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Sociedade do Medo

A institucionalização do instinto

Por Vitor Velloso

Durante o Festival do Rio 2022

Sociedade do Medo

Como estruturar um filme que procura falar sobre o “medo”? Existem diversos empecilhos para a conceituação da palavra, que vão desde uma elaboração naturalista, até os diferentes contextos que a ressignificam. Em alguma medida, “Sociedade do Medo”, de Adriana L. Dutra, procura traçar essas questões ao entrevistar pessoas de diversas áreas e militâncias distintas, colocando suas próprias indagações como marcos do filme. Essa atitude é importante para a organização de determinadas exposições e funciona como um certo guia metodológico, pois entre os diferentes questionamentos em torno do “medo”, a cineasta decide explicar ao público quais perguntas está realizando. 

Iniciando o documentário com imagens de armas e falas em torno do medo, o longa nos apresenta parte de suas possíveis causas, mas trabalha com um material que cria relações com os animais e como existe um certo dualismo na relação com o medo, pois algo tem de provocá-lo. O interessante aqui, é notar que ainda que o projeto se debruça sobre questões materiais e situações concretas, que perturbam a sociedade e os indivíduos. Não por acaso, trabalha com consequências não intencionais que mudaram o destino da sociedade, ainda que permita uma relativização de determinadas questões por alguns personagens no filme. Um exemplo disso, é o padre católico que afirma que o medo, nas instituições religiosas, só pode ser provocado a partir da “manipulação ideológica da religião”. Não há espaço para um debate sobre essa afirmação, mas o desconforto quanto a assertividade é inevitável. Contudo, Adriana Dutra permite contrapontos provocativos, já que Ailton Krenak é introduzido após essa afirmação e nos dá outra perspectiva da questão metafísica envolvendo o medo. 

Essas sacadas presentes em “Sociedade do Medo” são interessantes para endossar como a cultura bélica, objeto de constante exposição do filme, faz parte de uma construção ideológica, que é resultado histórico de avanços conservadores e a normalização das violências contra “o outro”. Aqui, o documentário cria uma ponte direta com o atual contexto histórico e político brasileiro, demonstrando como essa “cultura do medo” nos trouxe à atual conjuntura. Está claro que o objetivo do projeto não é estruturar os acontecimentos que resultaram no Brasil contemporâneo, mas aqui há uma série de argumentos frágeis para endossar que “os tempos estão sombrios”. Isso porque existe um certo fatalismo que é inerente à construção da película, que é exposto nos primeiros minutos de projeção com a expressão “medo e pânico latente”. O problema é que essa visão particularmente apocalíptica parece estancar o debate em determinado momento, permanecendo apenas essa paralisação diante da realidade concreta. Os efeitos negativos dessa análise catastrófica estão expostos em “Sociedade do Risco” de Beck: “Multiplicar as visões apocalípticas pode facilmente engendrar efeitos contrários àqueles que procurávamos e reforçar a impotência e o fatalismo.” 

Em alguma medida, esse é o problema de “Sociedade do Medo”, que deveria ser um filme sobre o que o título expõe, mas acaba se tornando um olhar íntimo dos medos particulares e se debruça em uma série de saltos argumentativos, justificando determinados posicionamentos a partir deste “pânico latente”. Neste ponto, é possível utilizar o gancho temático oferecido pela diretora, para participar de certas digressões, mas tudo permanece na superfície. A forma como o medo é materializado em determinadas imagens utilizadas aqui, consegue ter algum efeito, já que é uma complementação gráfica de determinadas elucubrações, o problema é que o funcionalismo é imperativo na concepção das afirmações. 

Por fim, deve-se reconhecer o mérito de Adriana Dutra em saber contornar as impossibilidades de manter as gravações de forma presencial, por conta da pandemia da covid-19, um acontecimento catastrófico que acontece no meio do processo de produção do documentário. A partir deste momento, estamos vendo como as gravações e entrevistas aconteceram, os bastidores dessa feitura e como o cinema lida com determinados desafios que surgem no caminho. “Sociedade do Medo”, que encerra a trilogia iniciada com “Fumando Espero” e “Quanto Tempo o Tempo Tem“, não possui nada de particularmente novo, mas é capaz de provocar algumas reflexões que estão no âmbito da sociedade, não apenas a moderna, e os desdobramentos, causas, intencionais ou não. É provável que o filme ganhe mais força em uma discussão pós-projeção, onde os espectadores vão deliberar sobre o que foi exibido, mas sua potência é limitada pela própria estrutura de saltos drásticos. 

3 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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