Sis Dies Corrents

A comédia consome

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Sis Dies Corrents” de Neus Ballús mostra um choque cultural entre um jovem marroquino e seu chefe catalão, expondo os preconceitos e fetiches do “exótico” que os europeus possuem diante de Moha (Mohamed Mellali). Valero (Valero Escolar), o chefe, é um preconceituoso que não consegue admitir a eficiência do rapaz, sendo rude em todas as situações e partindo na defensiva para dizer que “preconceituoso são os outros, não eu” ou “os clientes não gostam dos estrangeiros”, tentando argumentar que a contratação foi um equívoco.

Já no primeiro encontro a negação de uma vaga e as constantes correções linguísticas mostram o que essa possível relação vai ser. Os clientes “surpreendem”, eles não odeiam a presença de Moha, pelo contrário, se encantam com a diferença, “admirando seus músculos, tom de pele”, fetichiza com seu suor e imagens dele trabalhando. É como “O Medo Consome a Alma” (1974), onde o “exótico” se torna objeto de fascínio, um preconceito que apenas objetifica os corpos para seu bel prazer. Mas a forma que Ballús desenvolve essa história, transforma o drama vivido por Moha em uma comédia que acaba diluindo esse conflito em situações prosaicas e “divertidas”. Assim, os esforços de “Sis Dies Corrents” são menos incisivos na apresentação da problemática europeia e fecha a encenação em ocasiões situacionais, onde esse preconceito raivoso passa a operar na própria auto-estima de Valero.

A linguagem procura um meio termo mais pacífico para as resoluções das questões, sendo direta nos enquadramentos mas seccionando os espaços individuais. Esse jogo da mise-en-scène funciona para diferenciar os dois mundos, em uma ordem diária que se diferencia no tratamento familiar e na própria culinária. Ao suavizar o debate, o filme até consegue dialogar com mais flexibilidade, mas apesar de não fugir da política, diminui o impacto conforme progride para uma aproximação iminente. É mais um filme sobre a diferença Espanha x Cataluña e uma amizade “improvável” que o preconceito de Valero. Mohad até é o centro da narrativa, contudo essas relações de trabalho entram como ordem primária em uma narrativa que se baseia no contrato temporário. A religião, por exemplo, é um dado que o filme ignora de maneira acentuada, seja na base da fé ou na moral em si.

Por essas razões, a obra está mais interessada no exercício do gênero através de um conflito político do que criar uma reflexão sobre o mesmo. E isso faz falta quando a exibição acaba e o espectador nota que o sentimento de culpa surge de um diálogo do cotidiano que alerta o “mal humor” de Valero ao longo da semana, “Não sei como Moha aguentou, ele deve ser um santo”. Não, ele precisava de dinheiro. A mera especulação retoma a diferença cultural que é trabalhada paralelamente em quase uma hora e meia de projeção. Como dito anteriormente, a situação é um dispositivo que “Sis Dies Corrents” se utiliza. O rigor diante da comicidade, faz com que hajam investidas mais acentuadas em direção às histórias bizarras do dia-a-dia de um encanador. Existe uma utopia presente constantemente que incomoda na maior parte do tempo, acreditando que apesar de tudo, eles poderiam conviver em harmonia. Ora, se a própria relação de trabalho já cria um sistema de repressão direto, o problema que o projeto apresenta não consegue encerrar nem a refrega de Moha x Valero.

De toda forma, poucas coisas se sustentam na totalidade aqui e a unidade estilística do filme não consegue manter as coisas em pleno funcionamento. A própria comédia falha ao acreditar que as bizarrices prosaicas munidas de uma encenação naturalista mais passiva é capaz de provocar algum riso no espectador. Na verdade, os espaços até são bem explorados por Ballús, com algumas composições verdadeiramente criativas (a do telhado por exemplo), só que o humor não funciona só na imagem e sua síntese se esconde em assuntos que não deveriam ser omitidos com tamanha facilidade. “Sis Dies Corrents” tinha uma boa história na mão para desenvolver duas formas diferentes de opressão, contudo prefere a sintomática expressão das comédias europeias, um grande tapete que aparenta homogeneidade, ainda que diga o contrário.

Trailer

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