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Sol

Fez sua cama de noivo

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2021

Sol

Entre as metáforas de um Brasil que se perde em melancolia e trauma, “Sol” é um filme que provoca com belas atuações mas não consegue se desvencilhar de artifícios frágeis que engessam a narrativa.

Quanto mais o espectador compreende o sentimento de Theo (Rômulo Braga) e percebe que seu esforço é fugir da imagem de seu pai, menos o novo longa de Lô Politi se encontra diante do próprio drama. Desta maneira, o que resta para o público é um projeto que se constrói em torno de uma complexa relação paterna e particular, nos enfrentamentos de traumas e fantasmas do passado, que está sempre a mercê de recortes que não conseguem conectar as intenções de “Sol” e seu resultado final. Não apenas pelos já citados artifícios, mas pela carga excessiva de ciclos que devem ser quebrados ao longo desta viagem, as sucessivas ofensivas de Theo à frágil figura de seu pai e mesmo pelo vício de procurar materializar a dor de seus personagens em recorrentes questões, seja na agressividade, no sintoma frequente ou na lenta caminhada ao fim.

Nesse eixo protagonista, as atuações centrais são capazes de sustentar a carga dramática de seus personagens, especialmente Rômulo Braga, que há anos vem se destacando como um dos melhores atores de sua geração. Porém, as boas interpretações garantem apenas a boa dinâmica entre a raiva explosiva e a profunda tristeza que assola os três, sem grande impacto no maniqueísmo artificial que assola as transições narrativas. Por exemplo, todo o trecho que nos apresenta esse primeiro encontro, desde a viagem de carro com a filha até o momento da notícia no hospital, a obra se concentra no imediato dos diálogos entre Theo e sua filha com uma clara exposição. A partir da introdução do terceiro personagem as coisas se dividem com pouca funcionalidade e passam pela afirmação constante de motivos cada vez mais duvidosos e apelativos. São imposições catárticas desajeitadas que procuram na metáfora de seu universo uma explicação material para suas questões artificiais. Quanto mais procura no conteúdo descritivo das analogias as respostas para perguntas que nunca realizou, mais o longa vai se perdendo.

As cenas que envolvem a narração do campo de visão nos banheiros, a fim de transmitir a segurança do pai e da filha até conseguem algum efeito, mas tudo que gira em torno das dualidades de suas representações cai no marasmo, como a própria escultura que eles carregam de um lado para o outro. Essa mesma figura que provoca a primeira fala de Theo pai (Everaldo Pontes), é capaz de imortalizar o passado e assegurar que os fantasmas jamais deixem de assombrar. Mas “Sol” só consegue se manter por uma hora e quarenta pela contraposição absoluta dos personagens centrais e do brilhantismo de Everaldo Pontes e Rômulo Braga. Seus ritmos opostos dinamizam a lentidão de um filme que aquece o previsível final desde que esse road movie se estabelece. Assim, a estrutura batida de como essas relações são construídas pela aproximação de seu fim, acaba formalizando a obviedade dessa melancolia enquanto a metáfora que marca o cinema baiano dos últimos anos. E como mérito, as expressões inertes de Everaldo são extensões diretas de um passado que marca na pele mas se esconde por vergonha. Não por acaso uma de suas frases mais marcantes é sobre a incapacidade e covardia que o impede de se explicar.

“Sol” é repleto de boas intenções que se perdem com determinados padrões. Acaba revelando uma série de fragilidades de uma narrativa bastante conhecida que adquire novos contornos através das interpretações de seus atores centrais. Uma obra que esboça os traços que o documentário ensinou para uma construção de suas bases materiais e perdas graves de subjetividade.

3 Nota do Crítico 5 1

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