Theodorico, O Imperador do Sertão

Tacanho e sem brio, o Brasil convencido

Por Vitor Velloso

Durante o CineOP 2020

Eduardo Coutinho, mestre, gênio máximo do documentário brasileiro e mundial, transforma a linguagem em puro discurso dialético. O personagem que dá título à obra “Theodorico, O imperador do Sertão”, se transforma na arma contra as próprias falas. Tal como Glauber em “Maranhão 66” utiliza-se da imagem para confrontar Sarney, Coutinho introduz Theodorico como entrevistador, filmando o rosto do povo coagido ao voto.

As heranças do Coronelismo, viva como um parasita na cultura brasileira, são expostas de suas entranhas aqui, comportando a forma como estrutura dessa dialética que se transforma em diretriz da realidade x as falas do protagonista. Tudo vai se esvaindo conforme a progressão do documentário se dá, as tentativas múltiplas de permanência de um moralismo, dogmatismo e pragmatismo político vão se esvaindo na montagem. O cineasta consegue desconstruir a imagem do ex-deputado federal e expor o caráter coercitivo ali presente, nada implícito. 

E ainda que “Theodorico, O imperador do Sertão” possa ser relacionado com um jornalismo mais tradicional, fica claro aqui que a intenção de Coutinho possui semelhanças com diversas obras de João Batista de Andrade. Não à toa, “Wilsinho Galileia” também está sendo exibido na 15 ª CineOP, pois o caráter precário, de um subdesenvolvimento que permite as fragilidades de uma sociedade, se dão através desse processo de dependência financeira e aqui podemos ir além na teoria, trabalhando diretamente com uma dependência política que se encontra naquilo que há de mais paradoxo na Constituição e nas normas sociais, ainda vigentes no Brasil. As concretudes de um âmbito “democrático” que são amplamente modificadas, à aberrações, de compra de votos. 

Ou acreditamos que a filantropia, contemporânea inclusive, é algo diferente? Nildo Ouriques já fala disso há tempos, de como parte do governo brasileiro se utiliza destas propostas para que se mantenha uma base popular de voto e uma tentativa de se consolidar no topo dessa cadeia alimentar política, onde vence a diretriz mais pragmática e solúvel possível. 

Coutinho era um cineasta que compreendia a questão primitiva do subdesenvolvimento como poucos, articula em torno dela um tom precário da própria forma. “Boca de Lixo” é um exemplo explícito disso. O mestre consegue de maneira irrevogável trabalhar nosso pensamento acerca da linguagem cinematográfica, do jornalismo e de Brasil, como poucos. 

“Theodorico, O imperador do Sertão” é o retrato fidedigno de uma consumação subalterna dessa política local, ampliada ao nacional. Sem graves apelos políticos, apenas utilizando da própria necessidade de coerção do protagonista, Coutinho dobra, enverga e quebra o discurso daquele, que possui similaridades tamanhas com diversos outras gangrenas políticas no Brasil. 

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