim. Nós críticos devemos nos colocar também na faixa etária destinada. Se o espectador for por esse caminho… Talvez. Mas vamos analisar. Com tantos referências pop adultos, será mesmo que um filme quer ser apenas infantil?

“Tom & Jerry: O Filme” é sobre o casamento do século. Sobre famosos. Sobre seres animados em cruéis-sádicas aventuras (para impor o poder). Sobre Tom está apaixonado. E cantando. Em um piano. Em versão Daft Punk romântica. O tom awkward do filme é aumentado ao nível máximo, gerando confusões em todos e mais situações “tortas na cara”, à moda de Charlie Chaplin de ser, só que mais estabanado, afoito, desengonçado e imaturo. E um desconforto pela performance do estereótipo. E o mais improvável acontece: os “inimigos-amigos” precisam trabalhar juntos e ficam “de queixo caído”. E assim, entre reviravoltas, novas perdas, descobertas, confrontos, ações justificadas pelo sentimental (música de condução emocional – e abandonos na chuva) e o “azarado” Tom que “sempre se ferra”, “Tom & Jerry: O Filme” é uma obra de auto-ajuda sobre não desistir e fazer de tudo para se reerguer. Contra o Jerry, que pode inofensivamente ser apenas um brincalhão-infantil, mas que na verdade é a raiz de todos os problemas. Concluindo, um longa-metragem que é um reflexo do ser humano (e quem sabe uma crítica às crianças, que hoje estão mais e mais mimadas em seus “reinos individuais”). Após tudo, a cumplicidade da violência tem o seu “final feliz” (sendo exatamente o que é, sem mudar). Sim, “eles só querem brincar” e ao destruir tudo, recebem apenas uma “cara feia” dos adultos reais. São as consequências do novo mundo.

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