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Sonhos de Damasco

A estética do sonho, dos outros

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

Sonhos de Damasco

Nos escombros de uma guerra que não acabou, “Sonhos de Damasco”, de Émilie Serri, vasculha retratos de uma Síria que apenas permanece na memória dos entrevistados. Existe uma tristeza, às vezes uma tensão, no olhar e nas falas de cada um dos entrevistados que torna a experiência um tanto angustiante.

A maneira que a diretora decide construir uma linguagem que atravessa tempos e se relacione com relatos, memórias e percepções da Síria, é de uma ambiguidade bastante relevante. Durante os minutos iniciais, o documentário vai tentando encontrar sua própria forma, sem muito rumo, o espectador pode se sentir perdido em meio às divagações e encenações que não possuem outro propósito que não seja o estetizante. Boa parte da projeção é marcada por momentos que não contribuem para a discussão proposta, nem mesmo complementam os depoimentos, mas está sempre à procura de belas imagens para compor a obra. A montagem até procura uma linha de construção de seus “Sonhos de Damasco”, mas um dos entrevistados admite que essas imagens de “crianças jogando bola na neve” não tem nada a ver com a Síria. E esse desejo de criar imagens que se assemelham à uma perspectiva exterior, por vezes é confrontado pelos entrevistados.

O interessante é que expõe parte dos conflitos culturais presente na própria realizadora. A permanência desse embate no resultado final, demonstra a preocupação com esse sentimento de não pertencimento à parte dessa história. De toda forma, quanto mais o espectador assiste os refugiados, mais compreende que a fronteira entre o sonho e o pesadelo é um imbricamento irremediável para a maior parte dos personagens. Ainda assim, o filme se propõe a tentar construir sonhos, propondo uma certa suspensão da realidade, revisitando traumas e memórias, entre sorrisos e lágrimas. Nunca consegue fazer desse esforço algo que contribua de forma definitiva, pelo contrário, boa parte dessas fugas acabam fazendo o ritmo cair drasticamente. Sem grandes perspectivas, essas imagens ficam soltas. Contudo, o trecho em película (com a comida posta), consegue ter um efeito melhor, pois vai de encontro com algumas falas que tratam do futuro do país como um grande deserto.

Caso “Sonhos de Damasco” caminhasse em direção à exposição de maneira mais sintética, parte dos conflitos culturais não seriam tão explícitos, logo, por mais que a construção não funcione e por vezes revela um caráter diletante do documentário, essa necessidade plástica demonstra que essa relação Canadá-Síria não poderia ser mais distante. Assim, esse campo da memória se torna algo para se apegar, pois só ali parte dos desejos e percepções podem se materializar. E isso ocorre não apenas nesses polos distintos de duas formações culturais completamente diferentes, mas também por um certo bloqueio na forma como a cineasta decide indagar seus entrevistados. Por conta dessa fixação no sonho, no desejo e na memória sem uma ideia mais consolidada dessas perguntas, muitas vezes os depoimentos são tão subjetivos que perdemos o sentimento coletivo que os refugiados tanto lembram. Alguns materiais de arquivo até ajudam nesse sentido, mas não o suficiente para que o espectador possa compreender na totalidade esse sentimento. Quando a diretora assume que sua maior intenção era fazer um filme sobre a relação dela com o pai, a coisa fica ainda mais desconexa.

Por mais que o filme possua uma intenção dúbia nesses devaneios estéticos, a coisa toda funciona parcialmente na medida que não consegue se estruturar em torno dessas memórias a ponto de se distanciar de um interesse puramente imediato. E nessas relações turvas, existem desconfortos explícitos que são mantidos quase que para assumir uma certa culpa diante de um projeto do que seria os “Sonhos de Damasco”. A própria não identificação de parte dos personagens com a diretora, revela que esse distanciamento está além de reconstruções ou criações, é fruto de uma base cultural e étnica ainda mais profunda, impossível de superar. A entrevista disponibilizada pelo Olhar de Cinema, mostra que essa própria relação com a “terra do pai” está calcada numa série de ideias pré-concebidas.

2 Nota do Crítico 5 1

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