Sessão Mostra Preservação da CineOP 2020

SESSÃO MOSTRA PRESERVAÇÃO

PANTERA NEGRA

“Pantera Negra ganhou menção honrosa no IV Festival de Cinema Amador JB/Mesbla, em 1968. Um filme musical pintado à mão, foi a primeira experiência com cinema de animação do artista e ilustrador Jô Oliveira, na época integrante do grupo Fotograma, organização que reunia o trabalho de diversos artistas e promovia o cinema de animação no Brasil. O filme foi digitalizado em 2019, o que permitiu a sua redescoberta como um material importante para história do cinema experimental no Brasil. O material original, com as cores pintadas em nanquim, está sob os cuidados do artista.”

Mais um integrante da Mostra Preservação, “Pantera Negra” dirigido por Jô Oliveira é um curta-metragem experimental, que se utiliza da animação para construir seus caos na imagem, contemplando um ritmo de batidas velozes, com imagens de arquivo, para consagrar sua manifestação política e cultural junto ao movimento norte-americano.

Não há nenhuma tentativa de diluir o discurso a partir da não-exposição, pelo contrário, quanto mais “Pantera Negra” avança, mais direto ele fica em sua proposição. O filme é consciente em como trabalha as questões da estética e suas movimentações políticas e sociais e consegue criar uma obra absolutamente instigante. Assim, questões próximas a Brakhage ficam apenas no campo da formalidade, pois Jô se concentra majoritariamente em tornar seus experimentos em campos dilatados de exposição ideológica. 

Sessão Mostra Preservação da CineOP 2020

GAFIEIRA  

“Em 2014, o “Projeto Resgate da obra de Gerson Tavares” preparou, digitalizou e recolocou em circulação a produção do cineasta fluminense Gerson Tavares. Gafieira foi produzido pelo Instituto Nacional de Cinema (INC) e registra uma noite de sábado na tradicional Gafieira Elite, na praça Tiradentes, no Centro do Rio de Janeiro. Fotografado por Lauro Escorel, o curta traça o painel de um típico salão de baile que já então desaparecia da cidade. A cópia em 35mm do curta-metragem, matriz da presente digitalização, está depositada na Cinemateca Brasileira, São Paulo.”

Com direção de Gerson Tavares “Gafieira” é um belo retrato de um momento particular na Gafieira Elite, no Centro do Rio, Praça Tiradentes (aqui 72), e o valor histórico que possui nesse projeto, é imensurável. 

Se podemos falar que enquadrar é exclusão, aqui o mundo se resume à Gafieira e Gerson Tavares faz um esforço para incluir todos, trabalhar a montagem no ritmo daquela felicidade toda, mostrar as danças estonteantes e incessantes, mas é consciente do tom prosaico que há ali, de uma finitude que possui reinício a cada dia. Nos minutos finais, a câmera acompanha aquele local, deslocado, que sem a presença da dança, dos dançantes, torna-se ordinario.  

E o poder que “Gafieira” possui, reside no registro e nas pessoas que fazem parte desse momento, daquela particularidade em meio ao Rio de Janeiro, enquanto o mundo lá fora era desgraça, morte, caos. A dialética está no montagem, contexto, na matéria, na História. Pessoas dançando, pés, homem dormindo na cadeira, sorrisos, músicos, a bebedeira e a aglomeração.

Viva Gafieira!

Sessão Mostra Preservação da CineOP 2020

CRECHE-LAR

“Nos anos 1970, Maria Luiza Aboim integrava o Centro da Mulher Brasileira (CMB), uma organização feminista centrada na reflexão sobre a condição da mulher na sociedade. A ausência de creches, e a necessidade urgente de criar condições para que as mães pudessem ter apoio no cuidado com filhos, eram temas frequentes. Creche-Lar, o primeiro filme da diretora, parte dessa busca e retrata uma experiência de creche comunitária em Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, onde trabalham mães residentes no bairro. A cópia do filme está depositada, em regime de comodato, no Arquivo Nacional, Rio de Janeiro.”

Documentário de 78 dirigido por Maria Luiza Aboim, “Creche-Lar” é outro documento de absoluta importância para a História e para o Cinema Brasileiro. É o retrato do subdesenvolvimento atingindo diretamente as mulheres, os filhos, o trato junto a sociedade. É o capital dependente tentando destruir qualquer forma de organização e ajuda mútua. Mostra como o Estado ignora e exclui uma parcela da sociedade como quem finge que não existe, ou nega, como o atual ocupante da cadeira presidencial. 

“Creche-Lar” é mais uma prova que derruba qualquer argumentação de revolução feminista no capitalismo, é impossível resolver grande parte das demandas sem derrubar quem detém o poder do capital, quem oprime e organiza a desigualdade. Consciente disso, Aboim organiza seu filme para mostrar os cuidados básicos, precários, que aquelas mulheres, com uma força descomunal, empenham para que se garanta o mínimo de alimentação, de segurança e organização na ajuda mútua. 

Sessão Mostra Preservação da CineOP 2020

ECLIPSE

“Eclipse é considerada a obra mais marcante de Antônio Moreno. Nascido em Fortaleza e radicado no Rio de Janeiro, o cineasta e professor foi um dos fundadores do grupo Fotograma, marco da animação experimental no Brasil. A partir de 1972 realizou 15 curtas-metragens. Eclipse, filme-ensaio experimental sobre os 21 anos de ditadura no Brasil, foi realizado através de animação direta na película, tendo ganhado menção honrosa no XIII Festival de Gramado em 1985. Foi digitalizado em 2019 através da iniciativa do Urubu Cine, cineclube dedicado ao curta-metragismo brasileiro.”

“Eclipse” de Antônio Moreno, chega para cobrar dos falsos revolucionários a materialidade que a América Latina necessita. De Carlos Drummond à Glauber, destrincha a política vulgarizada desses que levantam bandeiras falsas para falar do processo do subdesenvolvimento, defendendo uma conciliação da Revolução com o lírico do poeta. Não compreenderam que o sonho desencadeia o irracionalismo através do materialismo, do delírio, processo acachapante de desarticulação política da crença. É cinema de rotação. A pedra é material do caminho, processo. 

Vulgares os que bradam a fragilidade como artifício de revolução. Os que confundem precariedade e dependência com ludismo tacanho. Não há charme na morte, na miséria, há a necessidade de revolta, de um debate que se compreenda que a Revolução Cultural é parte dialética de uma Revolução de fato. Não o orgasmo aburguesado que sonha em conquistar independência na situação. 

“Eclipse” é a dialética do processo revolucionário, com olhar crítico ao fracasso.

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