The Neighbors’ Window

A Grama Menos Verde

Por Jorge Cruz

“The Neighbors’ Window” parece um curta-metragem com perfil bem mais adequado ao que a Academia se propõe a premiar, dentre os indicados ao Oscar de 2020 assistidos até agora pelo Vertentes do Cinema. O diretor e roteirista Marshall Curry (que disponibilizou oficialmente no Vimeo de sua produtora o filme, que poderá ser assistido ao final da crítica), além de norte-americano, possui experiência e quilometragem pelos tapetes vermelhos. Esta é sua quarta indicação, sendo a última no ano passado, com o impressionante “Uma Noite no Madison Square Garden”. Em sua obra anterior, Curry resgata arquivos de um encontro de nazistas nos Estados Unidos no ano de 1939, em um dos mais famosos palcos da América. Nessa nova empreitada, ele parte para o ficcional, comprovando a versatilidade da carreira (até o momento ele participou de dez curtas-metragem, sendo sete documentários e três de ficção).

Podemos encaixar essa produção em um tradicional “filme de apartamento”. A história é focada na figura de Alli (Maria Dizzia), mulher de meia-idade, mãe de três crianças, que se sente sobrecarregada e cansada. Uma noite, enquanto agradecia aos céus o fato de todos os filhos estarem dormindo, tenta manter a sanidade conversando com o marido Jacob (Greg Keller). Ao olharem para a janela do prédio vizinho, um casal começa a praticar um sexo quase-selvagem, na intensidade que eles, sem tentar esconder, não fazem há muito tempo.

Esse voyeurismo forçado terá uma consequência bem mais destruidora para a protagonista. Como se o caldo finalmente entornasse, Alli sente o abalo do desprestígio do companheiro, bem menos disposto a dividir as tarefas conjugais e parentais. O sofrimento da classe média, entretanto, sempre vem em um caldeirão temperado com raiva, ironia e deboche. O roteiro de Curry tenta trazer um pouco desses elementos nos diálogos rasgados de “The Neighbors’ Window”. A direção usa bem o confinamento do apartamento. Não com o mesmo brilhantismo com o qual o espanhol Rodrgo Sorogoyen apresentou “Madre”, curta-metragem em plano-sequência indicado no Oscar 2019 na mesma categoria. Aqui a câmera é tão circulante quanto, porém menos sufocadora.

Até porque a apreensão e o abalo de Alli são mais internalizados, posto que menos urgentes. Partindo dessas reflexões sobre a vida em família, Marshall Curry trata em sua história não apenas da obsessão pela grama do vizinho que parece mais verde, mas por um dos grandes males atuais: os relacionamentos projetados e as frustração gerada por algo, obviamente, inatingível. Apesar de simplista, transformando a parte final em um drama de encontro – fora das paredes da casa – há uma grande força na mensagem. “The Neighbors’ Window” consegue viajar pelas emoções em seu clímax silencioso e acaba por ser um boa lição sobre empatia.

Trailer

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    acabei de ver o filme no Youtube, muito bom, emocionante. parabens ao site por abordar curtas, pois são menos visados na midia, parabens por promoverem cultura, excelente critica

    • Jorge Cruz

      Obrigado, Vitor! A ideia é fazer isso com todos os curtas-metragens indicados, na medida em que eles forem disponibilizados. Agradecemos pelo elogio, volte sempre!!

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