São Paulo, Sociedade Anônima
Máquina de moer
Por Vitor Velloso
Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2025
É interessante como, mais de seis décadas depois, “São Paulo, Sociedade Anônima” continua sendo uma das obras que melhor compreendeu o contexto da vasta industrialização, confundida muitas vezes com “modernização”, e seus efeitos diretos no comportamento social, na estrutura das relações e no esmagamento irremediável do indivíduo. Person é capaz de traduzir essa máquina de moer gente, também chamada de São Paulo, em um projeto ansioso, atropelado por desejos, impossibilidades, imposições, normatividades, performances esperadas e desespero, entre outros fatores.
Trata-se de um filme denso, que transborda temas, personagens e conflitos, replicando essa agonizante relação do indivíduo com o mundo acelerado ao seu redor. E olha que estamos falando de um longa-metragem de 1965. Até os dias atuais, ninguém conseguiu reproduzir esse sentimento ou adaptá-lo, intensificando-o para o mundo contemporâneo. Esse volume de sensações, tão bem reproduzido na labiríntica relação de Carlos (interpretado por Walmor Chagas) com tudo e todos ao seu redor, representa a convulsão do homem diante das demandas que lhe são arremessadas.
“São Paulo, Sociedade Anônima” costura, desde sua introdução, uma série de situações que se cruzam e se tornam conflitantes: a misoginia aguda de Carlos, seus desejos incontroláveis, a necessidade de domínio e suas atitudes infantis ao não conseguir controlar as mulheres ao seu redor. O personagem é absolutamente detestável, mas a forma como o contexto o engole altera a chave pela qual o filme funciona. Aliás, a impossibilidade de sair de São Paulo é apenas uma projeção de um cenário onde o suposto desenvolvimento do país surge como uma locomotiva que angaria almas e as descarta assim que sua utilidade se extingue.
Na base de todos esses problemas, o capitalismo aparece como esse tom perverso que vai corrompendo todos os personagens pela base de suas necessidades, fechando portas e abrindo-as conforme a conveniência dessa máquina de desumanização. Existe algo de macabro em como essas relações vão sendo atravessadas pela consequência dessa modernidade, tardia e virulenta, que se debruça sobre o prisma do Brasil na década de 60; uma modernidade que não desenvolve o país, mas traz consigo todas as chagas do aprofundamento do subdesenvolvimento e dos monumentos falidos desse contexto particular, desde a Transamazônica até a retirada das formas de representação que se estabeleceram no Cinema Novo, elemento de profunda contradição estética e política de um modernismo tardio que se apossou da consciência artística.
E, claro, o símbolo máximo de todo esse processo é a cidade de São Paulo. Enquanto Brasília foi uma febre delirante dessa necessidade de se colocar diante do mundo, com uma promessa natimorta de transformar a capital do país em uma “Roma brasileira”, os processos capitalistas destruíram o desenvolvimento nacional na aproximação do imperialismo estrangeiro nas bases econômicas, políticas e sociais do Brasil — sendo este último um elemento fundamental para a compreensão da obra. Promessas falidas, desejos delirantes e o encerramento do indivíduo enquanto mero representante de uma função pré-estabelecida, incluindo aqui a de “homem”. Carlos é uma espécie de para-raios de todas as crises ali estabelecidas.
Luciana, interpretada por Eva Wilma, torna-se vítima de todo esse processo, mas sempre sob a perspectiva de Carlos. Hilda, interpretada por Ana Esmeralda, expõe as fragilidades dele e uma saída pouco digna, de grande risco, para essas amarras impostas à sociedade, tendo um trágico fim. Por fim, é um filme que concentra tanto suas discussões através de Carlos que acaba desperdiçando alguns bons debates possíveis ao seu redor, desde personagens que se tornam particularmente descartáveis à narrativa até uma discussão crítica dessa realidade, especialmente sobre a presença dessas empresas estrangeiras nesse contexto, mas nada que retire o brilho do filme e seu assustador funcionamento até os dias atuais.
Ainda que haja alguns retratos quase caricaturais, “São Paulo, Sociedade Anônima” não erra ao conseguir uma representação patética de diferentes formas de dominação do capitalismo sobre a vida de cada um. O irmão de Luciana, tosco e alienado, assiste à peçonha norte-americana pela televisão enquanto come uma coxa de frango como um zumbi. É um retrato que nos parece tão próximo em pleno 2026 que assusta a forma como determinadas imposições do “sistema”, palavra genérica e utilizada a esmo, seguem acontecendo ou se intensificaram.




