Shiva Baby

Antropologia da Tribo Israelita do Brooklyn

Por João Lanari Bo

Mubi

Shiva Baby”, longa-metragem de estreia de Emma Seligman, foi rodado em 16 dias com orçamento de apenas 225 mil dólares. O produtor Kieran Altmann alega que o competitivo mercado cinematográfico de Nova York ajudou a viabilizar a produção dentro desses estreitos limites, já que podiam negociar descontos no aluguel de equipamentos e contratar equipe com salários abaixo da média, pelas amizades com artistas e pessoal técnico, muitos deles egressos do curso de cinema da New York University: a própria Emma, judia canadense de Toronto, estudou na NYU. Como todo o filme se resume praticamente a uma locação, a casa onde transcorre a Shivá – período de luto judaico mantido pela morte de uma pessoa próxima – deu para fechar a conta. A casa, aliás, foi alugada através do Airbnb; concentrar a ação na mesma locação foi também uma decisão financeira. Segundo a diretora, financiar o filme foi “provavelmente a coisa mais difícil” da produção: sucessivos potenciais investidores foram contatados, mas a resposta invariavelmente incluía controle criativo sobre o roteiro, que a turma da NYU não estava disposta a negociar. Desenvolvido a partir de um curta-metragem feito na conclusão do curso (o nosso famigerado TCC), o roteiro de Emma agradava gregos e troianos, mas teve de esperar uns dois anos para descolar a produção, período em que escreveu e reescreveu cenas e diálogos – já conectada com parte do casting, sobretudo a atriz principal, a fantástica Rachel Sennott (também ex-NYU, comediante stand-up e atriz do curta).

Ao fim e ao cabo, deu tudo certo. “Shiva Baby” revelou-se uma comédia de alta intensidade dramática, na melhor tradição dos filmes real time – ou seja, quando os eventos fílmicos são narrados no mesmo diapasão de tempo da fruição espectatorial. O tempo ficcional, habilmente construído na direção, em particular na montagem, produz essa sensação de coincidência ilusória com o nosso próprio devir temporal, levando à imersão no contexto da trama – ambientada numa tribo israelita do Brooklyn novaiorquino – como se compartilhássemos todas as discrepâncias e desejos partidos dos personagens, rindo e chorando com elas e eles, interiorizando essas vivências de um jeito, digamos, aristotélico – “a comédia é imitação de uma ação risível e de grandeza imperfeita, completa, em linguagem ornamentada… a imitação se dá com atores e não pela narrativa; pelo prazer e pelo riso efetuando a catarse de tais afecções”.

Um riso catártico, enfim. Emma atribui a intimidade dessas situações dramáticas à sua experiência de crescimento em uma família de Asquenazes reformistas em Toronto, de contorno socioeconômico semelhante à tribo do Brooklyn. Tribo: um tipo de agrupamento humano unido pela língua, costumes, instituições e tradições. Apesar de alguns antropólogos repudiarem o uso da palavra “tribo” pelo suposto tom pejorativo, ela cai como uma luva para descrever a miríade de conflitos geracionais e comportamentais, de pulsões gastronômicas e anoréxicas, de trapalhadas e traições que circulam em “Shiva Baby”. Danielle, uma jovem em vias de empoderamento sexual, como sugere a diretora, tem como opção a bissexualidade – não como militância ou rebeldia, mas como extravasamento hormonal. Transar com um sugar daddy e namorar a amiga, ambos da tribo, não é uma contradição: é, como diria a sabedoria judaica, processo de crescimento.

Sim, sabedoria – uma das melhores tradições do judaísmo é o humor, já dizia, entre outros, o genial judeu Sigmund Freud. Uma tradição que se cristalizou no século 19 e que atravessou todos os inimagináveis sofrimentos dos judeus no século 20. “O humor é um dom precioso e raro”, dizia o psicanalista, é “qualquer coisa de grandeza e elevação… não é resignado, mas rebelde”. Rir é uma função psíquica elevada, portanto, pois é libertadora e enobrecedora: possui uma dignidade que a mente humana cria para se desviar do sofrimento. Vale à pena lembrar uma citação um pouco mais longa dessa brilhante sacação freudiana: o humor “é um meio de obter prazer, apesar dos afetos dolorosos que interferem com ele; atua como um substitutivo para a liberação destes afetos, coloca-se no lugar deles … o prazer do humor… procede de uma economia na despesa do afeto, ao custo de uma liberação de afeto que não ocorre”. “Shiva Baby” constrói essa complexa rede de imagens-afeto, com Danielle no centro e uma circularidade de subcentros em torno dela. A origem desses afetos, segundo o velho Freud, pode ser compaixão, raiva, dor, ternura, até um sorriso entre lágrimas. Afinal, já informava a saudosa Reader’s Digest, rir é o melhor remédio.

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