Rolê – Histórias dos Rolezinhos

O público e o privado

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Rolê – Histórias dos Rolezinhos”, novo longa de Vladimir Seixas (de “A Primeira Pedra”), é um documentário bem mais ambicioso do que parece. Se em um primeiro momento o espectador acredita que o filme irá se fixar nos “Rolezinhos”, a obra vai se desdobrando para uma abordagem cada vez mais maior, discutindo ramificações do racismo brasileiro, a vida de alguns personagens centrais depois dessas ocupações em Shopping, chegando até as eleições de 2018.

Existe um certo vácuo em parte dessa construção, uma tentativa de aproximar parte do material de arquivo coletado na internet, com as histórias e depoimentos de seus personagens, que acaba não funcionando muito bem por fixar-se no apelo moral desse racismo, não em sua estrutura. A falta de um diagnóstico mais consciente das etapas que fizeram o Brasil chegar ao seu atual momento, passa não apenas do salto imenso que o filme faz de 2013 a 2018, utilizando um vídeo de um racista para criar uma ligação direta com o atual governo brasileiro. Os motivos disso, nós sabemos, mas essa ponte não funciona e parte da obra passa por performances, discursos e vídeos dos rolezinhos. Essa estrutura pretendia mostrar o racismo em seu ponto moral, partindo do ódio de alguns e nojo absoluto de outros. Porém, “Rolê – Histórias dos Rolezinhos” se propõe a ampliar o espectro de sua discussão, visando essa compreensão de forma totalizante, mas foge de alguns temas centrais. A temática da exclusão social e a impossibilidade de ir e vir, é o ponto de partida que fez com que os rolezinhos surgissem com força, mas a questão do consumo não é abordada aqui e por mais que a relação desigualdade x desejo não fosse trabalhada no contexto, seria necessário tocar no assunto para um olhar crítico.

Por essa razão, quando o ensejo neoliberal de homogeneizar as aspirações de consumo (que não implica em sua capacidade), chega a tal ponto que não se discute a incorporação da lógica em um contexto social, psicológico, que apenas acentua as desigualdades, essa discussão permanece sempre incompleta. A questão do racismo, quando desvinculada de algumas questões, a da propriedade, por exemplo, aparece em seu caráter mais moral. Parte dos personagem durante o documentário, podem até dialogar com esses assuntos, mas não vão adiante.

Quando a performance com megafone acontece, “Rolê – Histórias dos Rolezinhos” perde um certo gás do próprio material de arquivo. Esses trechos de reportagens e vídeos são boas sínteses da sociedade brasileira e o racismo do cotidiano, onde o Shopping se torna o palco para essa manifestação de indignação com a exclusão da periferia e a classe média branca brasileira entra em desespero diante do pão com mortadela, dos negros circulando nos corredores do centro comercial etc. Mas apesar de uma boa quantidade desse material, o documentário tem dificuldade de conseguir organizar essas imagens com objetividade, acaba criando uma estrutura que expõe muito e debate pouco. Quando se concentra em mostrar a repercussão midiática dos rolezinhos e encontrar seus personagens, a coisa até funciona parcialmente, o problema é que apesar do bom ritmo, existe uma certa desorganização formal que nunca se encontra plenamente.

Com um dinamismo didático, o filme possui méritos em encontrar essas imagens sínteses da sociedade brasileiro, mas acaba falhando quando propõe um olhar crítico para essa mesma sociedade, quando deve confrontar algumas contradições internas, tanto do racismo em si, quanto das próprias manifestações. Possui a expertise de não permitir que o projeto nasça datado, já que vai costurando alguns acontecimentos do país para chegar à contemporaneidade, mas esse salto é mais impulsivo que construído, o que é uma pena, existia uma boa discussão possível. Ainda assim, “Rolê – Histórias dos Rolezinhos” é capaz de trazer algumas memórias de um momento em que a imprensa brasileira se debruçava em sua defesa espalhafatosa da classe média branca brasileira. E ainda o faz.

Trailer

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