The Morning Show | T01

A América em Terapia do Caos

Por Fabricio Duque

Apple TV+

Com o sucesso dos dispositivos midiáticos de streaming, é lógico afirmar que grandes corporações também queiram ter sua fatia de mercado. Essa concorrência pode seja positiva, se analisarmos a oferta de plurais opções, mas também uma viagem sem volta ao vício de se maratonar séries. A indústria bilionária da vez é a Apple, que disputa produções originais com a Netflix e Amazon, e que lançou sua plataforma Apple TV+ com a estreia de “The Morning Show” em dez episódios de uma hora.

“The Morning Show” é uma série americana, inspirada no livro “Top of the Morning: Inside the Cutthroat World of Morning TV” do jornalista Brian Stelter, que discute questões comportamentais de condutas inapropriadas, aprofundando o discurso da “cultura do silêncio”, expressão que versa sobre os assédios sexuais no ambiente de trabalho. Nós precisamos levar em conta que o que assistimos é uma enérgica propaganda do movimento #metoo (de mulheres contra o ambiente tóxico machista dos crimes sexuais). Ainda que uma obra de ficção. Sobre um programa da manhã, que precisa ser leve e tratar “feridas” com abordagem mais superficial e sempre com mensagem-final feliz. Não vamos aborrecer a América, não é mesmo? A realidade é pesada demais para ser discutida em uma rede jornalística. Vamos simplificar e alienar espectadores por um período. Correto, produção?

Sim, é, e até pode ser um complemento ao filme “O Escândalo”, de Jay Roach, que figura entre os indicados às principais categorias das premiações deste ano, tudo por apresentar uma denúncia contra os poderosos produtores e a permissividade da própria equipe, em especial foco a Harvey Weinstein (que pediu desculpas na época e disse que “nos anos sessenta e setenta, as regras eram diferentes”) e a necessidade de acordar o empoderamento feminino. E ser “Stronger”, como na música da Kelly Clarkson, a queridinha da América, que venceu o American Idol.

“The Morning Show” é acima de tudo um produto crítico de entretenimento. Que caminha como uma parasita (pela “teoria do caos” completo para se reinventar – destruir para reconstruir), tentando semear dúvidas no conservadorismo, que adula a família, mas não está preparado a sentir humanidade, visto que a sociedade é construída por indivíduos reais, dotados de emoções, fragilidades, vícios e pecados recorrentes. É uma “escolha de Sofia” da Apple. Ao mesmo tempo que busca a liberalidade e o conceito utópico de enaltecer a pessoalidade, também precisa lidar com o mercado, instável e influenciado por qualquer mínimo deslize de qualquer “cria” do Show Business. A vinheta de abertura pode resumir toda a série com suas bolas que crescem, transmutam-se, caem e mudam de cores, embaladas com a música “Nemesis”, de Benjamin Clementine.

A América é confrontada pela própria América. Com suas moralidades incompreendidas de regras que seguem padrões de conduta. É tudo sobre a aparência. Sobre o que os outros irão pensar. Sim, chega a dar pena destes “soldados chaplinianos” a espera de novas missões, enganados a cerca de suas próprias liberdades e seus livre arbítrios. Cada um deles procura a fantasia da realidade. Um Eldorado imaginário. Impulsionados pela perpetuação de suas características típicas, a dramatização excessiva e uma pululante sensibilidade ultra sentimental.

Em “The Morning Show”, quem está em análise lacaniana é a própria América, representada por New York, que se preocupa com as consequências de um divórcio e/ou com a confissão de um aborto ao vivo em um programa matinal. Como foi dito, a série cozinha até adentrar nas polêmicas. Sutil, para não perder audiência. É protagonizada por duas atrizes também “queridinhas”. Jennifer Aniston, do seriado “Friends”, um dos mais vistos da História dos Estados Unidos, e Reese Witherspoon (de “Legalmente Loira” e “Big Little Lies”), que por um tempo, deixou de ser amada e voltou com força total. As duas também são produtoras e receberam dois milhões de dólares por episódio.

O que faz “The Morning Show” ser interessante é seu roteiro ágil. Sua narrativa busca verdade diegética, logicamente respeitando a essência da zona de conforto, como os constantes alívios sarcásticos, câmeras lentas de suspender a ação, morder e assoprar moralidades nas falas, o nacionalismo americano, a etiqueta social, a competitividade aceitada e estimulada, os cortes rápidos, as reviravoltas… Está tudo ali. Redondo.

Criada por Jay Carson (roteirista de “O Favorito” e consultor em “House of Cards”) e Kerry Ehrin (roteirista de “A Gata e o Rato” e “Bates Motel”), a série, indicada ao Globo de Ouro 2020, é um retrato do povo americano. Steve Carrel e Billy Crudup, também se entregam completamente a seus papéis, o primeiro mais e o segundo envereda pelo minimalismo mais orgânico, tanto que este foi indicado ao Critic’s Choice Awards 2020, o prêmio dos críticos americanos.

“The Morning Show” também pode ser analisada como uma plataforma de luta. De marcação de território. De mulheres que toda a vida apenas “serviram” os homens em suas vontades mais primitivas. E tudo sem poder de voto. O discurso de Michelle Williams no Globo de Ouro deste ano prova que a batalha está somente começando. Que “elas precisam votar melhor e escolher quem realmente as representa”.

Aqui, com protocolo esperado é quebrado o que nunca podia ser mencionado, de padrão liberal, que dosa o conservadorismo com ativismo humanitário, contra o sistema e o capitalismo, o seriado consegue atravessar a seara da diversão entretenimento e se firmar como um produto de relevância e credibilidade política. E nas “dicas” relacionados no canto abaixo da Apple TV+, temos os filmes “Livre”, “Guerra dos Sexos”, “Mulheres do Século 20”, “Nos Bastidores da Fama”, “Rede de Intrigas”. Ame ou odeie, esta é a forma como Americanos fazem televisão, sua novela.

Trailer

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