Mostra Um Curta Por Diq mes 13

Sem Deixar Rastros

A repressão desintegradora e asfixiante do Estado

Por Paula Hong

Sem Deixar Rastros

A ficção oferece aparatos que permitem abrandar o insuportável na realidade. Por vezes, oferecem alternativas para acalentar sua dureza concreta, fabular realidades outras onde a projeção de um lugar melhor torna-se possibilidade. No entanto, em “Sem Deixar Rastros”, o diretor polonês Jan P. Matuszyński mantém-se fiel na retratação da morbidez corrupta de uma Polônia que não mede esforços para cobrir as impurezas dentro das instâncias estatais. Dentro dos 160 minutos de duração, a obra suscita uma imagem ampla, por vezes distante, mas capaz de encapsular uma repressão que suscita dores longevas, e para além da física. 

O filme não se demora na apresentação do evento, a morte de Grzegorz Przemyk (Mateusz Górski) — fio conductor que enlaça pessoas que mais tarde serão espremidas à exaustão pelo Estado. Não há espetáculo: é breve, abrupto, curto, mas deixa marcas. A morte repentina do jovem estudante Grzegorz representa a fragilidade da vida de qualquer um naquele momento. O reconhecimento disso é expresso nas ruas, onde cerca de mais de 15 mil pessoas acompanham a procissão de seu corpo até a igreja. A brutalidade com que fora morto manda a mensagem de que o mesmo pode acontecer com quem pensa como ele: a oposição. O corpo de um adolescente — ou de quem quer que seja — não é páreo para a força física e política do Estado. 

A partir daí, a obra se desenrola em torno dos que ficam: a mãe de Grzegorz, Barbara Sadowska (Sandra Korzeniak), já perseguida naquele ano; Jurek Popiel (Tomasz Zietek), amigo de Grzegorz e única testemunha do ocorrido; Wysocki (Sebastian Pawlak), quem socorreu o jovem rapaz na ambulância; os pais de Jurek, Tadeusz Popiel (Jacek Braciak) e Grazyna Popiel (Agnieszka Grochowska), e tantos outros que, de uma forma ou de outra, foram persuadidos a corroborar com a versão caluniosa do Estado, e suspender qualquer esforço que estivesse beneficiando o outro lado. Jurek é o único que, apesar da pressão e da traição do próprio pai, mantém-se disposto a lançar luz sobre a verdade. Isso é habilmente representado pela quantidade de pessoas dispostas a ajudá-lo que, aos poucos, vão deixando de aparecer em tela, enquanto que representantes do Estado tornam-se a maioria. 

Nesse sentido, “Sem Deixar Rastros” (sobretudo pelo roteiro de Kaja Krawczyk-WnukCezary) executa muito bem o papel desestabilizador que qualquer estado de opressão faz: seus tentáculos alcançam a base, apodrecendo-a, derrubando um por um  até encurralar seu inimigo, deixando-o à mercê da força desproporcional e injusta exercida sobre ele. Embora espera-se que a ruptura aconteça por meio da violência física, no filme isso ocorre por meio de chantagens, coerções e fabricação de provas, de modo que relações são rompidas, restando o isolamento sufocante. A exemplo, o apartamento de Barbara Sadowska, que no começo do filme está quase sempre cheio, fica cada vez mais vazio, e são poucas as pessoas dispostas a cuidar dela, oferecendo apoio, principalmente quando é acometida por uma depressão.

Outro exemplo é o de Jurek Popiel e seus pais, Tadeusz Popiel (Jacek Braciak) e Grazyna Popiel (Agnieszka Grochowska), cuja estabilidade empregatícia e de renda são ameaçadas pelos militares. Jurek mantém-se fiel ao depoimento do que viu. Já seu pai, Tadeusz, constantemente mantém-se do lado da repressão da qual já fizera parte um dia, à espera de uma recompensa ou reconhecimento, ao mesmo tempo que tenta, em vão e por meios desonestos, ganhar a confiança do filho. Já a mãe, Grazyna, é localizada no fogo cruzado entre as discussões dos dois, e raras vezes expressa verbalmente o descontentamento de presenciar a família se desintegrando. 

O filme sucede pela moderação com que pincela essas histórias, optando por manter o aspecto — tanto visual quanto emocional — cinzento, frio e rugoso em vez de uma espetacularização dos eventos, em especial a cena do espancamento de Grzegorz. O retrato social, político e histórico daquele momento é representado pelos excessos da rispidez repressiva por meios políticos, e não pela brutalidade física, embora ela tenha sido o ponto inicial. Mostra que desestabilização emocional, financeira e familiar é muito mais danosa a longo prazo, e que sugar as energias é eficaz, não deixa rastros e desvia a responsabilidade. Por dar conta de abranger essa capacidade devastadora do Estado, “Sem Deixar Rastros” expõe suas trucagens patéticas e revoltantes, de modo que possamos enxergar as dinâmicas do quebra-cabeça e antecipar seu desfecho infeliz.

4 Nota do Crítico 5 1

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