Subterrânea

A cidade e a matéria

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

Repetindo a lógica de Tiradentes, a Mostra Olhos Livres, novamente, vem com um dos filmes mais peculiares da edição, “Subterrânea” de Pedro Urano é uma obra que transa em duas frentes distintas, o registro documental e a ficção em torno desse registro. Ora Histórico, ora denunciando, o longa caminha nos campos formais cinematográficos para compreender a desarticulação do Rio de Janeiro e do Brasil em prol de um capitalismo de herança lusitana e católica.

O avanço do neoliberalismo no Brasil provocou uma reação em cadeia que não pode ser compreendida apenas no campo econômico mas na geopolítica, geomorfologia, geologia, cultural, religiosa etc. E “Subterrânea” vai nas entranhas da problemática para culpar, com absoluta razão, as diversas tragédias que vimos nos últimos anos. De brumadinho ao pré-sal, de fanatismo religioso ao famoso “sumiço” das vigas. O barato fica transitando entre um fantástico e a denúncia. Um fantástico materialista, encontrando as bases da problemática na fé terceiro mundista, no conluio da Igreja com os poderes imperialistas, na articulação que dá origem ao neoliberalismo, formalizando um capitalismo dependente que está sempre perseguindo os interesses da burguesia internacional, desenvolvida, consolidada, imperialista, exploradora. De Florestan à Theotônio, o filme vai costurando Rio de Janeiro, tecendo Brasil e regurgitando cinema. Cinema é luz com trevas.

Entre a gira cinematográfica que dá fim e início ao processo de libertação da dependência vemos os heróis em sua objetividade individual sanar o processo reacionário vigente no país. Não como Revolução, mas como diagnóstico das falhas do eterno país do futuro que viu o capitalismo e as igrejas reacionárias culminarem no desmonte nacional. Museu, desastres ambientes, crimes, somados à História como ponto basilar de uma compreensão totalizante do materialismo como tautologia na discussão da cultura nacional e regional. Aliás, isso que transforma o Brasil de muitos Brasis, pindorama, um que não muda, um que investe, outro que chuta.

Existe um grau elevado de exposição nos diálogos de “Subterrânea” que servem para exercício didático de contraposição da dialética na estrutura narrativa, mas o tom quase mimético da proposta, fica por conta do estranhamento gerado pela construção da obra em si. Que admite os saltos narrativos como uma necessidade da conjuntura no debate político, uma espécie de arqueologia didática através da História e do “desenvolvimento” do subdesenvolvimento. Essas relações aparecem como elementos quase surrealistas na obra, sem que a explicação esteja presente em sua frente materialista. Não à toa, existe aqui um exercício quase iconoclasta de como essa projeção histórica é dada pela realidade e suas consequências, na política, na sociedade e na natureza. “É como se a água estivesse invadindo a cidade… Ou como algo estivesse emergindo”. Quem cobra aqui não é a história, ao contrário de “Bacurau”, são as atitudes ao longo da mesma que desestabiliza o futuro.

O cinema é o ponto de encontro entre a esperança que deixamos para trás, afim de adentrar nas explicações materialistas, que surge como um sincretismo, entre tambor, gira e o vislumbre das sobreposições, da cantoria profética.

Por essas relações, a obra pode parecer excessivamente arrastada para algumas pessoas, pois sua lentidão é dada através de estranhamentos diversos, entre os zooms na cidade, a investigação delirante, o traçado carioca, morros e cavernas. Porém, esse misticismo que contorna a obra, transforma o balaio todo em um cinema de gênero com proposições que na relação da estrutura com a linguagem materializa uma espécie de expurgo da sociedade, através da objetiva. Pedro Urano realiza uma obra provocativa, engraçada, consciente e que dá saudade de um Rio de Janeiro à tempos no campo memorial.

Em um período onde “algo está emergindo”, o Brasil vê seus representantes enlatados de leite condensado, clubes de futebol que não pagam as famílias, a igreja tendo domínio político e social, Brumadinho, Museu Nacional, Centro Cultura da Justiça Federal provando-se reacionário e tudo mais que poderíamos esperar de uma construção capitalista dependente calcada nas bases dogmáticas da Igreja Católica e do imperialismo.

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