Segredos Oficiais

Memórias de uma Invasão

Por Pedro Guedes

O início do Século XXI representou uma das fases mais controversas da História dos Estados Unidos. Pouco após os ataques de 11 de Setembro de 2001, o então presidente George W. Bush decidiu aproveitar o contexto estabelecido pela tragédia e o medo da população norte-americana por terroristas para deflagrar a infame invasão ao Iraque, alegando que o também presidente Saddam Hussein tinha posse de armas de destruição em massa e que isto representaria um risco a ser eliminado – e, com o tempo, ficou cada vez mais claro que a tal “Guerra ao Terror” nada mais era do que uma tentativa de explorar os poços de petróleo iraquianos.

E o Cinema, claro, refletiu o contexto pós-11 de Setembro em suas narrativas – afinal, um dos papeis da Arte é justamente o de discutir (e, em alguns casos, denunciar) os acontecimentos da realidade ao seu redor. Neste sentido, é importante que ainda hoje existam obras que abordem as controvérsias da Era Bush, já que estas continuam recentes na História do mundo. Assim, é admirável que filmes como “Segredos Oficiais” sigam chegando ao circuito comercial – mesmo que, na prática, a realização de diretores como Gavin Hood acabe comprometendo boa parte do resultado final.

Escrito por Gregory e Sara Bernstein e pelo próprio Hood a partir do livro “The Spy Who Tried to Stop a War”, de Marcia e Thomas Mitchell, o longa se concentra na história real da inglesa Katharine Gun, uma tradutora de mandarim que, em 2003, tornou-se mundialmente conhecida ao revelar informações extremamente confidenciais da NSA (Agência de Segurança Nacional). Obtidos em memorandos ultra secretos, estes dados basicamente comprovavam a obsessão dos Estados Unidos em invadir o Iraque assim que possível, pressionando outros seis países para que estes os apoiassem nesta polêmica decisão.

O simples fato de “Segredos Oficiais” retratar uma situação como esta é importante por si só, já que muitas pessoas que talvez não conheçam a figura de Katharine Gun serão apresentadas a uma história importantíssima e que ajuda a entender de uma vez por todas que o que aconteceu no Iraque não foi só uma guerra, mas uma invasão. Só por isto, o roteiro do casal Bernstein e de Hood já merece uma atenção – mesmo que a relevância temática do projeto acabe sendo convertida em diálogos dolorosamente tolos e artificiais: ao ver um discurso mentiroso na TV, Katharine diz algo como “Não, não, isto é uma mentira! Você é um mentiroso!”, não podendo ser mais óbvio em suas intenções dramáticas.

Além disso, o fato de Gavin Hood não ser um diretor particularmente brilhante acaba gerando alguns problemas: depois do elogiado “Infância Roubada”, o cineasta realizou obras como “Ender’s Game: O Jogo do Exterminador” e “X-Men Origens: Wolverine”, o que certamente não fez bem à sua reputação. Em “Segredos Oficiais”, Hood volta a se mostrar incapaz de conduzir uma narrativa mantendo o mínimo de sutileza, tentando construir uma atmosfera de tensão que, justamente por ser tão óbvia, acaba falhando miseravelmente – e se a trilha de Paul Hepker e Mark Kilian se esforça ao máximo possível para indicar gravidade e dramaticidade, a fotografia de Florian Hoffmeister mergulha os atores em sombras que escancaram a sobriedade da trama sem nenhuma parcimônia, tornando-se cansativa à medida que a projeção avança.

Já a performance de Keira Knightley se revela irregular: em alguns momentos, a atriz se sai bem ao ilustrar o cansaço e o nervosismo sentidos por Katharine, que trava uma verdadeira batalha ética contra seus opositores; em outras ocasiões, no entanto, sua composição soa esquemática e teatral, abusando de “muletas” de interpretação que vão de gaguejadas falsas até oscilações óbvias no volume de sua voz. Em contrapartida, Ralph Fiennes não apresenta pontos baixos, surgindo contundente ao construir uma postura sisuda, mas pontualmente invadida por incertezas – e se compararmos este personagem aos demais que Fiennes viveu em sua carreira, nos damos conta mais uma vez de como ele é um ator versátil.

Tornando-se aborrecido em diversos momentos que deveriam causar inquietação, “Segredos Oficiais” ainda traz, durante os créditos finais, alguns trechos de vídeos reais que mostram como a verdadeira Katharine Gun é fisicamente diferente de Keira Knightley, o que, infelizmente, quebra de uma vez por todas a imersão do espectador. Assim, o que resta é um filme tematicamente importante, mas falho em sua execução.

 

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