Satyricon

Por entre as Romas e labirintos de Fellini

Por Roberta Mathias

“Satyricon” ,de Fellini , é preciso dizer! Assim como a outra obra que irei analisar nesse conjunto proposto em homenagem ao diretor(Roma) a leitura fílmica só fica completa quando implementamos no nome do diretor aos seus longas. Assim- Roma ,de Fellini!

Apesar de ser adaptada de uma  antiga obra romana de Petrônio, “Satyricon” traz muito de seu diretor. A começar pela parceria com Nino Rota. Os sons em “Satyricon” são extremamente incômodos e soturnos, como toda obra em si. A parceria com Rota, diria eu, foi essencial para nos levar à esse clima nebuloso.É muito curioso ,pois ritmos africanos também compõe grande parte da trilha revelando que “Satyricon” não tem muito compromisso em relatar uma Roma realista- a própria obra literária original já não  tinha esse compromisso,ao contrário, se propunha como sátira( gênero no qual Fellini é mestre). Por esse filme, Fellini foi pré-indicado  ao Oscar de filme estrangeiro.

Na primeira primeira sequência observamos um Encólpio desesperado pela separação de seu amante Ascilto e disposto à consegue-lo de volta. Para chegar ao seu sujeito de desejo, Encólpio não mede esforços.

Fellini joga com ambientes nos quais os ecos reverberam como se as frases a maldições fossem anelada a um espaço atemporal. Os monólogos travados com o espectador também revelam um pouco desse exagero sempre presente nas obras do diretor. Não é somente Encólpio que transborda de amor por Ascilito , mas todas as personagens mostram suas qualidades e podridões das maneiras mais escrachadas possíveis.

A luta que Encólpio trava com Gitão é uma coreografia ,mas há algo de sensual na interação desses corpos, como se ambos estivessem lutando contra um desejo que poderia se manifestar em outro momento – talvez quando a figura de Ascilito não estivesse mais presente.

A antiga Roma de Fellini não é glamurosa ou heroica ,mas jocosa. Talvez, por isso todos corpos transitem entre a seriedade e o escárnio. É uma Roma que surpreende ao espectador não iniciado em sua obra, pois apresenta a apresenta de uma forma a fugir do imaginário popular e na qual todos atores estão um tom ( ou alguns) acima da naturalidade. Fellini extrapola o espaço dos antigos teatros romanos e levas essas ações, que só seriam naturalizadas na arena de teatro para a trajetória de Encólpio.

Logo após escapar sem seu amante, Encólpio embarca em uma aventura que ,por vezes, me lembrou o quadrinho de Dino Buzzati :Poemas em Quadrinho (1969). Não posso dizer com certeza que Fellini foi inspirado por ele ou vice-versa, mas sei que dialogavam e o diretor pretendia adaptar uma obra do escritor para o cinema. É possível que houvesse uma influência já que os artistas contemporâneos que compartilham linguagens similares costumavam trocar referências e ideias.

Não há como definir cronologicamente a ordem dos acontecimentos em “Satyricon”– ainda que ela exista- , mas a ordem é de outra instância: os acontecimentos simplesmente acontecem.

As salas e labirintos- com Minotauro- percorridos ora explicam suas personagens, ora não, No entanto, por mais confuso e estranho que o filme possa parecer há algo de estrutural na obra de Fellini. Os quadros e diálogos parecem muito bem pensados para causar reações divergentes nos espectadores,mas para não mantê-los no conforto da passividade.

Ainda que não possamos ter uma compreensão exata dos trajetos e trajetórias do filme, algumas simbologias são espalhadas pelos espaços híbridos criados pelo diretor.  A Roma de Felllini, é uma cidade que tem regras, mas não espere encontrá-las bem definidas e definitivas.

Fellini nos mostra em “Satyricon” uma variedade visual que, talvez, só pudesse ter saído da cabeça de Jodorowsky– cineasta chileno que tem em sua obra a característica de contar histórias a partir de uma visualidade própria e um tanto quanto estranha e bizarra, assim como Fellini. Para além do roteiro e da história o filme se propõe à esse clima místico e cheio de sequências fortes durante as quais somos expostos à um processo de desligamento da realidade. É um novo tempo sensorial ao qual não estamos acostumados.

Há um pouco de ensinamento na necrofagia proposta ao final- ainda que saibamos que alguns povos recorram a esse ritual, me parece que Fellini trata também de outro aspecto. Talvez, somente ao devorar nossos fantasmas e ao nos deixar guiar por caminhos mais combativos que nossos próprios mestres, poderemos , enfim, encontrar outras possibilidades de ver e saber. Acredito que Fellini , ainda que tenha demonstrado sua preocupação com a advento da televisão e outras formas de acesso à visualidade, também acreditasse que ao buscarmos referências visuais em outros tempos fôssemos capazes de recriar o elo mágico entre o cinema e o espectador.

Trailer

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *