The Lodge

Terror empacotado

Por Pedro Guedes

Durante o Festival do Rio 2019

“The Lodge” é o que “Hereditário” seria caso não fizesse a menor ideia de como administrar suas próprias ambições temáticas e ainda importasse meia dúzia de conceitos religiosos (em particular, cristãos) de algum filme de terror genérico – e o fato de usar constantemente maquetes com o propósito de refletir a pequenez dos personagens diante dos cenários ao seu redor é um recurso que não só foi usado naquele (ótimo) longa-metragem de Ari Aster como em um monte de outras produções anteriores. Se somarmos isto ao fato de ser mais um daqueles filmes de terror que confundem “tempo” com “construção de tensão” (prolongando irremediavelmente a duração de cada plano como se isto significasse algo além de encheção de linguiça), a decepção torna-se ainda maior.

Dirigido pelos austríacos Severin Fiala e Veronika Franz (dupla também responsável por “Boa Noite, Mamãe“), “The Lodge” nos apresenta Grace (Riley Keough), que, prestes a se tornar madrasta de duas crianças que a detestam, é chamada para uma viagem de férias com o noivo e com os tais filhos. Assim, ela encara o passeio como uma oportunidade de se aproximar das crianças, mas também como uma possibilidade de acentuar a antipatia destas e, consequentemente, piorar a situação. No entanto, quando chegam ao casarão no qual ficarão hospedados ao longo das férias, Grace, o namorado e os pequenos começam a testemunhar um monte de situações, no mínimo, estranhas, muito provavelmente causadas por eventos sobrenaturais – e Grace, em especial, é a que mais sofrerá nas mãos da criatura metafísica que aos poucos começa a tomar conta do local.

Não é uma premissa original, de fato, mas poderia funcionar muito bem caso a narrativa e, principalmente, a direção tivessem alguma noção de seu objetivo – e a proposta de trazer uma série de relações e conflitos extremamente humanos (crianças tendo que se habituar à madrasta; a noiva tendo que se acostumar à nova vida; o namorado tendo que assumir algum papel no meio disso tudo; etc) como centro de uma obra voltada ao terror é bastante promissora, já que nada pode ser mais assustador do que os piores horrores da realidade. Infelizmente, “The Lodge” não consegue extrair muito de sua premissa, soando como uma obra que não sabe ao certo para onde deseja ir e atirando simbolismos religiosos, a ideia de “culpa católica” e referências visuais à mitologia cristã de forma quase aleatória. A impressão que fica, por sinal, é a de que o filme poderia se dar muito melhor se escolhesse um único foco narrativo/temático e se concentrasse somente nas relações mais mundanas, como a da noiva com os filhos do namorado.

Como se não bastasse, a direção de Severin Fiala e Veronika Franz fracassa miseravelmente na construção da atmosfera de terror: investindo em um ritmo pausado e quase contemplativo que busca provocar o incômodo através justamente da repetição (que poderia funcionar bem; como havia funcionado em centenas de outras produções), a dupla não parece compreender que, para manter o espectador tenso, é importante que algo além da pura e simples duração extensiva dos planos o deixe tenso – se for uma questão de apenas esticar os planos (e as cenas, em geral) ao máximo possível, o único efeito que será surtido será… o de tédio absoluto. E não é surpresa, portanto, que, quando chega o terceiro ato, as ações retratadas na tela soam quase como uma tentativa de compensar o espectador pela chatice testemunhada na hora e meia que as antecederam, falhando em soar impactantes ou mesmo surpreendentes. Aliás, é sempre um péssimo sinal quando chegamos ao desfecho de um filme e a sensação que temos é a de que este se recusa a terminar.

Chato, aborrecido e tematicamente zoneado, “The Lodge” ao menos traz Riley Keough (“Mad Max: Estrada da Fúria“, “Logan Lucky“, “Under the Silver Lake“) em uma performance central que busca conferir alguma vida ou dinamismo à personagem e, em parte, à narrativa, saindo-se particularmente bem ao ilustrar a insatisfação, o desânimo e até uma leve soberba por parte de Grace. Infelizmente, o filme ao redor da atuação de Keough é problemático e desestruturado demais para ser salvo somente por ela. E, se não chega a ser o pior filme de terror de 2019, é certamente um dos mais decepcionantes.

Trailer

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