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Tick, Tick…Boom!

A busca pela imortalidade e a luta contra o esquecimento

Por Bernardo Castro

Netflix

Tick, Tick…Boom!

“NOR dread nor hope attend A dying animal; A man awaits his end Dreading and hoping all; Many times he died, Many times rose again. A great man in his pride Confronting murderous men Casts derision upon Supersession of breath; He knows death to the bone – Man has created death.”, Death, W.B. Yeats.

Reza a lenda que Gilgamesh, quinto rei de Uzuk, era dois terços deus e um terço homem, estado no qual ainda lhe mantinha preso à condição de mortal e não o privava dos danos causados pelo passar dos anos. Em sua infinda busca pela imortalidade, o rei encontra Utnapishtim, o único sobrevivente do grande dilúvio. Por uma falha trágica ou infortúnio, Gilgamesh não consegue cumprir a missão dada por Utnapishtim, sendo estorvado de quaisquer chances existentes de alcançar a imortalidade e tendo que aceitar o fardo de sua própria mortandade. O tempo também é um inimigo na vida de Jonathan Larsson. O filme consegue traduzir muito bem a corrida contra o tempo e a agonia que o passar dos dias traz para o nosso protagonista. Em “Tick, Tick… Boom!”, somos apresentados à trajetória de Jonathan, um prolífico compositor de musicais prestes a completar 30 anos. Apesar de seu incontestável talento, ele chega à esta idade sem obter o sucesso que ele aspira, desencadeando em profundas reflexões, crises existenciais, colocando contra a parede as escolhas feitas até o momento e lutando contra a pressão para abdicar de seu sonho e aderir à uma carreira estável.

O ritmo ditado pelo filme passa muito bem a previamente citada sensação de corrida contra o cronômetro. A tensão é do tempo passando é sentida pelo espectador conforme as adversidades vão surgindo e, por conseguinte, obstruindo o caminho para o sucesso – o nome do filme, inclusive, alude à ideia de uma granada prestes a explodir. A metalinguagem chama a atenção: um filme com estética musical beirando o onirismo interpolado com cenas de um musical real – em outros termos, um musical dentro de um musical sobre musicais. Por mais denso e profundo que possa ser o enredo, ele é contado com a leveza e os exageros dramáticos dignos de uma peça da Broadway. Os números musicais também são muito consistentes. Canções não muito complexas que, no entanto, trazem consigo o melhor das composições no estilo Broadway com um toque mais moderno advindo do uso de instrumentos como guitarra, violão, baixo e bateria – comuns na música popular e no rock n’ roll e que viriam a inspirar também a sua magnum opus “Rent”.

É válido ressaltar que a maioria das músicas foram tiradas da peça off-Broadway e “monólogo rock autobiográfico” que dá nome ao longa “Tick, Tick… Boom!”. As atuações não decepcionam. Pode não agradar tanto aos espectadores no geral os excessos nos gestos caricatos de Andrew Garfield – que podem ser observados em outros filmes inclusive, mas os exageros vieram a calhar ao personificar o dramaturgo e na proposta de musical. Mesmo por trás de toda teatralidade, o filme ainda é eficaz ao retratar o confronto de um jovem adulto com a efemeridade da vida. Situado em uma nova York “noventista”, ele vê pessoas a seu redor sendo acometidas pela epidemia de AIDS, sorvendo o amargor da verdade inexorável sobre a vida e tendo que aceitar o irrevogável destino no qual a raça humana foi condenada. A áurea lúgubre trazida pelas sucessivas mortes persegue o nosso herói durante as quase duas horas de duração.

Com o tempo, Jonathan finalmente consegue alçar voo, porém chega muito perto do Sol e, como Ícaro, cai. Na véspera da estreia do seu tão aclamado musical Rent!, Jonathan Larsson veio a óbito aos seus 35 anos em decorrência de uma dissecação aórtica, provavelmente consequência da síndrome de Marfan. No fim, tanto Jonathan quanto Gilgamesh alcançam o que tanto almejavam: a imortalidade. Por mais que seu tempo na terra tenha sido escasso, seu legado transcendeu a sua própria existência enquanto reles mortais. Deixando as reflexões ensaísticas de lado, “Tick, Tick… Boom!” é uma boa pedida para os aficionados por Hamilton ou até mesmo fãs de musicais, uma vez que é dirigido pelo próprio Lin-Manuel Miranda. Ele pode gerar uma certa estranheza por parte daqueles que não gostam da linguagem de musical, mas no mínimo o longa consegue garantir o entretenimento do público no geral e inova na representação cinematográfica de um musical.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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